Capítulo XXV A Filha do Arcediago · Capítulo 26 de 31
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Capítulo XXV

O senhor Fernandes quando respondeu, em duas linhas, à carta que Maria Elisa lhe enviara, contando-lhe os sucessos ocorridos desde a fatal surpresa da Ponte-da-Pedra, procurou um seu amigo, cadete de cavalaria, e convidou-o a representar de primo para poder salvar a sua amante do risco.

O cadete, mancebo de maus costumes, e votado engenhosamente a toda a casta de maroteira, aceitou o papel e estudou-o com muita habilidade. Era necessário que D. Maria Elisa o não visse para obviar aos embaraços muito naturais em tal surpresa. Fernandes inventára o desafio, e o cadete inventára de improviso a história genealógica dos Pesicatos e Bemóes, que encaminhou às mil maravilhas a história do duelo.

O cômico, retirando contentíssimo do bom exito da sua travessura, antes de procurar Fernandes, fez obra por sua conta, divulgou a brincadeira aos seus camaradas, que eram o tenente e alferes da companhia, e achou em eles dois optimos bargantes para continuarem a caricatura.

Quando a última cena se passava no Serio, o senhor Fernandes, na rua das Flores, estava desesperado, porque previra que Maria Elisa levaria a mal este excesso de escárnio a seu marido. Ele bem sabia que nenhuma mulher consente que a desgraçada condição do marido ultrajado seja um brinquedo para o ludibrio do homem, que fatalmente a levou a uma fraqueza de coração.

Era tarde para remediar a imprudencia. Esperou, inventando pretextos que o reconciliassem com Maria Elisa, no caso possível de ter ela sido testemunha da zombaria feita a seu marido.

Não se enganára. O cadete fora o portador da resposta enviada pelos oficiais. Fernandes, reprovando o procedimento do seu amigo, que dava grandes gargalhadas, e prometia contar o caso a toda a gente, escreveu a Maria Elisa historiando o acontecimento. Era impossível salvar-se! Embora não tivesse ele sido o inventor do escândalo, quem expozera Antônio José da Silva fora de certo ele, e Maria Elisa leu a carta, rasgou-a, e devolveu-lh'a.

Seguiram-se novas remessas de cartas, que ela nunca abriu. Deixou de sair de casa, para não ser encontrada. Soffreu quanto pode sofrer o amor próprio. Não sentiu, por isso, mais interesse por seu marido; todavia córava, muitas vezes, diante dele, lembrando-se que o fizera descer tanto. Comprehendam-na, se podem! A sua consciência estivera tranquila até ao momento em que foi surprendida na Ponte da Pedra! O que lhe pesava não era a infidelidade; era o ultraje, que lhe fizeram a ela, escarnecendo um traste de sua casa, uma coisa que a sociedade chamava o «seu marido»!

Eu, se fosse mulher, seria isto, pouco mais ou menos, e levaria o meu nobre resentimento ao extremo de abominar o vaidoso amante que estabelecesse termos de comparação com meu marido.

A situação de Maria Elisa era muito especial. O senhor Antônio estava assustado, e dava como certa a sua morte, logo que os oficiais de cavalaria o encontrassem a jeito. Ao anoitecer mandou trancar as portas, e armar os criados, enquanto, confiado na coragem de sua mulher, consultava os meios, que devia empregar, para judicialmente defender da sua arriscada corpulência os golpes de espada daquele par de Dâmocles que o neto de D. Alarico Temudo Pesicato lhe enviava a casa.

Maria Elisa queria serenar os sustos de seu marido; mas de que modo? Se lhe dizia que tudo aquilo fora uma fantasmagoria, ficava a sua honra muito duvidosa para seu marido. Se deixava medrar o terror do infeliz, o pobre homem sucumbiria de medo, se visse em sonhos o lampejo da espada nas proximidades da barriga provocante.

Os paliativos não valiam nada para a cura. O senhor Antônio, no auge do medo, chegou a censurar sua mulher por ter usado palavras fortes de mais, quando deu ordem de despejo aos militares.

Maria Elisa quando viu, ao cabo de três dias, que seu marido tinha febre e tremia ao menor ruido que se fazia nas escadas, sentiu escrúpulos, e acusou-se de ter concorrido para os sofrimentos do pobre homem.

Fernandes teimava em escrever-lhe, e não conseguia que as suas cartas fossem, ao menos, abertas. O seu tormento inspirou-lhe um recurso extremo. Pediu ao cadete que se apresentasse humildemente em casa do negociante, pedindo-lhe perdão das asperezas do seu caráter, e afiançando-lhe que nada viria perturbar-lhe a sua tranquilidade.

Maria Elisa estimaria este acontecimento; mas não queria lembral-o ao seu indigno amante, porque jurára acabar tais relações.

O cadete foi representar, de boa vontade, a segunda parte da farça. O senhor Antônio não quis ouvil-o, sem que sua mulher estivesse escondida no quarto próximo, para intervir, sendo necessário.

— Eu venho — disse o cadete — desarmar a sua justa indignação, senhor Silva. Foi de mais o meu brio. Minha prima é sua mulher, e v. s. ª não tem obrigação de responder-me pelo mau conceito que fez dela. Desafiei-o: fui imprudente; mas espero merecer-lhe um generoso perdão, visto que as minhas demasias são filhas do nobre sangue que me gira nas veias. Retiro-me na certeza de que v. s. ª, de hora em diante, não se lembrará mais do passado, e terá por mim a estima que se deve a qualquer individuo, que zela a honra de nossas mulheres, tanto como nós.

O senhor Antônio ouviu-o primeiro com sobresalto, e depois com satisfação. Tinham-lhe aliviado do coração o pêso de quatro quintais. O sangue girava-lhe de novo em toda a extensão do sistema circulatorio; e os frouxos, que lhe acometeram as pernas, desapareciam, à maneira que o primo de sua mulher lhe garantia a inviolabilidade do seu abdômen.

O senhor Antônio tinha um excelente fundo. Não era valente, mas odiento também não. Deu um abraço no estroina, que recuou dois passos para o receber com todas as formalidades de um hábil cômico, e pareceu-lhe até que o primo de sua mulher (valha a verdade) lhe dera um beijo na bochecha direita. Não afianço isto; mas o que posso, debaixo da palavra de honra dos meus amigos, afiançar, é que um beijo na face do senhor Antônio, se se deu, revela um gosto estragado, um paladar torpe, e alguma coisa de indecencia atroz na pessoa do cadete.

A verdade é que o tranquilo marido recobrou a felicidade inquietada, e restituiu a sua mulher a plena confiança retirada por uma fatal intermitente de ciume. Desfazia-se em satisfações, acarinhava-a a seu modo o melhor que podia e sabia, comprou-lhe duas pulseiras de grande custo, e uma fivela de cintura, cravejada de diamantes. Maria Elisa aceitava os carinhos, a fivela, e as pulseiras com a mesma indiferença.

Não era, porém, filho do estudo este desdem. A chistosa amiga de Rosa Guilhermina vivia triste, porque vivia só. Desde que se entregára aparentemente ao extremoso negociante, as suas horas únicas de passageira felicidade eram as da Ponte-da-Pedra. Fernandes era um homem de não sei que perverso talento que seduz, capacita; e chega a victimar as próprias mulheres que têm a consciência de que são vítimas. Talento e corrupção eram já naquele tempo uma espada de dois gumes com que se cortam os nós górdios do coração de certas mulheres. E Maria Elisa era uma dessas certas.

O que ela teve de mais, entre as da sua escóla, foi uma caprichosa dignidade, que a fez esquecer num momento o amor de um ano. Recordava-se de Fernandes com pesar, e ódio; saudade, nunca. Quando se deixara cair nas astuciosas ciladas, que ele lhe preparara, com o animo frio da experiência das Marcellinas (que pelos modos eram muitas nesse tempo, apesar dos frades, e da suspirada virtude de outras eras) tirára ela, como condição, um eterno silencio a respeito de seu marido. Parece que o galhofeiro amante epigramou, uma vez, o abdômen do senhor Antônio, e teve, em vez de sorriso aprovador, um gesto de desprezo, que ele reconciliou lá como pôde. O caso é que nunca mais caiu na leviandade de ferir a susceptibilidade de Elisa, lembrando-lhe a monstruosidade moral e física de seu marido.

Foi péssima lembrança aquela de enviar o cadete a representar de primo! Maria Elisa quereria antes ser julgada, qual era, por seu marido, porque a desonra seria um segredo domestico, e a hilaridade publica não viria aggravar a vergonha de ambos. Mas o remédio cômico e inesperado, que o inconsiderado Fernandes deu ao mal, era exacerbar a ferida, expondo-se ao ar da publicidade, e ao fel do ridículo, pronto sempre a flagelar os maridos da escóla do senhor Antônio, que não são muitos, mas satisfazem as necessidades de alguns celibatários que vieram ao mundo para chronistas dos infortúnios alheios. Eu, que sou um dos que se honram dessa missão, não posso deixar de confessar publicamente a minha admiração por esta senhora, digna (a todos os respeitos não direi, mas a alguns, de certo) de outro marido, ou de outro amante. Qualquer que tenha sido o seu pecado, a gente de bom coração tem pena dela, vendo-a, depois dos tristes acontecimentos que historiei com sincero dó, sozinha, entregue à escuridão da sua vida sem amor, sem luz, sem ar, ali sempre na presença do senhor Antônio, carinhoso até à desesperação, terno até ao aborrecimento, desvelado em extremos de meiguice tola até dar vontade de o mandar comer e dormir.

Isso foi que ele nunca deixou de fazer. O estomago era uma coisa à parte na sua organização. Eram dois Antônios num. O Antônio do ciume morreria de paixão: mas o Antônio do estomago só uma indigestão poderia matá-lo.

Sempre ao lado de sua mulher, inerte, sedentário, bufando, arquejando, impando, o nosso amigo sentia-se cada vez mais pesado. A medicina mandava-o passear a pé, e ele sem Maria Elisa, não dava um passo. Já não eram suspeitas. Era a tenacidade do amor, a reloucura da velhice que o prendia àquela mulher, como se prende a criança tímida ao seio de sua mãe.

Correram assim três meses. Maria Elisa, cada vez mais triste, caiu numa especie de doloroso somnambulismo. As janelas do seu quarto não se abriam nunca. Passava as longas horas do dia e da noite, lendo sem reflexão, e escrevendo coisas que o seu marido não entendia, mas gostava de ouvil-as. Eram «melancolias surdas» como ela intitulara os trinta cadernos de papel em que as escrevera. Disseram-me que essas páginas perdidas continham coisas bonitas, pensamentos que não pareciam de mulher, energia de frase, conhecimento do coração, e toque real de uma verdadeira dor. O que não viram em elas as pessoas, que me informaram, foi o nome de Fernandes. Parece que a imagem deste homem fora para sempre banida das saudades de Maria Elisa.

Constrangida pela soledade, a antiga órfã de S. Lazaro lembrou-se com amor da sua amiga de infância. Queria revocal-a ao seu coração, de onde nunca saíra, mas seu marido odiava Rosa, fazia-se cor de carmim quando lhe falavam nela, e repetira muitas vezes que, enquanto ele fosse vivo, a filha do arcediago não entraria em sua casa.

Maria Elisa não replicava a este ódio inveterado. Tinha compaixão do pobre homem que, desde certo tempo, vaticinava a morte. Já não comia com o mesmo apetite. Já não acumulava com prazer as sopas na tigela do caldo de galinha. Sentia precisão de sentar-se, apenas se erguia, e acordava muitas vezes de noite com os pés frios e a cabeça em braza.

A senhora Angelica, sempre a mesma devota, depois das desordens, por causa do neto dos Pesicatos, meteu-se no seu quarto, em oração permanente, e apenas saía três vezes em cada doze horas para comer, visto que era necessário dividir a sua extática existência entre o oratório e a cozinha. Quis, algumas vezes, intrometer-se na vida de seu irmão, censurando a frieza de sua cunhada; mas não obstante a seriedade do assumpto, a senhora Angelica, se falava só dizia asneiras, o que não sucede somente à senhora Angelica.

Consta que ela fora uma vez ainda consultar a senhora Escolástica, a Massarellos; mas esta mulher tinha morrido de fome, não obstante predizer o futuro, que, parece, à primeira vista, um bom modo de vida, depois de jornalista, que são as Escolásticas de calças e paletó do nosso tempo.

Eu vou dizer-vos coisas pungentissimas. É com pena, realmente vos digo, que me vejo obrigado a deixar morrer uma das criaturas mais notáveis deste romance. Accuso a medicina de aqueles tempos por não ter salvado de um ataque apoplético o senhor Antônio José da Silva. Se fosse hoje, este homem não teria morrido, sem que ao menos o esfolassem com quatro duzias de ventosas, e cento e tantos cáusticos. Tel-o-iam salvado com alguma dessas medicinas, que disputam entre si a vida dos cidadãos, ao passo que as câmaras municipais mandam alargar os cemitérios. Felizes os que morrem hoje, que, se morrem, é porque não podiam viver mais.

O senhor Antônio deitou-se uma tarde, queixando-se de dores de cabeça. Meteu os pés num banho de mostarda; mandou pedir a sua mulher que viesse fazer-lhe companhia, e recebeu-a morto, quando ela entrou. O facultativo chamado sangrou-o. A veia verteu algumas gotas de sangue negro, e fechou-se, porque as válvulas do coração estavam fechadas para sempre.

Maria Elisa tomou a mão do cadáver, e beijou-a sem lágrimas. A senhora Angelica veio ao quarto de seu irmão, e chorou muito, grunhiu desentoadamente, e atordoou a vizinhança com gritos. Feita esta berraria de duas horas, comeu alguma coisa sem apetite; mas podia dizer que tinha fome que ninguém duvidaria da sua palavra. Ao mesmo tempo, Maria Elisa, que não gritára, nem chorára, fugindo do quarto de seu marido, fechara-se no seu, escondera a face nas mãos, e murmurou: «Perdi um pai! Sou órfã outra vez! »

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