Capítulo XXII
A seu tempo saberemos até que ponto o senhor Antônio podia ser civilisado por sua mulher.
Agora vamos procurar Rosa Guilhermina.
Antes de entrarmos, reparemos nesta mulher que bateu à porta primeiro que nós.
— Quem é? — perguntou da janela uma criada.
— Faz favor de dizer à senhora D. Rosa que está aqui uma mulher, que lhe quer falar.
— Que lhe quer?
— A vmc. e não lhe quero nada, é a sua ama.
— Quer pedir-lhe alguma esmola?
— Sim, senhora, queria pedir-lhe uma esmola.
— Pois para isso escusa de falar à senhora: pegue lá... Então não levanta do chão os dez reis?!
— Não levanto, porque lhe não pedi nada a vmc. e Já lhe disse que quero falar com a senhora D. Rosa.
— A senhora D. Rosa não fala a mulheres de mantilha rota... Se quer, queira, se não quer, ande sempre...
A janela fechou-se e a mulher da mantilha rota sentou-se no degrau da porta.
Pouco depois, abre-se outra vez a janela, e aparece D. Rosa!
Vêde-a, já não é a rosa purpurina de outro tempo!... A palidez de aquelas faces não é natural!... Ali, há muita saudade do que foi, ou muito receio do que será! Aquele desalinho não era de antes assim... Rosa tinha tanto brio nos seus longos cabelos negros!... Enfeitava-os tanto de fitas e flores!... E agora?... Aquele lenço branco, que lhe apanha as tranças desgrenhadas, é tão desairoso!... Aquele chaile, que lhe esconde as formas do pescoço mais lindo ao pé dos ombros mais artisticamente torneados, dá-lhe um aspecto tão triste de enfermeira do hospital... Que mudança!... faz pena!... Caiu tão depressa da haste aquela flor, que tinha tanta vaidade das suas pétalas aveludadas, e da fragancia dos seus aromas!... Minha pobre Rosa, que é da tua filosofia!... De que te valeram os teus romances, se te devias amoldar aos tipos dolorosos que lá encontraste!... Ai!... porque cheguei eu a interessar-me na tua sorte, se nunca te conheci!... Porque há de esta fantasia pintar-me realidades, que me fazem dores no coração, quando as vejo saírem infelizes dos bicos da minha pena!... Tenho coisas de muito criança, leitores!... Desculpai-me estas imbecilidades...
Para que vieste tu à janela, Rosa, se quase me obrigaste com a tua palidez a discorrer com ternura sobre coisas que me fazem lembrar mil outras, e tão tristes são elas, que nem eu sei se era mais feliz não vindo ao mundo para recordal-as, ou, ao menos, vêl-as, e esquecel-as para sempre... Forte puerilidade!... Se me não chamam para jantar, neste momento, eu reduzia-me à situação piegas de verter uma lagrima... por quem?
Uma lagrima!...
Sabeis o que é uma lagrima de um homem!... É a perdida essência do sangue que nos alimentaria a existência longos anos!....................
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A mendiga, ouvindo abrir-se a janela, ergueu-se, voltou a face macilenta para cima, e cortejou D. Rosa.
— Quer alguma coisa, mulher?
— Queria-lhe dar duas palavras, minha senhora.
— Então diga daí.
— Eu bem queria dizer-lh'as de perto.
Rosa voltou-se para dentro, e mandou abrir a porta. A mulher subiu, e encontrou a senhora no topo da escada, perguntando-lhe o que queria.
— Venho pedir-lhe uma esmola.
— E para isso era necessário subir? Dissesse-o da rua, que eu mandava-lh'a lá dar.
— Uma teima assim!... — atalhou a colérica criada — Eu já lhe tinha deitado à rua dez reis, e ela não levantou do chão a esmola... O que você merecia sei eu...
— Não se zangue tanto, menina... Bem me basta a minha pobreza. Lembre-se que não está livre de chegar ao estado em que me vê... Outras mais ricas, e com bem melhores princípios que os seus, têm tido este fim...
— De mais a mais quer dar leis! — interrompeu a cosinheira, animada pelo silencio aprovador de sua ama — Sabe que mais, minha senhora? mande-a pôr no olho da rua, que, enquanto a mim, essa mulher não vem para fazer boa obra... Eu cá vou queimar arruda...
— Tome lá... — disse Rosa Guilhermina, oferecendo-lhe um pataco.
— Seja pelo divino amor de Deus... — disse a mendiga, beijando a esmola.
— Então não se vai embora?
— Ainda não, senhora D. Rosa Guilhermina... Tenho duas palavras a dizer-lhe muito em particular...
— Que negócios poderei eu ter consigo?!
— Negócios nenhuns; mas Deus não deu língua à gente para falar só em negócios.
— Diga o que quer mesmo aí.
— Aqui não, porque a sua criada está ouvindo o que nós dizemos.
— E que tem isso? Eu não tenho segredos de que me esconda à minha criada.
— Mas vai tel-os agora, e bom é que ela não saiba o que vou comunicar-lhe.
— Fora com a alcoviteira! — exclamou a criada lá do interior — Má mês para ela!... Olha o estafermo que me aparece em jejum!...
— Esta sua criada, minha senhora, é bem pouco caritativa com os desgraçados, e v. s. ª não é melhor que ela, pelo que vejo...
— Está bom! — atalhou irada D. Rosa — Eu não admito reflexões! Saia, que quero mandar fechar a porta.
— Pois deveras não me quer ouvir?
— Não, já lho disse.
— Pois há de ouvir-me, digo-lh'o eu.
— Se cá tivesse o criado, mandava-a pôr no meio da rua.
— E a senhora para isso precisa de um criado? Eu sou uma pobre velha sem forças... qualquer sôpro me faz cair, e a menina mesma pode empurrar-me por esta escada abaixo...
— E esta? já se viu um descaramento assim? Você parece-me uma mulher sem vergonha!...
— Pois tenho muita, e principalmente agora. Sabe Deus com quanta vergonha eu vim pedir-lhe uma esmola.
— Mas, se eu lhe dei a esmola, porque se não retira?
— Não me retiro, porque os desgraçados não se satisfazem só com pão... precisam de outras consolações, que a menina pode dar-me.
— Pois que quer?
— Queria que me deixasse sentar um bocadinho nas suas cadeiras... Estou muito fatigada, falta-me já a força nestas velhas pernas, que tanto andam, e tão pouco caminham... Tudo me falta... até a vista; nem já a menina me parece o que era aqui há um ano!... Deve ter feito uma grande mudança a sua vida!... Vejo-a tão coadinha... A menina sofré do corpo, ou da alma?
— Que lhe importa do que eu sofro? Não sofro de uma nem de outra coisa...
— Pois louvado seja Nosso Senhor!... Felizes aqueles que assim o podem dizer... Pois veja que diferença... Eu sofro de tudo...
— E que culpa tenho eu disso?
— Nenhuma, nem eu a culpo, senhora D. Rosa Guilhermina...
— Faz favor de sair, que quero recolher-me?
— Está o almoço na mesa — disse a criada.
— Se a menina consentisse que eu tomasse uma chávena de chá consigo...
— Comigo?... essa é boa!
— Envergonha-se disso? Pois olhe que não descia de quem é, porque os pobres foram sempre os amigos, com quem Jesus Cristo repartiu o seu pão, e os seus peixes.
— Parece-me esperta de mais para pobre...
— Pois é de obrigação que todos os pobres sejam brutos! Então dá uma chávena de chá... a sua mãe?...
— A...
— A sua mãe!
— A minha mãe!... Quem é minha mãe?
— Fale baixo que a não ouça a sua criada!... Não lhe tinha eu dito que era bem melhor ouvir-me em particular!... Espanta-se de mais, menina? Pois não sabia que tinha mãe? Não soube há um ano, que ela precisava de recorrer à sua generosidade? Não calculou, que, mais hoje ou mais amanhã, a sua desamparada mãe devia cobrir esta mantilha esfarrapada para vir receber dez reis da mão de sua criada?
— Eu não a reconheço como minha mãe... Eu já colhi informações de que minha mãe não existia... Meu pai nunca me disse que eu tivesse mãe viva!
— Deus perdoe à alma de seu pai... Não lhe quero por isso amaldiçoar a memoria... Pois, quer me acredite, quer não, esta desgraçada mulher, que não conhece, esta velha, que ainda não tem quarenta e quatro anos, é sua mãe.
— Não acredito, já lho disse... Prove-me que é minha mãe, e eu lhe farei aquilo que já lhe quis fazer, se vmc. e é uma tal Ana do Carmo, que morou na rua Direita.
— Sou uma tal Ana do Carmo, que morou na rua Direita, e agora mora no pátio dos conventos, esperando a tigela de caldo da caridade. Bem vê que sofri muito antes que viesse importunal-a. Não disse a ninguém que a menina era minha filha para a não envergonhar. Lembrei-me de que sendo eu moça e rica do muito que seu pai me dava, não gostei de que minha pobre mãe viesse um dia procurar-me para me pedir doze vintens para comprar uma galinha para minha pobre irmã, que morreu de miséria depois de um parto... Lembrou-me o quanto eu me vexei então, e quis poupar minha filha a semelhantes vergonhas, que só sabe o que elas são quem passa por elas. Agora, se aqui vim, é porque de todo em todo já não podia levantar-me das palhas para ir de manhã procurar a bendita esmola no pátio de S. Bento e de Santa Clara. Sinto-me quase sem vida, tenho um aneurisma no coração, e queria ver se morria descansada para me reconciliar com a misericórdia divina... Se não fosse isto, minha filha, eu não vinha de certo aqui, de mais a mais, tão rota, tão magra, indigna de me chamar sua mãe...
Rosa Guilhermina tinha sofrido um abalo, e parece que as lágrimas iam saltar-lhe involuntariamente dos olhos. Mas a criada, que viera colocar-se, sem ser vista, na alcova próxima da sala, adivinhando a comoção de sua ama, resolveu salval-a das arteirices da velha, e tomou a palavra, saltando para o meio da sala, com a mão na cintura:
— Pois v. s. ª acredita o que lhe está dizendo essa onzeneira?
— Não... eu não acredito, mas tenho pena dela... Coitadinha... é a necessidade que lhe ensina estas mentiras... Quer vmc. e uma chicara de chá?
— Não, menina, eu já não quero a sua chicara de chá. Deus Nosso Senhor dá-me forças para que eu possa viver sem a sua esmola. O que eu queria era morrer, abraçando-a ao meu coração, e chamando-lhe filha...
— Será ela douda! — atalhou a criada.
— Não sou douda, não... Não receie que eu lhe quebre as suas jarras... Estou no meu perfeito juízo... Estejam descansadas que não farei doudice nenhuma. Se fosse há um ano, poderia fazel-as... Hoje, já não... A desgraça enfraquece a gente, e apura o entendimento... Conheço muito bem minha filha...
— E ela a dar-lhe com o minha filha!... — interrompeu a criada.
— Ouça-me enquanto ela se ri, menina, que o que eu vou dizer-lhe há de fazê-la chorar. Conheço muito bem que não tenho direito nenhum a pedir-lhe o amor, que se deve a uma mãe... Eu quase que a não reconheci minha filha. Dei-a ao mundo, e o mundo assim como a fez feliz podia fazê-la muito mais desgraçada que eu sou... neste mesmo momento, em que venho aqui expiar as minhas culpas, confessando-lhe que fui tão desnaturada mãe, olhe que lhe não tenho amor, nem me ofendo com o seu desprezo. Por força assim devia ser... Se não fosse assim, eu não acreditava na justiça de Deus!... Se a minha filha me tivesse atirado com um pontapé à rua, eu havia de levantar-me, se pudesse, para lhe dizer: «eu te perdoo, filha de Leonardo Taveira! » Veja que bom coração eu poderia ter-lhe dado, se tivesse, quando a expulsei de meus braços, um presentimento de que viria uma hora em que eu precisava das suas consolações...
D. Rosa chorava, e a própria criada sentia-se amolecer no coração.
— Entre para esta sala — disse a filha do arcediago comovida.
— Não entro, minha filha, eu vou retirar-me; disse-lhe tudo, levo o coração mais desabafado, e creio que a não ofendi... Se a magoei, diga-m'o, que lhe quero pedir perdão.
— Entre... — balbuciou Rosa, oferecendo-lhe a mão..
— Não... já lho disse... aqui tem os seus dois vintens, molhados de lágrimas, que são a usura deste empréstimo... Dentro dessa sala não posso entrar como mendiga: se eu pudesse visital-a, como senhora, viria muitas vezes aqui, e talvez lhe pudesse fazer serviços que a poupassem a muitas desgraças no futuro... Assim... adeus!...
— Não consinto que se retire; quero informar-me de quem a senhora é. Se for minha mãe, hei de tratal-a como quem é...
— Por ser sua mãe, não sou ninguém, minha filha... A menina não me honra, nem me desonra. Não tenho senão remorsos de a ter dado ao mundo, como posso eu ter vaidade de ser sua mãe!... Fique com Maria Santíssima, e diga à sua criada que não é do agrado de Deus insultar assim as pessoas infelizes... Chame-a aqui, menina, que me quero despedir dela...
A criada veio, instada por D. Rosa.
— Não se aflija, moça! — disse Ana do Carmo — Não tenha pesar de me ter ofendido, que eu perdoo-lhe de todo o meu coração... Tire daqui uma experiência para todas as pessoas necessitadas... O seu zelo por sua ama é demasiado... Receava que eu lhe pedisse algum vestidinho velho dos que vmc. e espera que sejam seus? Não vim a isso... E para que se lembre do que esta velha da mantilha rota lhe disse, quero deixar-lhe uma lembrança de mim... Pegue lá...
— O quê? — perguntou a criada, recuando a mão.
— É uma peça de quatro mil reis, com que vmc. e pode comprar umas arrecadas... Aceite que lha dá a pobre mãe de sua ama!... Não quer?... Ora pois, Deus lhe dê muito que dar...
A ama e a criada ficaram perplexas, encarando-se estupidamente, enquanto Ana do Carmo saía. Quando vieram à janela para vê-la, ia já na extremidade do beco, mas à porta de D. Rosa estavam dois homens, que conversavam apontando para a mulher da mantilha rota.
— Não a conheceste? — dizia um.
— Eu não, nem tenho pena — respondeu o outro com desprezo.
— Pois não conheces aquela mulher?
— Não... já to disse...
— Pois não conheceste a fidalga, que há três meses comprou a quinta dos Engenhos, na ponte de Ramalde!
— É aquela?
— É... dou-te a minha palavra de honra que fui eu o tabelião que lavrei a escritura, e contei os doze mil cruzados.
— Mas então que história é esta!... Ela vai assim rota!
— Eu sei cá o que é! É o que tu vês...! Eu, logo que a avistei aqui neste sitio, conheci-a, e ela puxou para o nariz a côca da mantilha...
— Que celebreira!... eu ainda ontem a encontrei a passear num jumento, com lacaio ao lado; e até me disseram que o fidalgo das Laranjeiras queria casar com ela.
— Tu não sabes a história desta mulher?
— Eu não... ouvi dizer que fora casada com um livreiro, aqui no Porto, e que depois ficara rica...
— É verdade... foi casada com um livreiro; mas o livreiro não deixou fazer o ninho atrás da orelha, e foi-se embora para a França, onde morreu. A tal senhora parece que lhe não foi fiel, e, na ausência do marido, menos o foi ainda. Viveu na companhia do celebre arcediago de Barroso, que foi mandado sair pelo bispo, e morreu na Espanha. O padre era muito rico, e por muito tempo ninguém soube que fim levou o grosso cabedal que ele lá trazia consigo. A final, há de haver seis meses, morre lá uma freira, que, à hora da morte, declarou que o tal arcediago lhe deixara em seu poder quarenta mil cruzados em ouro, para ela fazer entregar a Ana do Carmo, moradora não sei aonde. A freirinha, só à hora da morte se lembrou de cumprir o legado, e o caso é que não se lembrou mal, porque a pobre amante do arcediago estava vivendo miseravelmente aí na rua Direita, e quando a procuraram para lhe dizer que se habilitasse para receber a herança, a pobre mulher já se não levantava da cama com fome. Ora aqui tens a história da tal riqueza...
— Mas por aí dizem que ela é fidalga...
— Isso é uma história à parte. Apenas a mulher apareceu rica, soube que era fidalga, porque a fizeram fidalga à força, uns tais que moram aí atrás da Sé, dizendo que ela era filha bastarda da casa. Começaram a visital-a, a hospedal-a, a chamar-lhe prima, e tem querido levá-la para a sua companhia... Ora, aí tens a história da mulher da mantilha... Quem me dera saber o que ela andaria a fazer por aqui... Eu parece-me que ela saiu desta casa...
O tabelião olhou machinalmente para a janela, e viu esconderem-se duas cabeças: eram D. Rosa e a sua criada, que se retiravam espantadas do que tinham ouvido. E tinham razão. Eu, por mim, tenho-me espantado com coisas muito mais pequenas. Mas o que deveras me espantou, foi dizerem-me que Ana do Carmo, quinze dias depois, estava casada com o ex. mo Sr.. ***, fidalgo, morador atrás da Sé, e fora, ipso facto, reconhecida prima de todas as famílias ilustres do norte desde os Leites até aos Albuquerques, desde os Cogominhos até aos Malafaias!