Capítulo VIII
O trágico sucesso inquietou um pouco o espirito de Rosa; mas a sua amiga convenceu-a de que não devia dar-se por achada em semelhante coisa. O diretor do colégio ignorava a causa do inaudito crime, presenciara a sóva de pontapés com que José Bento se recolhera ao quarto; mas supoz que a justificada razão daquele castigo fora qualquer asneira do rapaz na impossível conjugação do verbo Laudo, especialmente no imperativo laudandum.
Por conseguinte, as pequenas não tiveram de responder como causas involuntarias daquele sinistro, e continuaram no gozo da sua felicidade.
O arcediago, suposto não vivesse com elas, almoçava, e jantava com sua filha, ceava com uma senhora viúva que lhe administrava a casa; e, depois de ceia...
Depois de ceia, há muita coisa a dizer a este respeito.
É sabido que Rosa Guilhermina era filha de uma tal Ana do Carmo, velha predilecção do padre Leonardo, e por ele dotada para o honesto fim de casar-se com um tal francês, com loja de livros na rua das Flores.
O padre não andou com toda a generosidade neste negocio. Dado o dinheiro, se quisesse ser honrado, devia renunciar inteiramente, a beneficio do livreiro, a mulher de que se descartára. Mágoa-nos, porém, ter de anunciar que o arcediago era um agiota no seu gênero, e pensamos que a senhora Ana do Carmo não era mau gênero para agiotagem.
A verdade é que o pai de Rosa continuava a visitar de dia o estabelecimento do livreiro, comprava algum livro que ajuntava, na estante, aos seus virgens irmãos, e predispunha favoravelmente com as visitas diurnas a confiança do marido, que tinha lido Molière, e não queria incorrer no defeito do Cocu imaginaire, que o leitor pode ler, se a consciência o não incommóda.
A honesta esposa repelia as seducções do padre, esquivando-se a encontros em que o usurário amante parecia convidal-a a pagar-lhe um juro avaro do capital recebido. Dissertava-lhe amplamente sobre a verdadeira virtude, pintava-lhe a ingratidão o mais feio dos crimes, dissuadia-a de temores piegas que não tinham nada com a verdadeira religião, e queria convencel-a de peneira nos olhos a respeito do matrimonio e de muitas outras coisas.
O francês não sabia que fora ele o amante de sua mulher.
Movido pelo interesse que as frequentes visitas do amador dos bons livros lhe dava, — e, de mais a mais, convencido da honestidade de sua mulher, se o padre, feio e velho, tentasse seduzil-a, — o senhor Hemerin Pierrote (Deus lhe fale em alma) acolheu agradavelmente o seu bom amigo, e honrou-se muito, não só das suas visitas, mas do interesse que o generoso padre tomava em ser o padrinho do primeiro filho de tão feliz matrimonio.
Madama Ana Pierrote recebia com repugnância as pontuais visitas do arcediago, e esta repugnância, que seu marido lhe censurava como inconveniente aos interesses de ambos, era uma nova razão para que o espirito do francês estivesse tranquilo, e as suas portas sempre francas para o generoso compadre.
Este parentesco fora contrahido muito contra vontade da senhora Ana. Seu marido, porém que recebera de antemão o enxoval do recém-nascido, perguntou cheio de cólera a sua mulher, se queria algum garçon de boné mine (rapaz esbelto) para compadre. Acrescentou que, se ela fosse fina, devia ameigar constantemente o arcediago, que era rico, e poderia fazer o afilhado seu herdeiro. Resumiu, emfim, o seu discurso, declarando, pelo sacre nom de Dieu, que o arcediago de Barroso seria seu compadre, e mandaria em aquela casa como na sua.
A senhora Ana, coma boa esposa, resignou-se; padre Leonardo, como bom compadre, vinha duas vezes ao dia fazer caretas e botar a língua de fora, com o pequeno nos braços; e o risonho marido, como hábil e francezissimo logrador, deixava o padre em cima ensinando a criança a dizer papá, e vinha para a loja fazer negocio e trautear a Marseillese.
A criancinha, habituada com o arcediago, apenas o via, estrebuxava no colo da mãe, batendo as palmas, e articulando — papá, papá. O livreiro ria-se muito contente da esperteza do pequeno, e ensinava-o a dizer padrinho; e a criança, que não sabia ainda ajuntar três sílabas, teimava em dizer papá.
Mr. Hemerin estava contentíssimo do filho, e da mulher também, porque a repugnância em receber o arcediago desaparecera desde certo tempo, e sua mulher, emfim, sabia viver perfeitamente com o compadre, e já se lhe não dava de jogar com ele a bisca de nove, e o trinta-e-um.
Correram dois anos nesta perfeita harmonia. Os vizinhos riam-se do francês, mas a razão do riso devia ser ele o último que a soubesse.
Eram notórios, na rua das Flores, os precedentes de Ana do Carmo; os maledicentes sabiam que ela fora amante do arcediago; o livreiro vizinho contava aos seus freguezes a imoralidade do jacobino (que vendia melhores obras, e sortira a sua loja de tudo que se procurava) e lamentava a queda da religião, se o senhor bispo não pusesse côbro àquele grande escândalo.
O demônio da intriga viera perturbar a felicidade domestica daquela família.
O pequeno Leonardo, já de dois anos, continuava a chamar papá ao padre, com grande aprazimento do pai matrimonial. A senhora Ana mostrava a seu marido as prendas que o compadre lhe dava. O marido mostrava a sua mulher o córte de veludo vermelho que o compadre lhe dera. Tudo isto ia lé mieux qui se peut, como dizia o jubiloso livreiro, quando, abrindo de manhã a porta, encontrou uma carta em que um seu amigo íntimo, como todos os amigos das cartas anonimas, lhe dizia o que se passava em sua casa, as antigas relações de sua mulher com o padre, e o descredito geral em que a sua honra andava nas praças publicas. Como seu amigo íntimo, e zeloso do seu bom nome, aconselhava o generoso espião que pusesse o padre fora de casa, e que metesse a mulher no Ferro, para assim dar uma plena satisfação ao publico escandalisado.
O discreto marido leu a carta, e vendeu com a maior presença de espirito um Flos-Sanctorum a um padre da aldeia, que se apeára de uma égoa, no momento em que a porta se abrira.
— Estas obras de sanctidade — disse o padre — creio eu que se vendem pouco... A religião está por terra... Já lá vai o tempo em que os frades escreviam obras de substancia... Os de hoje criam muito cachaço, e os seculares são uns libertinos, que o mais que fazem é apanhar as prebendas, os canonicatos, e os benefícios para viverem à regalada. O exemplo devemol-o dar nós, como diz o apostolo: Ante eas vadit, et oves eum secuntur... Já lá vai esse tempo. Os bons padres, e que sabem do seu ofício, vivem obscuros na aldeia, e ninguém os chama para as dignidades da igreja; os que arruinam com a sua má vida e mau exemplo o edifício da religião, a casa de Deus, ædes Domini, esses são chamados a lamber as chagas do corpo pútrido da humanidade; canes veniebant, et lingebant ulcera, como diz S. Lucas no capítulo XVI.
— Então o senhor padre veio requerer algum beneficio, que lhe não deram?
— Vim, sim, senhor, vim pedir ao senhor bispo uma igreja apresentada pela Mitra, e estou aqui há um mês a gastar numa estalagem, e vou-me embora sem ela. O bispo é... o que Deus sabe... Dizem que é um santo, mas barata virtude é a sua... Quando o rebanho anda tresviado, o pastor não é lá grande coisa, como diz o livro santo: Nam quod ab ovibus erratur, negligentie pastoris adscribitur.
— Quer o senhor padre uma coisa?
— Nada, não, senhor, não quero mais livro nenhum; precisava deste para tirar uma dúvida sobre se o apostolo Sant'Tiago veio ou não a Portugal, e se S. Martinho de Dume foi arcebispo primaz...
— Eu não lhe perguntei se queria mais livros; disse-lhe que me lembrava um meio de v. s. ª...
— Alto lá! Nada de vossa senhoria... Eu não sou desses modernos, que se esquecem da humildade do divino Mestre, e querem as honras que, há trezentos anos, se davam ao rei... Trate-me por vmc. e
— Pois bem; se vmc. e quisesse, eu poderia arranjar-lhe um bom empenho para o bispo.
— Sim? então quem é ele?
— Isso agora é um segredo... Veja lá vmc. e quanto dá...
— Quanto dou? isso é simonia, reprovada e condemnada com graves penas pelo concilio tridentino. Se eu quisesse servir-me desse infernal recurso, bem sei a que porta devia bater. Conheço como as minhas mãos um vendilhão desses favores, que não tem vergonha nem temor de Deus, e há muitos anos que trafica descaradamente com os objetos sagrados da santa religião de Nosso Senhor Jesus Cristo. É um simoníaco, um libertino, indigno de se sentar no cabido...
— Quem é ele?
— Quem há de ser? é o arcediago de Barroso, um homem sem religião, de péssimos costumes, que tem vivido amancebado toda a sua vida, e que, de mais a mais, tem o desaforo de casar uma das suas concubinas aí não sei com quem, e disseram-me que continua a viver adulterinamente com ela... Fora o adultero! Não lhe faltava senão esta!...
— E vmc. e conhece-o?
— Conheço muito bem, oxalá que não. Fomos companheiros no seminário, e já lá profetisei a rôlha, que viria a ser o senhor Leonardo Taveira... Depois, via-o pelo Porto, e fui jantar a casa dele, e saí escandalisado porque teve o desavergonhamento de sentar conosco à mesa uma rapariga que tinha em casa...
— Sabe como ela se chamava?
— Sei, sim, senhor. Chamava-se Ana do Carmo...
— Ana do Carmo!...
— Vmc. e espanta-se? É o que eu lhe digo...
— Que figura tinha ela?
— Era uma mocetona tirada das canelas, branca, cheia do peito, com os olhos mesmo concupiscentes como os do próprio demônio, e falava sem vergonha diante de mim.
— E sabe se foi essa a que ele casou?
— Dizem-me que sim, até o homem é estrangeiro, por sinal, e tem não sei que ofício. Se vmc. e quiser, eu volto cá qualquer dia, e posso saber-lhe tudo isso a preceito.
— Muito obrigado... eu não tenho interesse em isso...
— Pois é como é. A religião está entregue a estes ministros. O arcediago de Barroso tem muito dinheiro em casa de um negociante da rua das Flores, mas esse dinheiro é o preço porque ele comprou o inferno... ganhou-o nas simonias... Lá está em cima quem o há de julgar... E, com isto, adeusinho até outra vez. Fique na graça de Maria Santíssima, e passe por cá muito bem até outra ocasião, se Deus nos der vida. Adeusinho, sem mais.
O padre abria o alforge para meter o Flos-Sanctorum, quando o arcediago lhe dava uma palmada no ombro.
— Tu por aqui, padre João Pires?
— É verdade... Então que é feito, Leonardo?
— Vamos vivendo... Já te não vejo há muito!...
— Não há dinheiro para vir à cidade... Os padres de réquiem não comem do cabido... Lá nas aldeias o mais que se pilha é a missinha de tostão, que não dá para hóstias. Isto cá é outra coisa. Os padres do Porto são cardeais, menos na sabedoria, que no mais tem tudo...
— Não é tanto assim, padre João... Deus sabe como cada qual se arranja. Então vieste comprar o teu livrinho?
— É verdade; comprei o Flos-Sanctorum, e sabe Deus o que me tem custado a arranjar os três mil e duzentos.
— Se queres mais algum, e não tens dinheiro, eu fico por ti, e tu pagarás depois ao senhor Hemerin, que me faz o favor de ser meu amigo.
O arcediago piscou o olho para o livreiro, que estava encostado ao mostrador, e o livreiro, sorriu-se de um modo que era novo para o arcediago.
— Nada, muito obrigado — disse o padre João Pires — eu não gosto de fazer dividas, porque não tenho esperanças de ser cônego para pagal-as depois... Com que sim, meu caro Leonardo... Os bons tempos que nós passamos no seminário... lembras-te?
— Se lembro!...
— Eras um bom tratante!... fugias de noite, e vinhas de madrugada pedir-me que te ensinasse o Larraga... Boas as fizeste!... Que é feito daquela rapariga do vendeiro de Campanhã que tu tiraste de casa?
— Não falemos em isso... Como tu te lembras dessas rapaziadas... Esse tempo passou...
— Pois era uma rapariga perfeita!
— E aquela outra das Fontainhas, que tinha um pai levadinho da breca, que te fez fugir em camisa para o seminário?
— Cala-te lá com essas coisas, João!... Isso foram bambochatas de estudante...
— Está feito, está feito... Tu tens pago um bom tributo à mocidade... Já tu eras padre há muitos anos, e ainda fazias das tuas de estudante...
— Olha lá, meu caro João, se quiseres alguma coisa de mim...
— Obrigado... Eu gosto de falar nos tempos da mocidade...
— Pois sim; mas eu tenho de estar nos Congregados às oito horas... Estimarei que passes muito bem.
— Olha cá, padre Leonardo... há aí um sujeito que te quer falar a respeito de uma dispensa para casamento entre primos em segundo grau. O pretendente dá boas luvas a quem lha arranjar depressa...
— Sim!... pois eu conheço um banqueiro, que vence todas as dificuldades; mas... aqui entre nós... é preciso untar-lhe as unhas...
— Ah! maganão!... o banqueiro és tu em carne e osso!...
— Não sou, João. Acredita que não sou...
— In verbo sacerdotis!
— In verbo sacerdotis... nessas matérias melindrosas não escrupulisa a minha consciência. Terei algumas fraquezas, de que me acuse, do tempo de rapaz, mas em coisas de religião o caso é muito sério.
— Com que tu tens muitos escrúpulos das tuas rapaziadas, heim?
— Alguns; mas em certas idades tudo se desculpa, e Deus bem sabe que a razão não tem a força necessária para conter os ímpetos daquele novissimo do homem...
— Que não é do mundo, nem do diabo! Ora pois, Deus te conserve no santo arrependimento...
— Então quem é o pretendente da dispensa?...
— Isso falaremos outra vez... Ora olha, meu querido Leonardo, não sei se sabes que tenho cá na Sé requerimento para uma igreja.
— Nada, não sei.
— Poderás fazer com que o senhor bispo me despache?
— Homem, isso é um caso difícil... Se queres que te fale a verdade, no paço tudo se move por dinheiro...
— E tu dás à manivela nas rodas da machina, não é assim, meu Leonardo?
— Estás a rir, João...
— Pois eu pudera chorar!... Tudo isto leva-se a rir, senão endoudecia a gente... Ora anda lá que tu não deves só ter escrúpulos das tuas rapaziadas... A propósito de rapaziadas, que é feito da Ana do Carmo?
— Da...?
— Sim... da Ana do Carmo... aquela mocetona que morava contigo na rua Direita, aqui há dez anos...
— Não sei... não me recordo... não sei de quem me falas... adeus... até outro dia...
— Espera homem — disse o padre inexorável ao confuso arcediago que suava em janeiro como o seu amigo Silva no mês de agosto, por ver ali tão perto o francês, que não perdia uma palavra do dialogo. — Espera... não te confundas, que eu não quero confundir-te. Isto é conversar como amigos... Eu já sabia que foste honrado com a rapariga, e que a casaste com um bom dote... Uma fraqueza não desacredita ninguém... David também pecou, e S. Pedro negou o mestre.
— Dizes bem, João, adeus, até outra vez...
— Então... até outra vez.
Padre João não compreendeu a aflição do arcediago. A última despedida disse-lh'a, quando ele de repente lhe voltou as costas, por não poder conservar-se com a cara voltada para o francês que lhe não desviava os olhos dela.
Já escanchado comodamente sobre o albardão da égoa somnambula, o antigo conhecido de Ana do Carmo, voltando-se para o livreiro, disse, sorrindo:
— Vê que tal é o amigo? Olhe como ele se atrapalhou quando eu lhe falei na moça...! reparou?
— Reparei... reparei...
— O que ela merecia é que o marido dela lhe quebrasse o espinhaço com uma tranca... Mas os maridos às vezes, são tão bons como elas... Adeusinho...
— Passe muito bem.
Mr. Hemerin leu, segunda vez, a carta anonima, e saiu.
Esperem asneira. Quando mal nos percatamos, temos pela prôa um marido brioso!
Safa!...
Rara avis in terris...