Capítulo XVIII
Se eu bem lho dissesse, ela melhor o faria.
A indignação contra Elisa, nessa tarde, cedeu o logar a novas sensações. A literata punha a mão sobre o peito, e dizia: «Eu tenho aqui alguma coisa nova! »
E parece que tinha!
Lembrava-se de cinco situações, em vários romances, semelhantes à sua. Encontrava-se a cada passo com a imagem de Augusto Leite. Achava extraordinária a coincidência de dois espíritos sublimes. Divinisava aquele encontro, lançando às largas costas da Providência a predestinação de se verem crianças, e encontrarem-se na idade em que os corações não resistem ao superior destino da sua união. Não há nada como a mulher espirituosa!
O futuro bacharel da sua parte não era tão metafisico. Quando procurou Rosa já trazia na carteira um calculo aproximado do patrimonio da sua companheira de infância. E depois que a ouviu, indagou as coisas de modo que o calculo não lhe falhava em 3$200. Era um poeta da força de quatro dromedários em prosa vilã. Tirem-lhe o francês, e ponham-lhe dezoito arrobas de carne, terão o seu digno tio Antônio José da Silva.
Na manhã imediata a senhora D. Custodia Hermenegilda da Silva, acompanhada de seu filho, e três novelas vieram visitar a filha do arcediago. O acadêmico depôz respeitoso a oferta nas mãos (que não chamo lindas, porque não minto) da agradecida menina.
As mil coisas da conversação, particularmente acerca de Elisa, resumil-as-hemos na última pergunta, que D. Custodia, passeando no jardim a sós com D. Rosa, lhe fez enquanto seu filho, de propósito, folheava os romances da poetisa.
— Porque se não casa, menina? Precisa quem administre a sua riqueza, quem lhe sirva de companhia, e lhe mereça o seu bom coração. Casar pobre é uma desgraça; mas na sua situação, o casamento deve ser a felicidade de toda a vida. A tal não a aconselho eu com um homem estragado. Eu sou um triste exemplo dessa leviandade. Meu marido era um letrado, muito sábio, o melhor advogado do Porto, mas o mais extravagante homem que imaginar-se pode. Casei contra vontade de minha família, e por isso, quando meu marido dissipou a minha legitima e a dele, deixando-me por herança este filho que tanto me tem custado a educar, meu avarento irmão negou-me um subsidio para ajudar a formatura de seu sobrinho. Nasci em casa rica, e tenho sempre vivido pobre. Minha irmã Angelica é uma beata estupida, que nem irmã me quer chamar. Estas e mil outras infelicidades me tem obrigado a amaldiçoar a hora em que casei: mas... se me lembro de meu marido, que era um doudo infeliz, não lhe amaldiçôo a memoria.
— E se eu deparasse um homem como seu marido?
— Não dê esse passo cegamente, menina. Estude bem o caráter dos homens, e, quando encontrar um como meu filho, case-se, que é venturosa, e dá a ventura a um mancebo digno dela... Vejo-a pensativa!... Eu não lhe fiz pergunta nenhuma, senhora D. Rosa, a que a menina deva responder com a cor na face... Estou certa que v. s. ª, conhecendo a fundo as virtudes de meu filho, seria a primeira a chamar-me mãe... e, se as circunstâncias a privaram de conhecer a sua, acharia em mim... Que sobresalto é esse?! Sente-se oprimida? Foi por lhe falar em sua mãe?... desculpe-me, que eu não cuidei que a magoava...
— Não me mágoa... Isto são reminiscências da infância...
— Conheceu a mãezinha?
— Mal me lembro... vi-a, sendo eu criança de seis ou sete anos...
— Ela já morreu?
— Penso... que sim...
— Que prazer não teria ela em conhecel-a tão linda, tão esperta...
— Talvez me odiasse, como me odiou...
— Pois ela...
— Não vê que me abandonou?
— Talvez violentada por circunstâncias...
— Muito por sua livre vontade...
— Sim?! então era uma indigna mãe... e desculpe-me...
— De certo era... uma indigna mãe... meu pai nunca me falou dela...
— Tal era a diferença que ele conhecera entre mãe e filha... Ora, pois; não sofra por tal motivo, minha menina... Quer-me para sua mãe?...
— De certo... queria.
— Eu estou-me a rir... Esta pergunta não devia fazer-lh'a, sem que a menina tivesse do caráter do meu Augusto um seguro conhecimento... Isso há de vir com o tempo; e, se o coração lhe não repugnar, aceite-o como marido... Não é rico; mas o seu patrimonio é o amor que ele tem ao trabalho, e o seu talento que lhe promete créditos semelhantes aos de seu pai, que tratava pouco dos seus interesses. De pai a filho vai grande diferença. Um pensava no dia presente; o outro pensa no dia futuro... Tem sido bem grande a minha impertinencia, não é verdade?
— Pelo contrario, deleita-me a sua conversação, e cativo-me dos carinhosos desvelos que emprega na minha ventura... Oxalá que eu nunca desmereça no conceito da minha amiga...
— Espero que assim seja... Diz-me o coração que teremos de ser muito, muito amigas, que viveremos unidas muitos anos, e que falaremos com prazer do belo dia que temos passado... Aí vem o Augusto!... sempre com os livros de volta...
— São as Cartas a Sofia por Mirabeau... Não pensei que a senhora D. Rosa conheceria esta obra...
— Porquê?
— Não é muito própria para leitura de meninas.
— Que tem? Se eu entendo as ideias desses livros, é que eles não me dizem nada novo; e se as não entendo, nada perco da minha inocência.
— Acaba v. s. ª de apresentar uma ideia que ópera uma completa revolução na minha maneira de encarar as novelas! Tem razão!... Vejo que é não só sublime, mas até razoável no seu sistema!
— Creia que disse a verdade; e, senão, despersuada-me que eu serei dócil...
— Não a contradigo, minha senhora. Pelo contrario, sou da sua opinião. Minha mãe, esta menina é um anjo, e tem um talento extraordinário...
— Não o creia, minha senhora.
— Não preciso que mo diga. Meu marido soube dar-me o gosto para apreciar o mérito das pessoas. Se fiquei pobre de bens, posso afoutamente dizer que o não fiquei de inteligência. A senhora D. Rosa Guilhermina é um portento. Ninguém dirá o que aqui está, sem se lhe importar com o mundo, onde as tôlas, com algum palavriado, recebem aclamações de espertas.
— Ai! eu não ambiciono lisonjas do mundo!... Gosto de saber, porque o meu espirito precisa deste alimento.
— E o seu coração? — perguntou Augusto.
Rosa baixou os olhos, e a sua linda face, cor de cereja, fez-se mais linda.
— São horas de nos retirarmos — atalhou a irmã do negociante, que resumia em si a finura que a natureza caprichosa não quis regularmente distribuir na sua numerosa e estupida família. — Menina, dê-me um abraço.
Augusto apertou a mão de Rosa, que hesitava, não obstante as Cartas a Sofia... Despediram-se com requebros e olhaduras de vários modos, e feitiços, de parte a parte.
Seguiram-se as visitas regularmente. D. Custodia Hermenegilda acompanhava sempre seu filho. (Seja dito para sossego da opinião publica.) A estanqueira reformou a sua opinião a favor de Rosa, e vingou-se em pedir trinta reis de divida de simonte, que a fiadeira intrometida lhe devia. A outra, que dobava, e cujo nome não me lembra, vingou-se da vizinha, batendo-lhe à porta alta noite. Tantas vezes repetiu a graça, que se constipou, e constipação foi esta que a pobre mulher morreu no hospital, declarando, à hora da morte, que nunca vira entrar de noite homem nenhum em casa de Rosa, e que fora a estanqueira que a metera em aquela alhada: declaração que fazia para que Deus não condemnasse a sua alma, traste, realmente, de que Deus, de bom grado, se dispensaria, e nós também.
As mulheres dos meus romances quase todas são honestas pessoas, que se casam. Só quando de todo em todo não posso falsificar a tradição em honra das minhas heroínas é que as sacrifico ao nariz-torto das mães de família, que, quase sempre, exprimem com o nariz a sua justa indignação contra os romances em que os amantes não casam por fim.
Benignas senhoras, exultai, que a moral triumfa em todas as minhas obras. D. Rosa Guilhermina resolve casar-se na forma do sagrado concilio tridentino e constituição deste bispado com o senhor Augusto Leite. O juiz dos órfãos concedeu a licença, e o senhor Antônio José da Silva, embriagado da ventura própria, estimou que seu sobrinho arranjasse mulher com dinheiro, única esperança, que ele negociante tinha de evitar as mendicantes perseguições de sua irmã.
Se imaginam que os noivos deviam dizer muito bonitas frases, enganam-se. Namoraram-se pelas novelas, e liam ambos a pergunta e a resposta dos diálogos mais apaixonados. A senhora D. Custodia assistia a estas leituras, e lagrimejava de ternura.
A constante presença desta senhora ao lado deles, authorisa-me a dizer-vos que nunca as duas creaturinhas do Senhor tiveram ocasião de adiantar-se um beijo por conta do matrimonio. Eu não sei que se tenha feito um namoro mais honesto que aquele! É um gosto a gente encarregar-se de archivar estes casamentos que fazem honra ao gênero humano! A inteligência gosa, o coração consola-se, a virtude dança a polka, e o vicio envolve a cara hedionda no seu cache-nez!
Oh! Bemaventurados, em duplicado, aqueles que me lerem! O futuro fará justiça à candura das minhas intenções!