Capítulo XII A Filha do Arcediago · Capítulo 13 de 31
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Capítulo XII

— Ora venha cá, Rosinha... — disse a Sr.. ª Angelica, pendurando a mantilha na porta, e acocorando-se num tapete, que ela supoz ser feito para isso — Sente-se ao pé de mim.

— Eu não gosto dessa posição, que é incomodativa. Sento-me nesta cadeirinha.

— Pois sim; mas chegue-se bem para mim, que não quero que nos ouça a sua amiga. Deus me perdoe, mas não engraço com os modos dela... Aquilo não há de ter bom fim... Tem muito palavriado... Ora diga-me, de que presta aquela rapariga?

— De muito; é a minha amiga do coração; conheço-a há dois anos; quero-lhe como a ninguém, e basta.

— Está dito... Pelo que vejo, aqui não há rei nem roque, e quem governa é vmc. e, não é verdade?

— É, sim, senhora. Quem governa em minha casa sou eu.

— Pois, minha menina, precisa de quem a governe. Os tempos não vão bons para as donzelas. Deus me perdoe se peco, mas o diabo anda às soltas entre as raparigas desde que os franceses vieram lá do fim do mundo ao Porto. No meu tempo não se ouvia dizer que uma rapariga namorava este nem aquele. Hoje, bem dito seja Deus, quem tiver raparigas em casa, traga-lhe o olho em cima, senão, quando mal se precata, os peralvilhos... nem pensal-o é bom!... E más línguas? isso então é um louvar a Deus! Pois aquela grande bêbada da mulher do retrozeiro, que mora defronte de mim, não foi dizer ao meu Antônio que eu, quando era moça... em nome do padre, e do filho, e do espirito santo... Cal-te boca... Olhe que sempre! Ninguém diga que está bem! Uma desavergonhada assim! Estar eu mansa e quêda em minha casa, amando e servindo a Deus como posso, e nem ja como devo, e vai senão quando aquela língua damnada não teve o ousio de falar da minha conducta, que não teve nunca tanto como isto que se lhe pusesse (mostrando-lhe a ponta do dedo)! Aí está porque Deus não manda chuva, e mandou a praga dos franceses para nosso castigo... é por causa da Ana Canastreira, e outras que tais... Aquela grande regateira! Atrever-se a pôr a boca na minha honra! E ela? A porca, que andou... Cal-te boca... E tem aquela de falar em mim, que fui sempre como as estrelas, e que nunca houve na rua quem dissesse, com verdade, que me viu piscar o olho ao congregado, nem ao cônego Anselmo! Inda a língua se lhe tolha, e descanso não tenha ela de dia nem de noite sem me pedir perdão...

— Então é isso o que precisa dizer-me, Sr.. ª Angelica?

— Inda não chegamos lá, Rosinha. Isto vinha a respeito de dizer que as donzelas não estão seguras com esses melcatrefes que por aí andam de óculos, e polainas, que me parecem mesmo o demônio tentador!...

— Eles tentam-na, Sr.. ª Angelica?

— A mim? para cá é que eles vem bem!.. Eu os arrenego! Assim que os vejo ao longe, rezo o credo em cruz...

— E perseguem-na os peralvilhos?

— Hão de ter bom olho...! Eles só perseguem as que lhe dão trela. A mim? isso sim... Inda não há muito que um mariola me puxou pela mantilha, ao sair da Capela das Almas, e eu voltei-me para ele... não lhe digo nada... apenas me viu, aquilo foi como se lhe desse com um sedeiro na cara, voltou logo o focinho. Está-se a rir, Rosinha? É como lhe digo. Os homens, em vendo má cara nas mulheres, não tenha medo que eles se atrevam... E mais eu agora já não sou o que era... estou muito acabada... estes malditos lobinhos, que me vem todos os anos ao costado, fazem-me de fel e vinagre. de antes quando eu era a flor das donzelas, isso é que se podiam ver os peraltas com o nariz no ar por minha causa... Pois, olhe, viam-me com os olhos e comiam-me com a testa... Uma rapariga quer-se honestinha; e quanto mais vamos inda pior é. Está dito... agora vamos começar o nosso arranjo.

— O nosso arranjo?! Que arranjo temos nós, Sr.. ª Angelica?

— Nada de pressa... há muito tempo para morrer... Ora vamos, Rosinha... inda está dos mesmos humores de há dois anos?

— Que humores? não me lembra quais eram...

— A respeito do seu matrimonio com o meu Antônio.

— Ah! nem me lembrava essa brincadeira... Sim, minha boa senhora, ainda estou, e estarei, resolvida a não casar com o Sr.. Antônio.

Maria Elisa, pé ante pé, viera colocar-se atrás de Angelica fazendo-lhe carantonhas, que obrigaram Rosa a sentar-se de ilharga por não poder conter o riso.

— Com que então está na mesma!... Ora, se Deus quiser, a sua cabecinha há de mudar. Pense bem no caso, Rosinha. Lembre-se que meu irmão não sabe o que tem de seu. Lá, se é velho, olhe que faz dar a água pela barba aos novos. Não vê aquelas cores, que ele tem? Olhe que ali onde o vê, inda tem muita força. Come-lhe bem, e está gordo como um tanho...

— Bem sei que está gordo; mas que me importa a mim a gordura de seu irmão? Como não quero vendel-o a pêso...

— Isso não é resposta de menina honesta, Rosinha. Não se ponha a rir... Acho que já tem as manhas da sua amiga. Foi ela que lhe disse que não quisesse o meu Antônio? Tomara-o ela.

— Pois ofereça-lh'o.

— Que se lave... Olha a labisgoia! Se meu irmão se via com aquela tartamuda, que ninguém a entende, entisicava, meu querido irmão do meu peito! E ela tem legitima?

— Quem, a minha amiga? é muito rica, por morte de duas tias, que são pouco mais ou menos da sua idade, Sr.. ª Angelica.

— Da minha idade? Então ainda podem viver muito, e tarde virá a legitima...

— Quantos anos tem, Sr.. ª Angelica?

— Quem, eu? eu lhe digo... Eu sou mais velha que o meu Antônio, que é da idade do Joaquim Antunes, casado com a Teresinha dos Loios, e que se lembra de ouvir dizer a sua mãe que o meu Antônio era da idade do Sr.. Joaquim, e eu sou da idade da Sr.. ª Brizida, que dizia minha tia Aniceta que nascera ao mesmo tempo, e se baptisára no mesmo dia com o Timóteo, que ninguém há de dizer a idade que tem.

— É o mesmo que acontece a seu respeito, depois da sua conta, Sr.. ª Angelica.

— Pois é verdade; eu o que tenho é estar acabada; mas meu irmão está gordo e fero como sempre o conheci. Quisesse ele casamentos que lhe não faltavam.

— Pois, Sr.. ª Angelica, sinto muito dizer-lhe que não me sinto deliberada a casar com seu irmão, e que provavelmente ficarei solteira, porque não tenho vocação para o casamento. Acho-me em extremo inclinada ao celibato.

— Quem é esse Celibato? Olhe lá que não vá ser algum pandilha que lhe quer pilhar a legitima!... Eu não conheço esse Sr.. Celibato... é negociante?

— Nada; é um cadete... — disse Rosa mordendo o riso nos beiços.

— Ah! um cadete, chamado Celibato... Conheço muito bem; ouvi falar nele... é um grande tratante. Não queira esse bigorrilhas.

— Ah! que malvado! Eu não sabia que o Sr.. Celibato José...

— É verdade, Celibato José... já me esquecia...

— Da Cunha...

— Sim, sim... da Cunha; é o mesmo, tal e qual! Ora vê como eu lhe vali, Rosinha?

— Agradecida, minha amiga. Detesto esse tirano! Guardarei meu coração para outro esponsalício...

— Esponsalício! parece-me que conheço esse Sr.. Esponsalício...

— É um rico proprietário...

— Enganaram-na, Rosinha. Esse Esponsalício...

— Da Costa...

— É o mesmo... louvado seja Deus, que me trouxe aqui!... Esse Esponsalício da Costa é um traficante, que enganou a filha de uma minha amiga, e que diz à boca cheia que não quer casar com nenhuma. Não caia em lhe receber palavra de casamento, Rosa... Deus a guarde dessa tentação!...

— Nenhum deles, pois, é digno do himeneu?

— O Himeneu! Apre! que são muitos. Eu tenho ouvido falar nessa pessoa... Inda outro dia a mulher do João Pereira, que tem chinó, estava a falar mal dele. Não pode ser grande pessoa, porque anda metido com tal mulher...

— Pois bem: farei um juramento. Não casarei com o Sr.. Celibato!

— Bonita...

— Nem com o Sr.. Esponsalício!

— Ora, pois.

— Nem com o Sr.. Himeneu!

— Isso é que se chama ter a cabeça no seu logar.

— Nem com o Sr.. Antônio!

— Valha-a Deus, menina, valha-a Deus, que tem o pássaro na mão, e deixa-o fugir!... Case com o meu Antônio, e verá que pimpona ele a traz!

— Fiz voto de morrer solteira. Os meus votos são infalíveis. Serei como as Vestaes.

— As bestiais! Deus a livre disso! A menina tem alma, e não pode ser bestial...

— O mais que posso é convidar a minha amiga a receber a terna dextra do ditoso Aônio.

— Que diz, Rosinha? Parecia-me agora a outra! Onde vos ensinaram esses aranzeis?

— Podes entrar Maria Elisa — disse Rosa, que não podia suportar as caretas que a sua amiga fazia.

— Então ela aí vem com os latinórios... Vou-me embora, com a graça de Deus.

— Espere, senhora D. Angelica — disse Maria Elisa com burlesca formalidade. — Muito há, ditosa irmã do mais ditoso Adônis, que eu suspirava por apascentar meus famintos olhos no manjar suculento das rosadas faces do Sr.. Antônio José da Silva, vosso mano, e querido meu. Vi-o uma vez. Vê-lo e amá-lo foi obra de um momento. Nunca mais meus olhos tristes provaram os carinhosos afagos de Morfeu. De noite era ele o meu pensamento; de dia o meu pensamento era ele; ele era de dia e de noite o sangue das minhas veias, o fogo ardente do meu coração, o nome mais apetitoso da minha língua, e a língua mais eloquente da minha alma.

— Está douda!... Resmungou a velha, voltando-se para Rosa.

— Douda! — disse Elisa — douda de amor! Cupido, que me varaste o coração de ervada seta, porque não feres o coração de Antônio José?

— Está apaixonada por ele... — murmurou Rosa ao ouvido de Angelica, que principiava a acreditar a naturalidade daquela dor sublime.

— Será verdade, Rosinha?

— Não vê como ela soluça.

Maria Elisa retirava-se com o lenço nos olhos para esconder o riso, na janela.

— Ela viu meu irmão?

— Viu, no pátio do recolhimento; e desde esse instante fala constantemente no objeto dos seus votos, que é seu irmão.

— Coitadinha!... É preciso dizer-lho a ele, que não vá a rapariga dar volta ao miôlo.

— Diga-lhe algumas palavras animadoras, Sr.. ª Angelica.

— Venha cá, minha menina; a troco disso não se aflija, que tudo se há de fazer pelo melhor, com o favor de Deus...

— Não me iluda, senhora! Não ponha mel nas bordas da taça, que tem ao fundo o amargo absinto! A minha paixão é incurável como a gota!

— Coitadinha!... por causa da paixão tem gota! que pena! tão novinha já com gota.

— Com gota, sim! eu com gota na primavera dos meus dias!

— Pois ela costuma atacar mais no inverno...

— Com gota na aurora da infância, no crepúsculo do amor... Com gota eu!... por causa de um ingrato Narciso! Miseranda Ecco!

— Então o tal Narciso que lhe fez? O Narciso é algum cirurgião que a não soube tratar, pelos modos... Pois, minha filha, não chore. Eu vou já daqui falar com meu irmão, e veremos como se arranja isto do melhor modo. Ponto é que não esteja cá arrumado para a Rosinha...

— Cruel rival! — disse (à parte) Elisa, com a melhor das caretas imaginaveis.

— Injusta! Eu cedi-t'o, e os deuses sabem que sacrifício fiz cedendo a mão do Sr.. Antônio!

— Bem me parecia a mim, que andava aqui alguma mastigada!... Agora vejo eu porque não queria casar com meu irmão, Sr.. ª Rosinha... É uma boa amiga da sua amiga. Deixe estar, menina, que talvez ainda sejamos cunhadas... E, com isto, vou-me embora que são horas... adeus...

— Vá, mensageira de amor! — disse Elisa — Propícios céus meus votos abençoem, e os seus desvelos galardoem.

Ausente Angelica, seguiu-se uma tremenda gargalhada, em que estalaram os espartilhos às duas azougadas moças.

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