Capítulo IX
O arcediago, quando fugiu bruscamente às impertinencias vingativas do padre João Pires, ia perdido, e não atinava com o refugio mais azado no embaraço em que se via.
Na rua das Hortas, quando voltava do campo de Santo Ovídio, até onde fora machinalmente, encontrou o marido de Ana do Carmo, que o comprimentou com a graça costumada, e nem de leve lhe tocou nas escandalosas revelações do profundo investigador de Sant'Tiago, e S. Martinho de Dume.
Padre Leonardo, admirado da singeleza do francês, entendeu que as coisas estavam no pé em que as deixara na véspera, e tranquillisou o tumulto de vergonhas e receios que lhe traziam o coração em dolorosas piruetas.
Convencido do inesperado quão feliz resultado da extravagante cena, veio à rua das Flores, e encontrou Ana do Carmo, ao mostrador, espantada de que seu marido saísse sem dar parte, nem chamal-a a ela para a loja.
Isto fez impressão no arcediago, que teve a prudencia de calar à mãe dos seus filhos o desgraçado encontro com o amaldiçoado padre de Ponte-Ferreira.
Todavia, a saída rápida do francês alguma coisa queria dizer. O atilado arcediago refletiu no que poderia resultar dali; lembrou-se, um momento, que a sua organização física poderia sofrer algum abalo menos agradável, e, finalmente, apelando para o futuro com a intrepidez de filosofo, esperou as consequências.
Acabava o velho amigo de padre João Pires de fazer os seus juízos, quando o livreiro entrou com a mesma afabilidade, com o inalterável sorriso de um esposo feliz.
— Sahiste sem dizer nada?! — disse a senhora Ana.
— Foi-me necessário sair com tal precipitação, que nem me lembrou chamar-te.
— Pois que foi, Hemerin?
— Que havia de ser? Um engano... Vieram-me aqui dizer que o regedor das justiças me queria mandar prender, porque eu vendia clandestinamente na minha loja livros protestantes, e folhetos escritos contra a religião. Corri imediatamente a casa do regedor, e tive a fortuna de encontrar, quando lá cheguei, o desmentido da calúnia que forjaram contra mim os meus inimigos.
— Inda bem!... — disse a mulher.
— E se não acontecesse assim — acrescentou o arcediago com o contentamento da boa fé — eu ainda tenho amigos para desmanchar as traições dos seus inimigos.
— Muito obrigado, senhor compadre. Tudo está arranjado, desta vez. Se eles continuarem, v. s. ª será o nosso protetor, como tem sido sempre.
O arcediago almoçou com eles, e não podia deixar de felicitar-se por ter casado a mãe de Rosa com tão boa pessoa, alma tão singela, e gênio tão estimável a todos os respeitos. Fez muitas festas à criancinha, que dava biscoitos ao livreiro para que os desse ao papá, o que o livreiro, com paternal meiguice, cumpria, rindo-se muito da galanteria do pequeno.
Correu o dia regularmente. O arcediago despediu-se à meia noite, prometendo na noite seguinte pagar quatro partidas de bisca, que perdera jogando com a senhora Ana, enquanto seu marido saíra a encomendar de Paris a nova edição de Bossuet e Bourdaloue.
Na madrugada do seguinte dia, Hemerin levantou-se mais cedo que o costume, e disse a sua mulher que lhe desse a chave da cômoda em que estava a sua roupa branca.
Ana quis erguer-se para dar uma camisa a seu marido, e ele mandou-a ficar. A mulher instou, e o francês intimou-a imperiosamente que não saísse.
Momentos depois, a mãe de Rosa sentiu fechar-se por fora a porta da rua! Ergueu-se, foi à cômoda, e achou-a vasia da roupa de seu marido. Desceu à loja, tudo estava fechado. Tornou ao seu quarto e viu um bilhete sobre o lavatório, com estas poucas palavras: «_És uma boa mulher, mas não me serves. Eu não sou mau homem, mas não te sirvo. Sejamos francos, e bons amigos. Tu ficas, e eu vou. Regala-te com o padre, e faz-lhe visitas minhas. Se me quiseres alguma coisa e ele também, escrevam-me para Paris. Adeus. _»
A senhora Ana do Carmo ficou aturdida. Queria fazer alguma coisa naquele conflito; mas que poderia ela fazer? A porta da rua, de mais a mais, estava fechada! Se o arcediago viesse... mas o arcediago não vinha antes das oito horas! Se arrombava as portas, o barulho dava que falar aos vizinhos, e o escândalo era certo! Mas, se o escândalo era certo, inevitável, a pobre mulher lembrou-se de arrombar a porta, e procurar seu marido; mas aonde?
nesta irresolução, a senhora Ana ouviu as oito horas. Correu à janela, e viu à sua porta alguns homens, um dos quais abria a porta. Desceu abaixo, e perguntou quem eram:
— Sou um escrivão, com os meus meirinhos.
— Que querem?
— Fazer penhora nos objetos conteúdos nesta casa.
— Devo alguma coisa a alguém?
— Deve.
— O quê?
— O conteúdo nesta petição, a que está junto um titulo de divida autêntico, assignado por seu marido o senhor Hemerin Pierrote.
— Mas eu não assignei.
— Vmc. e sabe escrever?
— Não, senhor.
— Por isso mesmo é que não assinou. Seu marido assinou por ambos.
— Isso é uma ladroeira! Eu grito aqui de elrei, se me levam alguma coisa de minha casa.
— Pois grite, que arranja com isso a ser levada também.
— Para onde?
— Para a cadeia, ou para o hospital de S. José.
— Que é dos louvados, senhor meirinho geral?
— Estão aqui os ensambladores.
— Pois que subam a avaliar os moveis, e chame aí dois livreiros para louvarem os livros.
— É um roubo que me fazem! — exclamou Ana, colocando-se adiante dos livreiros, que vieram de um pulo.
— Retire-se, mulher, se não mando autual-a!
— Mas quero saber a quem é que devo...
— Ao vice-cônsul da França.
— Eu não conheço esse homem.
— Também não é preciso, nem deve ter muita pena disso. É um homem como os outros, pouco mais ou menos.
Entrava o arcediago com os olhos espantados, e o queixo pávidamente descahido.
— Senhor compadre! — exclamou Ana — querem-me roubar!...
— Roubar!... Como se entende isto?!
— Deixe-a falar — disse o escrivão. — É um mandado de penhora.
— À ordem de quem?
— Do juiz de fora.
— Mas quem é o credor?
— Senhor arcediago, não nos importune com as suas perguntas. Vá lá sabê-lo, se quiser. Nós cumprimos a lei, e não temos obrigação de dar explicações a quantos passarem na rua.
— Onde está seu marido? — perguntou o padre.
— Não sei... Olhe aqui.
A senhora Ana chamou-o de parte, e contou-lhe o sucedido. O arcediago ficou tranzido.
— Que hei de eu fazer, Leonardo? Não me dirás?
— Põe a tua mantilha, pega no pequeno, e vai com a criada para minha casa.
— E os meus arranjos?...
— Que arranjos?
— Os meus vestidos?
— Deixa os vestidos... Faz o que te digo. Não te aflijas... Hás de ter sempre que comer. Nem mais uma palavra, que não quero escândalos.
Ana do Carmo saiu com a criada e o pequeno, que grunhia por ter sido tirado a dormir do berço. O escrivão achou-se sozinho com os aguazis e louvados. A livraria foi logo comprada pelo livreiro da loja vizinha. Os moveis arrematados, e ficou o escrivão com eles. As roupas comprou-as uma adeleira. E a chave da casa foi entregue ao senhorio. Foi um dia cheio para os vizinhos!
A vingança do francês fora uma vingança francesa; mas, de parte a parte, concordemos em que a honra orçava os mesmos quilates. Parece que eram dignos um do outro, e o arcediago digno de ambos, como vai ver-se.
A mãe de Rosa vivia com o arcediago; mas tão cauta e escondida que se não deixava ver. Era um cuidado inútil; porque ninguém duvidava que os braços do padre eram o refugio nato da esposa abandonada.
A imoralidade chegara aos ouvidos do bispo, que empregou os meios brandos para chamar ao caminho da bem-aventurança aquele Lovelace de murça e meias vermelhas. O arcediago defendia-se como podia, e citava os seus traiçoeiros denunciantes para que lhe provassem a calúnia infame. Se fosse hoje, o senhor padre Leonardo Taveira teria escrito quatro correspondências para os periódicos, em que provocaria os maledicentes a tirarem a mascara, ou serem convencidos de infamadores da honra alheia, e vis calumniadores, como é do estilo.
naquele tempo, porém, o infamado não tinha o respiradouro da gazeta, e não podia andar de casa em casa apregoando a sua inocência. Razão porque a detracção se incorporava pouco e pouco, até ser recebida como facto consumado.
Os cônegos, que não eram mais virtuosos que ele, mostravam-se escandalisados das torpezas do seu colega, e queriam que o prelado os desultrajasse do odioso que reflectia na corporação. O bispo via-se entalado entre certos compromissos que o prendiam ao arcediago, e as instancias reiteradas do chantre, e do deão, que eram mais discretos nas suas torpezas, porque nunca tinham caído na imoralidade de dotar as mães dos seus filhos para casarem.
A indignação pública urrou no paço episcopal; e o príncipe da igreja receou que a mitra lhe cahisse com desonra da cabeça, e meteu o arcediago em processo.
Estas deploraveis cenas passavam-se, meses depois que Rosa Guilhermina e a sua amiga vieram de Ramalde para o Porto. Rosa observava a inquietação de seu pai nas poucas horas que se demorava em casa. Interrogaram-no ambas muitas vezes, e não puderam saber nunca a aflição que o atormentava.
O processo corria, quando o bispo deu uma audiência secreta ao arcediago. O fim dessa prática de amigo, e não de juiz, era aconselhal-o, que fugisse imediatamente de Portugal, e que esperasse lá fora que a borrasca serenasse, e depois viria.
O arcediago anuiu.
Com as lágrimas nos olhos, e sua filha nos braços, revelou-lhe que uma grande desgraça o obrigava a sair da pátria. Mandou-a entrar outra vez no recolhimento. Estabeleceu uma pensão a Maria Elisa. Deixou outra a Ana do Carmo, e partiu para Espanha com todos os seus cabedais, excepto as quantias que o honrado negociante Antônio José da Silva mensalmente devia repartir pelas três, se eram só três as pensionadas da ilustre vítima de padre João Pires.
Ana do Carmo sabia que sua filha existia no convento; mas, por ordem expressa do pai, não a procurava. Vivia com honra, e recebia pontualmente a sua mesada.
Rosa ignorava a existência de sua mãe, tinha de longe a longe saudades do pai; mas isso não era forte razão para que deixasse de comprar a melhor edição do Cavalheiro de Faublás, que traduzia perfeitamente com a sua amiga, graças aos cuidados do pai em mandal-a aprender o francês durante um ano que esteve na casa do Laranjal.
Mr. Hemerin vivia em Paris, e vivia perfeitamente da quantia que lhe fora dada com a condição de cohonestar as relações da mulher com o padre: missão aliás cristã que o maldito não quis desempenhar cristãmente, e encarou com a melhor filosofia do mundo.
O arcediago vivia em Madrid, e gastava o seu tempo num convento de Terezinhas, onde lhe não faltavam delicias para o espirito, e parece que as melhores esperanças para tudo que os filósofos teimam em dizer que não é espirito.
Padre João Pires, esse, contentíssimo de ter resolvido o problema de Sant'Tiago, veio um dia procurar o livreiro para comprar-lhe — El sábio instruido de la naturaleza, — e soube, no livreiro vizinho, a catástrofe do arcediago.
Citou quatro textos em latim acerca da obscenidade, disse tudo o que sabia a tal respeito, confirmou minuciosamente todos os escândalos da vida de padre Leonardo, e foi dizer missa à Misericórdia, e ouvir de confissão a senhora Angelica, que, por um triz, ia ficando sem absolvição, por ter murmurado da senhora Ana Canastreira, e da mulher do João Pereira, do chinó.
O senhor Antônio José da Silva, recobrado dos dissabores porque passara, restaurava as banhas perdidas do seu lustroso cachaço, e continuava a suar copiosamente.
E o senhor João Retrozeiro, finalmente, lia com o maior prazer a sua mulher as cartas de seu filho José Bento, que estava no Rio de Janeiro ganhando duzentos mil reis como segundo caixeiro de um armazém de molhados, onde o não forçavam a conjugar o atrocissimo verbo laudo.