Capítulo X
Corria tudo fastidiosamente regular e monótono, menos para o espirito das duas amigas, que progrediam de um modo admirável na ciência das coisas, e na teoria do mundo estudada nos livros. Todas as suas economias de tempo e dinheiro, que lhe sobejavam à farta, empregavam-nas em novelas francesas, que uma criada, das que serviam cá fora, lhes introduzia no recolhimento, com pequena comissão.
Maria Elisa se dissermos que era uma literata, não nos fica o remorso de ter mentido. A prova de que o era dá-se com bem pouco: basta dizer que duvidava da eficácia da reza, e dos preceitos mais fundamentais da sua religião da infância. Falava na religião natural, e sabia de cor a Voz da Razão, e a Pavorosa ilusão da Eternidade.
Rosa Guilhermina era literata metade e mais um terço. Não acreditava na reza, nem nos santos da regente: mas tinha fé na existência de Deus! Não era consumada como a sua amiga, que punha todo o desvelo em instruil-a e aperfeiçoal-a.
Era corrido um ano. As meninas entravam nos dezessete, e já não eram as crianças zombeteiras que traquinavam na cerca, e irritavam as velhas da casa com travessuras.
Convencidas de que eram senhoras, revestiram-se da dignidade própria, deram-se um ar de pensadoras, mediam as suas palavras sentenciosas, olhavam com desdenhosa insolência a ignorância das companheiras, desdenhavam o beatério de muitas que lhes não mereciam o favor das suas reflexões, e, com algumas, dignaram-se descer até lhes confiarem o segredo da filosofia, o dogma sublime da razão. Se quereis em duas palavras comprehender a ilustrada extravagancia das duas meninas, sabei que o seu quarto era intitulado por elas: hotel de Rembouillet. [1]
D. Rosa recebia regularmente extremosas cartas de seu pai, que não tinha expressões com que pudesse encarecer o talento de sua filha, manifestado nas aparatosas cartas, que lhe enviava.
A última, que ele lhe escrevera de Madrid, anunciava a sua próxima vinda para Portugal. Bem informado, o arcediago sabia que as línguas mordentes dos seus inimigos estavam cansadas, e que o processo, ao cabo de um ano, estava esquecido.
Depois da carta, que prometia a sua vinda, que devia abrir outra vez as portas da clausura às literatas, as anciosas meninas receberam outra em que o padre lhes dizia que, em determinado dia, viria abraçal-as, e que fossem dispondo a sua imediata saída para Lisboa, onde ele tencionava estabelecer casa.
De igual teor recebeu a mãe de Rosa a fausta noticia, e cada qual não tinha sossego em preparar as suas coisas de modo que se não fizessem esperar.
Era chegado o festivo dia. D. Rosa com a sua amiga, para não perderem tempo, já tinham feito as suas despedidas; Ana do Carmo tinha fora dos baús o indispensável para as poucas horas de existência no Porto; umas e outras não saiam da portaria ou da janela para felicitarem o amante e o pai e o carinhoso protetor, quando o senhor Antônio José da Silva rolou a sua rotunda personagem no pátio do recolhimento.
Rosa, ao vê-lo pelo raro, recuou assustada da inesperada visita. O negociante perguntou pela filha do arcediago de Barroso, e a porteira, industriada pela menina, perguntou-lhe se o senhor arcediago tinha vindo.
— O senhor arcediago — respondeu o negociante com a comoção de que era suscetível — o senhor arcediago... está na presença de Deus...
— Morreu?! — exclamaram as meninas.
— É verdade... Faz favor de me chamar a menina.
— Estou aqui, senhor Silva... Pois é verdade que morreu meu pai?
— Desgraçadamente... Acabo de receber um portador de Madrid... As suas últimas palavras, foram estas: «Eu morro... vão dizê-lo à rua das Flores, no Porto, a um negociante chamado Antônio José da Silva. Morreu de uma apoplexia... Deus tenha a sua alma na bem-aventurança...
— Isso é impossível!... — atalhou Rosa, soluçando e chorando.
— Pois é tão certo como estarmos aqui, senhora D. Rosa... O pior é que o grosso dinheiro que seu pai levou, sabe Deus porque mãos andará a estas horas!...
— E eu fiquei pobre, não é assim? — atalhou a literata, que considerava a riqueza como o primeiro dogma dos sublimes dogmas da razão.
— Pobre... não, senhora — respondeu o negociante, enxugando uma lagrima importuna. — A menina está perfilhada. Eu tenho a perfilhação em meu poder. Ainda mesmo que não apareça o dinheiro, que ele levou, o seu patrimonio vale bem quarenta a cinquenta mil cruzados. É a quinta de Ramalde, são dois prédios na cidade, e as pratas de seu pai, que estão em minha casa, só essas valem bem seis mil cruzados, a olhos fechados. O que é necessário é fazer-se um conselho de família, e bom será que a menina sáia do recolhimento para tomar conta da casa de seu pai.
Pergunta daqui, resposta de acolá, convieram em que a menina saísse, passados três dias, durante os quais recebeu visitas no seu quarto, e chorou alguns instantes sinceramente.
Maria Elisa, como filosofa e boa amiga, animou-a a resignar-se, convencendo-a de que a morte era a condição da vida, e que as lágrimas não resuscitavam ninguém. Rosa conveio em isso em nome da ilustração do seu elevado espirito, e assentou em mostrar-se intrepida na dor.
Portador da infausta nova, o negociante foi dar o tremendo golpe na pobre esposa sem marido, e na amante sem amparo, que devia sentil-o mais profundo. Aí, sim: havia uma verdadeira dor, a consciência de desamparo, a invalidez na quase velhice sem refugio. Restava-lhe uma esperança: era sua filha; mas essa filha não lhe bebera o leite, não lhe sentira os beijos, não lhe vira as lágrimas, nunca lhe chamára mãe.
Por encurtar razões, o franco negociante foi-lhe dizendo que em seu poder não estava dinheiro algum, e que tractasse ela de procurar o amparo de sua filha que era a herdeira do arcediago.
Ao quarto dia, D. Rosa Guilhermina com a sua amiga ocupavam a casa do Laranjal, tomavam as antigas criadas, e consultavam-se no que deviam fazer, ou se aceitariam as condições que algum impertinente tutor lhes impozesse.
— Eu não posso dizer nada em tal assumpto — respondeu Elisa. — Sou absolutamente estranha neste objeto; não obstante, como tua amiga intima, entendo que não deves sujeitar o teu coração às barbaras leis de algum bárbaro tutor.
Já vêem como era o estilo de Elisa; agora admirem o de Rosa:
— Dizes bem, minha terna amiga. Se a parca me roubou o pai, não serei ludibrio da morte, porque vivo ainda. Não quero mais reclusão, nem o convento para mim foi feito. Quero a liberdade, porque o meu coração é livre. Eu e tu temos bastante filosofia para nos sabermos guiar na estrada tortuosa do mundo. Conhecemos a sociedade pela leitura; saberemos evitar os abismos, renderemos os nossos corações aos ardentes votos de algum amor digno de nós, e viveremos juntas pelo espirito, assim como temos vivido pela inteligência.
Falou bem. Tudo, que dissesse depois disto, seria uma redundância. Não há nada a desejar aqui. Optima resolução, exemplar programa, e invejável talento!
Nomeado conselho de família, a órfã foi consultada pelo tutor, homem probo, escolhido pelo senhor Silva. A menina espivitada respondeu em alto estilo, e o tutor retirou-se maravilhado da pupila, e disse em plena reunião dos membros do conselho de família que ela era muito pronostica, e que falava com cabeça. Os outros membros não duvidaram acredital-o, e consentiram em que a menina fosse entregue dos seus rendimentos, e vivesse fora do recolhimento.
Contentes da sua sorte, as duas literatas, cada vez mais ricas de ciência, achavam já que o seu espirito não saboreava a simples nutrição dos romances, e queriam mergulhar no oceano da sabedoria. Talhavam o seu plano de instrução; lastimavam a soledade em que viviam duas almas devorando-se no próprio fogo, e sentiam a falta de uma sociedade mais ampla que as admirasse, ou de espíritos ilustrados que as conduzissem à luminosa região das ciências ignoradas ao seu deserdado sexo.
Tudo isto era muito bonito; a tal respeito diziam-se coisas admiraveis, quando, no mais acalorado do projecto, D. Rosa Guilhermina Taveira recebeu a seguinte carta:
_«Minha filha. Ignoras talvez que a morte de teu pai deixou neste mundo uma mulher desvalida. Esta mulher é tua mãe, e terá brevemente necessidade de um bocado de pão. Quando esse momento vier, não o negues à infeliz Ana do Carmo, que irá mendigal-o à tua porta. Vivo na rua Direita n. º 25. »_
Esta carta, lida em sobresalto, produziu em Rosa uma sensação inqualificável. Elisa, queria ver esta carta, e a sua amiga não lha mostrava.
— Será namoro?! — perguntou Elisa com azedume e admiração — Diz, Rosa! tu não me respondes? Deixa-me ver essa misteriosa carta! É epístola amorosa?
— Não, minha amiga... É uma carta, que não te mostro!... Não devo mostrar-t'a...
— Oh céus! que estranha carta é esta! Não sou eu, por ventura, a tua amiga, a confidente dos teus segredos?
— És... mas há segredos que se não dizem...
— Pois bem: eu calarei a minha ânsia, e não farei jamais de amiga para todos os teus cuidados, Rosa.
O portador esperava a resposta.
A filha de Ana do Carmo saiu de ao pé da importuna confidente, tirou da gaveta do seu tocador quatro cruzados novos, embrulhou-os em um retalho de sedã preta, entregou-os ao portador, sem lhe dizer palavra, e rasgou a carta.
Quando voltou, chorava Elisa, em ar de arrufada amante. Rosa, mais tranquila, se era possível uma consciência boa, depois de tão generosa ação, serenou a susceptibilidade da sua melindrosa amiga com esta revelação:
— Olha, querida amiga, faz comigo as pazes. Eu te digo o que se passa. A carta, que recebi e devolvi pelo portador, era uma súplica de uma pobre amante de meu pai, que me pedia uma esmola. Fez-me tanta pena, que me vestiu de luto o coração! Como pensei que era aquele um desonroso segredo para meu pai, nem dizer-t'o a ti, cara amiga, eu julguei que me era nobre. Ora aqui tens...
— E mandaste-lhe o beneficio suplicado?
— Mandei...
— Fizeste bem... Pobre mulher, abandonada, não devia achar fechadas as portas da alma que saiu do peito amante. Perdoa a meu resentimento, querida Rosinha...
E com estas e outras finezas passaram uma hora, ao fim da qual voltava o portador, que levára o dinheiro, e entregava à senhora D. Rosa Guilhermina outra carta, acompanhando os quatro cruzados novos. A carta dizia assim:
«Minha filha. A esmola é muito avultada para uma mãe. Quando eu tiver fome, irei pedir-te um bocadinho de pão. »
Rosa fez-se da cor do lacre, e fugiu de ao pé da sua amiga.