Capítulo XXI A Filha do Arcediago · Capítulo 22 de 31
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Capítulo XXI

Já não viviam na rua das Flores os disparatados cônjuges.

O senhor Antônio José, quinze dias depois de casado, fechou a sua loja de panos e algodões, traspassando-a. Fora esta a primeira exigência de sua mulher. Tanto ele como Angelica resistiram um pouco às razões frívolas de Maria Elisa; mas o amor vencera, e o covado e as balanças foram oferecidas em holocausto a himeneu, como dizia a mulher de João Pereira, rindo-se muito da aristocracia balôfa da sua vizinha, que lhe não dava tréla.

Fechada a loja, e liquidados os lucros, o senhor Antônio, por escolha de sua mulher, foi viver na última casa que o leitor encontra na rua da Rainha, que nesse tempo não tinha nome. Era uma casa de quinta, com ares apalaçados, onde a senhora Angelica se dava pessimamente com os ratos enormes que tiveram o bárbaro apetite de lhe comer a manga esquerda do seu capote, na primeira noite, e tentaram a temeridade de lhe roer a unha de um dedo do pé! Inscrevemos aqui as amarguras da senhora Angelica, porque nos impozemos a obrigação de comemorar todas as lágrimas deste desventurado enredo.

O senhor Antônio José da Silva comprou carruagem. Esta imoralidade custou muitos padre-nossos a sua irmã, que esperava todos os dias um raio fulminante sobre os cavalos, que conduziam sua cunhada a passeio pelas estradas de Braga e Guimarães, que eram nesse tempo um pouco melhores que hoje, porque eram de pedra, e a civilização não tinha ainda inventado o cascalho.

O senhor Antônio caíra na imprudencia de entrar, uma vez, na carruagem, e viu desgraçadamente realisadas as suas previsões! Foram tais os solavancos que sofreu aquele globo de carne, tais entaladelas flagelaram os seus rofêgos esponjosos, que, três dias de cama, o nosso bom amigo dificilmente digeria a mesquinha refeição do costume.

Maria Elisa nunca mais o convidou para o martírio da carruagem. Era uma excelente esposa! Conhecera profundamente que as dimensões abdominosas de seu marido não comportavam a agitação febril do seu espirito. Ia, portanto sozinha, enquanto seu marido cultivava uns repolhos e umas melancias que plantára e semeára para ter em que exercitar as suas forças musculares.

A Providência nem sempre é justa para os bons cultores da hortaliça! Enquanto o senhor Antônio estudava a maneira de salvar do bicho a folha exterior do repolho; enquanto o bom cidadão classificava metodicamente a natureza do estrume, com que deviam adubar-se os terrenos de melancia; enquanto, finalmente, o negociante retirado legava à humanidade um prestante serviço em horticultura, sua mulher andava por lá fazendo coisas, que aqui vamos escrever para caução de todos os maridos, que espreitam a toupeira no cebolinho, enquanto suas amáveis mulheres vão comprar tarlatanas, e rendas.

O leitor, se tem atendido à melhor história que se tem escrito nestes últimos anos, há de lembrar-se de um senhor Fernandes, que assistiu às bodas do senhor Antônio, e que tinha uma linguagem distinta, e umas ironias salgadas a sabor de D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide.

O senhor Fernandes, de trinta e tantos anos, aspecto agradável, com algum espirito, com muita pouca matéria, amigo de livros, e mais ainda das boas mulheres, era o maior pecador que produziu a rua das Flores. Contra todas as leis da honra, contra o mais respeitável dos preceitos do decálogo, o senhor Fernandes tinha uma diabólica vocação para a mulher do seu próximo! Cai-me da mão a pena indignada por se ver na dura precisão de archivar este escândalo! Luto, há oito dias, com a veracidade do ignominioso facto, que vou enunciar com as lágrimas nos olhos, e o pudor na face. Quisera cobrir com o véu da caridade esta ulcera; porque antevejo o doloroso vexame que involuntariamente vou inflingir ao leitor pudibundo! Não é possível. Sou muito amigo do publico; esforço-me por manter a moral na temperatura em que a encontrei; mas, como o amigo de Platão, sou mais amigo da verdade. É necessário dizer-se ao menos metade do que sei. Benzamo-nos, pois, primeiramente, para que Deus nos livre de maus pensamentos, e das tentações hediondas deste grande pecador, que a estas horas já sabe o bem ou mal que fez!...

Fernandes (proh pudor! ) entendeu que devia namorar Maria Elisa, a esposa do seu vizinho, a mulher do seu próximo, que é sempre um sujeito respeitável, ainda que seja um grande tolo; ou um grande maroto!

Ouseiro e veseiro de semelhantes impudicicias, este monstro fora o primeiro imoral que tentára a honestidade da senhora D. Marcellina, esposa muito querida do senhor João Pereira, e, pelos modos, assídua cultora dos estudos da natureza. Esses estudos quem lhos fez apetecer foi ele! Não queremos fazer pêso aos seus enormes pecados, mas releve-nos a sua alma o encargo que lhe fazemos de ter sido ele o mestre de astronomia de Marcellina. Sem os prelogomenos, que ele lhe ensinou, nunca ela viria, alta noite, estudar o «planeta sete-estrelo»! À sombra da ciência, deu-se aí uma grande imoralidade na face da terra! O crime infando, que hoje felizmente não tem sectários, graças à civilização que vai ensinando os limites dos deveres, não só internacionais, mas também inter-vizinhos, o crime infando (repetimos com os calafrios do terror na espinha dorsal); o crime infando, finalmente, consubstanciou-se de tal arte no sangue daquele homem, que (vox faucibus hæsit! ) não havia mulher casada, com um palmo de cara sofrível, que o réprobo de Deus e dos maridos não tentasse abismar nas profundezas do báratro perpétuo!

Mas pela literatura tinha vindo um grande mal à senhora Marcellina, que não é digna do dom, atendendo à vilã fraqueza com que se deixou embair das astucias daquele grande velhaco, que já me fez suar três vezes, desde que estou falando nas suas impudências!

De mais a mais, Fernandes era inconstante nas suas afeições, e cínico na maneira de se desquitar das fastidiosas mulheres, que o fatigavam depressa. Esta segunda imoralidade é uma questão à parte. A nossa missão, aliás repugnante (nunca cessaremos de lembrar ao leitor que nos parece impossível este crime, como o parricido aos legisladores de Atenas!) a nossa missão é contar que o dito Fernandes tentou seduzir Maria Elisa!

O pior não é isto! A maior das vergonhas é ter eu de dizer que Maria Elisa, legitima representante de nossa avó, que comeu maçãs no paraíso, cedeu à tentação, e só torceu o pudibundo nariz duas vezes (ou três, não me recordo bem) às cálidas manifestações daquele grande desaforado, perverso, dissoluto, celerado, e não sei mesmo se concussionário!

Quem soubesse isto, entrava no segredo dos constantes passeios de Maria Elisa. A sua habitual direção era à Ponte-da-Pedra, a uma légua do Porto, na estrada de Braga.

Aí apeava-se da carruagem, a pretexto de descansar. Subia para a sala da estalagem, que já nesse tempo era as delicias dos honrados amadores de peixe frito, e azeitona. E nessa sala... (digitis callemus et aure! ... Soccorre-me, meu velho Horácio!) encontrava sempre esse homem para o qual o meu vocabulário de indignação não tem um nome adequado! E isto aconteceu muitas vezes, enquanto o senhor Antônio sachava os repolhos, e mondava a hervagem das melancias, sabe Deus com que dificuldades na curvatura da coluna vertebral!

Três meses, seis, nove, um ano esta pouca vergonha! E o céu não tinha raios para o impio, e o senhor Antônio não tinha naquele coração um presagio, que lhe dissesse que entre o repolho e a melancia há alguma coisa que deve ocupar a cabeça de um homem sensato!

A Providência, algumas vezes, parece-se com Homero; dormita, e consente que os Antônios Josés levem no sono a palma ao cantor de Ulisses, que também dormitou enquanto Penélope fazia muitas coisas, em que se parecia com Maria Elisa. Ora já não é pequena gloria para o senhor Antônio José colocar-se a par de Ulisses!

Era em uma bela tarde de agosto.

Maria Elisa saíra para a Ponte-da-Pedra. O senhor Antônio ficara num banho de tina, chafurdando como o próprio tubarão de barbatanas. Quando saiu do banho, achou-se fresco, como é natural, e resolveu dar um passeio, e, o que mais é, surprender sua mulher, que devia ficar contentíssima de tal surpresa.

Ao pensamento seguiu-se a execução. O senhor Antônio repartiu as suas duas pernas-pleonasmos sobre o dorso de uma pacifica jumenta, e com a ponta da bengala estimulou-lhe a anca de modo que era um raio por aquela estrada fora! E era um grupo bonito! A pequena jumenta, debaixo do vulto majestoso do senhor Antônio, parecia consubstanciada na organização do seu dono! Iam contentíssimos!

— Lá está a carruagem! — disse ele, exultando, à sua jumenta, com a qual tivera um longo colóquio, em que a submissa interlocutora não fora menos eloquente com o seu silencio, nem lhe quisera conceder honras de Balaam.

Pararam à porta da estalagem. O senhor Antônio não queria fazer ruido, e perguntou baixinho:

— Onde está a dona da carruagem?

— Está lá em cima com o primo.

— Com o primo! — exclamou ele com um som de ventrículo.

— Sim, senhor, o primo...

— Quero vê-la...

E subia as íngremes escadas, agarrado ao corrimão.

Maria Elisa conhecera a voz. Fernandes fugira para o quintalejo imediato, e escapára-se pelos pinhais vizinhos, sem ser visto.

O senhor Antônio estava diante de sua mulher, solene e majestoso como todos os maridos em semelhantes apertos. Queria falar, e parece que a eloquência lhe ficava estagnada nos papos do pescoço que oscilavam como duas bexigas de porco, sopradas pelo vento. Queria profundar o abismo da sua situação, e a única imagem que lhe aparecia aos olhos pávidos era João Pereira, o do chinó!

Angustias destas... não tem nome na terra! Caiu, como forçado por um enorme murro, sobre uma cadeira. O urro, que a cadeira gemeu debaixo desta avalanche de carne, acordou os ecos da estalagem.

Maria Elisa, essa, pálida e confusa na surpresa do crime surprendido, aproximou-se de seu marido, e murmurou com meiguice:

— Que tem?...

— Que tenho?... perguntas-me o que tenho?

— Sim!... pois que fiz eu?!

— O que me fizeste?!

— Sim!... o que lhe fiz?!

— O que lhe fiz?! diz ela.

— Digo... pois que lhe fiz eu para tamanha comoção?

— Tu escarneces de mim!... Que primo é esse que estava contigo?

— Um primo!?...

— Sim, um primo... quem é esse primo, que nunca me falaste nele?... Deixa que eu chamo a estalajadeira, e ela te dirá quem é que me disse que tu estavas aqui com um primo... Espera aí...

O senhor Antônio dera um pulo, como um tigre, da cadeira para o meio da sala, e tomava fôlego para chamar a estalajadeira, quando Elisa, atordoada da surpresa, mas não de todo, correu a ele, embaraçando-o do vergonhoso propósito.

— Não chame... que é uma vergonha...

— Então sempre é verdade, que me és infiel!... Deshonraste, Maria Elisa, um homem a quem deves tudo!... É assim que se é mulher honrada!... Foi para isto que me amaste, e quizeste casar comigo!... Eu endoudeço... Eu morro!... Que dirá o mundo!...

O senhor Antônio começava-lhe a dar cuidado o que diria o mundo. nestas enfermidades, o temor do que o mundo dirá é sempre um sintoma favorável; porque o mundo cala-se depressa, e as funções vitais do espirito entram no seu curso regular.

Maria Elisa não era tão esperta como eu supunha. Ficou estupidamente surprendida. Não teve nenhuma lembrança feliz, que obrigasse seu marido a pedir-lhe inclusivamente perdão da calúnia injuriosa! Caiu com miserável imbecilidade num torpor moral, indigno da sua experimentada filosofia. Deu-lhe para amuar, e morder o lábio inferior, mas não com tanta força que espirrasse sangue. Ela sabia fazer as coisas com prudencia; e, com quanto sofresse bastante na alma, parece que poupava o corpo como coisa sua, e não lhe quero eu mal por isso. Uma mulher, como eu seria se o fosse, deve fazer muito porque o corpo se não sinta das enfermidades da alma. A alma tem muitas primaveras, e por mais envelhecida que esteja não se vê. O corpo tem só uma, e essa está sujeita à maldita perfeição das lentes que lhe não deixam uma ruga precursora de decadência sem demorada analise.

Eu, se fosse mulher, tinha enviado para Rilhafolles muitos poetas! Havia de reduzil-os à quinta essência do amor, que é a demência. Com preferencia a todos os outros, andaria de modo que me tornasse um curioso estudo dos scepticos. Estas feras é que eu amansaria. Se eu conseguisse tornar-me objeto dos seus estudos fisiologicos, prometo-vos que a seita ridiculamente cômica dos cansados, dos scepticos, e dos não comprehendidos acabava como as preciosas ridículas de Luiz XIV.

Querem saber o que eu fazia? Aí vai... É um serviço gratuito que eu ofereço às mulheres, embora provoque inimizades de homens, que são realmente os entes que menos me incomodam. neste mundo há só duas coisas que me afligem: são os maus charutos, e madrugadas antes de uma hora da tarde. No mais entendo que este globo é o melhor de todos para quem não tiver calos e reumatismo.

Se eu fosse mulher com uma cara sofrível, estabelecia para meu uso as seguintes teorias:

Solteira

Tendo de quinze a vinte e cinco anos, dava-me ares de Cândida inocência, e singeleza patriarcal. Olharia este ou aquele importuno, mas só com três partes de um olho, imaginando que ele tinha quatro. Far-me-ia passar por míope, para que ninguém reparasse no olhar penetrante com que os míopes costumam encarar os objetos a certa distancia. Não usaria luneta para mostrar assim que a minha vista era de sobejo para admirar as poucas maravilhas do mundo. No teatro teria a barba sempre apoiada na convexidade da mão, e nunca pegaria do binóculo sem reparar que a luva retezada não tivesse rugas.

Com as lentes atestadas para a segunda ordem deixaria passear a vista, como dizem os franceses, pelo rebanho de Epicuro, que somos nós os miseráveis estafermos de calças.

Surprendida, retirava os olhos com indignada comoção, e perguntaria à mamã se o vestido de D. Efigênia, ou de D. Simplícia não era de péssimo gosto.

No final de cada ato, saía a visitar uma amiga, e dava dois saltinhos quando me erguesse do banco, para que a minha cintura não ficasse sempre oculta pelo parapeito do camarote.

Acontecendo, porém, que a minha cintura lucrasse com o mistério, não saía nunca sem lançar com languida graça uma peliça pelos ombros. Nos bailes não sei o que faria; mas o que devia fazer era não tocar nunca num taboleiro, e aceitar com mostras de grande sacrifício a instada oferta de um fôfo, ou de um rebuçado de chocolate. Líquidos, excepto água límpida, nenhum. Nos jantares tomaria duas colheres de sôpa, o pescoço de uma rôla, ou a aza de um frango. E isto mesmo seria vagorosamente triturado pelos dentes preguiçosos, com ar de vítima sacrificada às conveniências de uma sociedade, que tem o prosaísmo de comer nas horas vagas. Fructas, comeria uma laranja, uma amêndoa torrada, e o resto do tempo entretel-o-ia com o palito.

Como é natural que me retirasse com fome, em minha casa, nas horas silenciosas da noite, quando a natureza já não respira, como se diz nos primeiros capítulos de quase todos os romances, comeria de modo que, no outro dia, me levantasse pálida pelo efeito de uma indigestão.

Estaria duas horas diante de um espelho a desalinhar-me, porque o desalinho é o mais melindroso toucador de uma mulher, que conhece profundamente as irrisórias pieguices do homem.

Cheguei à especialidade em que eu muito queria ser mulher, pelo menos na estação do teatro lirico.

Se vivesse no Porto, colheria as melhores flores da minha corôa na estufa do real teatro de S. João, e escolheria de preferencia certos catos reais que eu lá conheço. Eu denomino cato real o leitor, qualquer que ele seja, com tanto que tenha escrito algumas sandices e dito outras tantas a respeito do ceticismo. É cato, de trapeira pelo menos (esta classificação não é minha: pertence a um espirituoso folhetinista que de antes classificava catos, e actualmente ele próprio se fez cato politico, e vive nas estufas doentias do jornalismo sério), é cato de trapeira, dizia eu, todo aquele que chora o eterno desalento da sua alma despoetisada, e não desencrava a luneta indecentemente enorme da primeira mulher, que teve o descuidoso passatempo de reparar cinco minutos na sua pálida fisionomia.

Com estes é que eu me queria encontrar, sendo mulher, e mulher literata, porque, do contrario, agradeço à Providência o favor que me fez de me atirar qual sou à torrente dos acontecimentos masculinos.

Mulher, e literata, sacrificaria temporariamente a minha isempção a um desses scepticos desgrenhados, que se balouçam na plateia como se, insaciaveis de espirito, precisassem dar à matéria todos os repelões, que as turbas comtemplam como terremotos do talento.

Logo que eu conseguisse prender-lhe a atenção, aventuraria um desses sorrisos, que me não custariam nada, sem que por isso me parecesse com certas mulheres, que se escangalham em risadas alvares e frívolas, mostrando a profundidade dos engastes mandibulares como quaisquer cosinheiras nos seus colóquios amorosos com os cosinheiros respectivos.

Eu não me riria nunca; sorriria algumas vezes, e quereria que o meu sorriso fosse recebido como formalidade da etiqueta para com os ditos semsabores das pessoas que me rodeassem, que seriam quase todas de uma fabulosa semsaboria.

A fera, domesticada no seu sanguinário ceticismo, procuraria revelar-me dez páginas intimas da sua agonia dilacerante. Falar-me-ia quatro vezes do seu desalento: faria o necrologio da sua alma: citaria Lazaro, levantando-se do tumulo à voz do Cristo: e acabaria por pedir-me que sentenciasse o seu futuro para optar entre a vida e a morte.

O que eu faria, então, atenciosas leitoras, não sei se alguma de vós já teve a condescendência de o fazer. Mandava-o à meia noite aparecer debaixo da minha janela; e, sendo no entrudo, atirava-lhe um ovo de cheiro; sendo na semana santa, quatro confeitos; e, no Natal, uma tigelinha de ovos moles.

A humanidade estava vingada.

Ora aqui está o que eu faria, sendo solteira.

Casada

Sendo casada, eu era, com grande despeito da mulher de um certo ministro da fazenda do Egipto, chamado Putifar, e da mulher do senhor Antônio José da Silva, uma honesta mulher, de quem os mestres encartados de necrológios diriam depois: Era uma esposa carinhosa, o modelo das mães, e uma senhora virtuosa a todos os respeitos. É verdade que não é necessário ser tanta coisa para, à saída deste mundo, deixar os jornais encarregados de dizerem ainda mais. Morram quando poderem, que eu lhes prometo uma boa duzia de epítetos.

Eu seria não só o que me fizessem ser os constructores de necrológios e epitáfios; mas, por minha parte, exerceria todas as virtudes conhecidas, e muitas outras que ninguém conhece. Seria, por abreviar moralidades, que me dão grande trabalho, e aborrecimento aos leitores, seria tudo menos o que foi D. Maria Elisa.

O que o senhor Antônio seria, isso é que eu não sei; mas o que ele estava sendo, em verdade vos digo, que não deve ser inveja de ninguém!

A eloquência dolorosa, que o auxiliou no choque da surpresa, falhou-lhe. Quis fulminar a perjura com uma apostrofe corrosiva, e não lhe ocorreu nada a propósito. Um pensamento ignominioso esvoaçára-lhe na cabeça febril... Teve tentações de esmagal-a contra a parede do quarto em que esta cena atribulada corria desapercebida!

O negociante, digno de melhor sorte, pagava com usura as afrontas orgulhosas com que tentára ferir a honra do seu vizinho João Pereira.

No auge da desesperação, a sua alma tornou-se estéril, a sua língua pegou-se aos gorgomilos, os seus lábios resequiram como queimados pelos suspiros rugidores, que lhe subiam das soturnas catacumbas do peito. Um tremulo de sezão vibrava-lhe os músculos da face, especialmente os bussinadores, que a maior parte dos leitores não sabe o que é, mas por isso mesmo é que tudo o que eu disser tem um cunho de originalidade, que o senhor Antônio não sabia dar ao seu ciume, nem sua mulher à sua perfídia.

Esta falsa posição não podia durar muito. Se se prolonga mais cinco minutos, eu, por mim, declaro que largava a pena, e acabava o conto aqui. Não há nada mais semsabor que a situação da mulher desleal surprendida por um marido, que nem sequer arranca de dentro quatro gritos, e reteza os braços na arripiadora postura de Orestes, insultando os deuses! Porque não disse o senhor Antônio alguma coisa fora do comum?

Porque não fez estilo de marido, que é o mais mascavado de todos os estilos? Porque não exclamou: «_Pérfida mulher! hei de beber-te o sangue, e cevar no coração as minhas iras! hei de esfolar-te para memoria eterna! hei de mandar ao vento as tuas cinzas, e a tua alma a Satanás! Oh! Ah! Ah! Oh! _»

Com estas palavras já eu compunha um capítulo, porque as outras tolices encarregava-me eu de as pôr de minha casa, e juro que um dos maridos mais venerados e ferozes do século, que passa, seria o nosso amigo Antônio, com grande desfalque de João Pereira, que, no seu gênero, não era mau.

Assim nem eu sei como hei de acabar o capítulo de modo que ele e ela não pareçam dois volumosos parvos! Se me lembrasse de algum romance, que tenho lido, coisa que se parecesse com isto!... Ah!... Achei um bom desfecho, e que tem o mérito de ser o mais natural de todos.

O senhor Antônio desceu solenemente para a rua a procurar a jumenta, que tão grata portadora tinha sido do seu anhelante coração. A jumenta pilhando-se solta, fugira para casa, e não sei que monologo mental ela faria à sua liberdade.

O senhor Antônio pedira aos ecos a sua jumenta. Os sobreiros da encosta contemplavam silenciosos a sua dor. A limfa dos regatos era como um arremedo cruel aos seus gemidos! Desgraça!

neste angustioso conflito apareceu Maria Elisa. A carruagem aproximou-se.

— O senhor veio a pé? — perguntou ela, vendo seu marido encostado a um pilar da ramada.

— Que lhe importa? — redarguiu o marido convulso, metendo as mãos nos bolsos, e puxando as calças machinalmente para cima, dando-se a grutesca figura de uma talha chineza.

— Porque não entra na carruagem? — replicou a carinhosa esposa, aproximando-se meigamente do marido, que fumegava pelas ventas, como uma fabrica de fundição. — Venha... eu lhe explicarei tudo... verá que estou inocente, há de arrepender-se de me tractar assim... — prosseguiu ela, com o tremor de voz, que precede as lágrimas.

— Como inocente! — murmurou o senhor Antônio, um pouco modificado nas caretas da sua fúria legitima.

— Sim... inocente... Em casa lhe contarei tudo...

— Pois pode lá ser que estejas inocente?... Tu estás a mangar comigo!...

— Verá que não sou digna da sua cólera, e que os seus ciumes são injustos... A afronta que fez ao meu caráter de mulher casada, tarde ou cedo lhe fará remorsos, senhor Antônio José da Silva!...

O trágico entono destas palavras acobardára os espíritos briosos do marido. O senhor Antônio julgou-se algoz daquela vítima; e, se ela teima, haviamos de vê-lo ajoelhar aos pés do inocente holocausto do seu ciume, e pedir-lhe perdão.

Maria Elisa, restituo-te os teus créditos! Andaste perfeitamente, por fim! Eu, se fosse mulher casada, com os teus costumes, faria o que tu fizeste.

Em 1819 ninguém faria mais do que tu!

Hoje... serias de uma simplicidade boçal.

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