Capítulo XIV
A pobre órfã do Recolhimento, antes de conhecer Rosa Guilhermina, enraivecia-se de não ser pensionista para compartir das regalias das ricas, que tinham o direito de responder com altivez às reflexões das mestras, e às rabugices da velha regente.
Reprimida pela necessidade de obedecer, fantasiava extravagantes futuros de onde a felicidade poderia vir resgatal-a à humilhante condição de órfã, dependente da caridade publica. Moça ainda de treze anos, lembrava-se de muitos casamentos ricos com meninas pobres daquela casa, e botava sortes e adivinhas, que todas lhe anunciavam o suspirado casamento. Uma velha, que sabia lançar as cartas, e com a qual havia muita fé ao recolhimento, três vezes lhe vaticinou um vantajoso casamento.
Relacionada com Rosa Guilhermina, a ambiciosa órfã esqueceu-se um pouco das suas queridas esperanças, porque, desde o momento em que ganhou a intimidade da sua amiga, dispensou a ração da casa, e viveu, independente da misericórdia, como irmã com a pensionista.
Se algumas vezes contou à companheira os seus passados sonhos de casamento, Rosa ouviu-lh'os rindo, e pediu-lhe que nunca se lembrasse de tal enquanto ela fosse viva, e tivesse um bocado de pão que repartir com ela.
Ainda assim, Maria Elisa tinha assaltos de vaidade, e sofria, lembrando-se que não podia indemnisar alguma vez as liberalidades que recebia de Rosa.
Quando se instalaram, senhoras suas, na casa do Laranjal, Elisa pensou no seu futuro, e lembrou-se que viria tempo em que Rosa trocaria por outros afetos os carinhos dela, e acharia pesado o encargo de sustentar com tantas regalias uma estranha.
Este reservado pensamento, que ela, eminentemente filosofa, sabia calar, dominou-a muito tempo, com bem pouco elogio para a sua idade e para o seu caráter.
Quando veio à sala zombar de Angelica não havia nessa caricatura de rapariga apaixonada intenção séria, nem podia havel-a.
Quando o senhor Antônio principiou a franca exposição dos seus sentimentos, que ele significava na melodiosa palavra «simpatia», Maria Elisa zombava ainda, e respondia com caretas às caretas de Rosa.
Quando, porém, o capitalista falou em luxo, em carruagens, em fidalgas, e, sobre tudo, na necessidade de deixar uma herança, que não queria deixar aos sobrinhos, a moça pobre lembrou-se das suas esperanças desvanecidas, e dos prognosticos da velha do recolhimento, que lançava as cartas.
E, portanto, Maria Elisa, a seu pesar, recahiu de repente na gravidade do assumpto, e ouviu as últimas palavras do ingenuo negociante, com a discrição, que o caso pedia.
Aqui o que temos a admirar, se alguma coisa vale a pena da admiração, é a filosofia tão saturada aos dezesseis anos!
A ideia filosófica, em uma mulher, começa aos vinte e cinco anos, e acaba aos quarenta e cinco. Até aos vinte e cinco, domina a poesia, dos quarenta e cinco para diante, se não domina a teologia, há de forçosamente dominar a toleima, que os vocabulários definem «tolice grande». Isto não é máxima, que valha as de Larochefoucauld; mas é, no seu tanto ou quanto, uma máxima que deve aproveitar a muita gente.
Maria Elisa, porém, fora demasiado temporã na razão da filosofia. Anticipou-se, é verdade; mas veremos que não abortou por vir cedo de mais. Os grandes pensamentos tem cinquenta anos de incubação nas entranhas da sociedade. Terão: não duvido nada; mas o maior pensamento, que se conhece, é o de Elisa em casar com o senhor Antônio, e vingou em cinquenta minutos.
As perguntas de Rosa mortificavam-na.
A ciumosa amiga custava-lhe a crer semelhante extravagancia; mas a importância grave que Maria Elisa estava dando às perguntas zombeteiras, que lhe eram feitas, agravou a desconfiança de sua amiga.
Por esquivar-se às impertinentes instancias da arrufada Rosa, a noiva, em perspectiva, refugiou-se nas chufas ao prometido esposo, e conseguiu dissuadir a amiga, que foi tão fácil em descrêr como tinha sido em irritar-se por um ciume extravagante.
Quando emprégo a palavra «ciume» não se persuadam que a filha do defuncto arcediago era rival de Elisa. Justiça lhe seja feita: D. Rosa era rival do senhor Antônio. Como estas coisas são, não me importa a mim sabê-lo. Há no coração de duas mulheres muito amigas puerilidades assim, segundo me consta.
Maria Elisa pensou na aventura toda a noite.
Para neutralisar a cúbica do luxo, e da independência, a ambiciosa pequena afigurava-se ligada ao senhor Antônio, carnal e positivamente como Deus o atirára a este mundo. Punha de parte o dinheiro, afastava o crepe dourado, para ver o cadáver em todo o horror das ulceras; mas o demônio tentador não lhe pintava uma coisa sem lhe pintar a outra. Pelo habito de imaginal-o familiarisou-se com ele, e já lhe não parecia tão repulsivo. E, se declinava os lindos olhos do homem para a opulência embrionaria no ouro dele, a filosófica menina via coisas lindissimas, e deslumbrava o coração esquivo com as liberalidades que a cabeça lhe prometia.
E, no mais caloroso do seu delírio, via um marido velho, e uma riqueza póstuma a gozar, e um coração, cheio de vida, a oferecer.
Foi esta a final conclusão dos seus raciocínios, que ela não deixou escritos em compendio para uso dos colégios de meninas; mas que, depois dela, temos visto que foram adoptados, e que fazem hoje as delicias das educandas. Os bons princípios têm isso consigo.
O dia seguinte correu sem novidade.
O outro foi um dia triste para ambas as meninas.
Elisa parece que se esquivava à sua amiga. Rosa ensaiou uma pergunta definitiva; mas não ousou proferil-a.
Ao terceiro dia, uma carta do senhor Antônio José da Silva foi causa de grandes dissabores. O conteúdo era assim:
«Senhora D. Maria Elisa.
Porto, 24 de abril de 1818.
_«Minha senhora do meu coração e da minha particular estima. Faz hoje três dias que falamos em certo negocio a respeito da nossa união. Muito desejava eu saber, para meu governo, se v. s. ª está resolvida a dar-me a sua mão de esposa. Estes negócios não devem demorar-se. Eu já lhe disse o que lhe tinha a dizer. Por motivos, que à vista lhe direi, estou deliberado a casar-me o mais breve. Soube que v. s. ª simpatizava comigo, e eu da minha parte não desgosto da sua pessoa. Por isso, se houver de se fazer este casamento, há de ser já, quando não com bem desgosto do meu coração procurarei outra que tenha as boas qualidades da menina. Peço-lhe que responda com brevidade. Mande no seu serviço este que é e será até à morte_
De v. s. ª
Attento venerador e criado obrigado,
Antônio José da Silva. »
Está conforme o original, excepto a gramática, a pontuação, e a ortografia.
Maria Elisa, não podendo iludir as instancias de Rosa, sem ler a carta, ralatou a seu modo o conteúdo. Vejam que a vaidade não a deixava já expor ao escárnio da sua amiga a redacção do capitalista! Por mais que a curiosa teimasse, não conseguiu julgar do coração do seu antigo amante pela eloquência da carta!
Perseguida, cansada de fingir, exhausta de pretextos, Elisa disse à sua companheira de dois anos:
— Eu amo-te muito, minha querida amiga. És a primeira e a única pessoa a quem consagrei a minha alma, e todos os instantes da minha existência, que não será longa, longe de ti; mas não posso contar com o teu apoio toda a vida. Preciso de ser independente, como tu és, para bem avaliar as tuas generosidades. A verdadeira e duradoira amizade firma-se na independência...
— Olha que me ultrajas, Elisa! Eu fiz-te nunca sentir a tua dependência?
— Fizeste.
— Fiz! isso é uma mentira, que me escandalisa!
— Fizeste com os teus carinhos. Quanto mais procuravas esconder aos meus próprios olhos os benefícios, que me fazias, mais os olhos do meu coração se abriam, para vêl-os, e mais devedora me considerava aos teus extremos. Quer Deus que eu seja o que não poderei ser de outra maneira. Serei rica. Não digo que seja feliz; porque a ventura não a dá o ouro, nem as lágrimas da saudade se enxugam com o dinheiro. Mas eu sou sempre a tua amiga. Serás sempre a minha confidente. Serão reciprocas as nossas casas, e as nossas riquezas. Viveremos tão juntas como até aqui. Terás, mais ditosa que eu, um marido da eleição da alma. Serás venturosa, com ele, e eu um dia... talvez... bem cedo... viúva, e rica... serei outra vez a tua irmã, debaixo das mesmas telhas...
— Isso nunca!
— Nunca!... porquê?...
— Nunca!... Quem me não amou até hoje, virá depois oferecer-me riquezas que despréso, e não preciso.
— Eu não virei oferecer-te riquezas, porque rica és tu. Virei outra vez atar o fio que se vai quebrar entre os nossos corações, se é que a separação de instantes é um laço de dois corações que se desata! Rosa, não chores, que me comprimes o seio... Dá-me a tua mão... não sentes que estas palpitações só tuas podem ser? Apraz-te martirisar a tua amiga?
— Impostora!
— Impostora, eu, Rosa, e tens alma de me dizer tal? Não sentes o remorso de tamanha ofensa?
— Não! És uma ingrata, que me trocas pelo dinheiro de um homem que eu despréso.
— Porque és rica.
— de um homem a quem chamavas os mais despresiveis nomes.
— Que hoje outra vez lhe dou.
— Então como podes tu sacrificar a tua vida a um ente abominável?
— Porque não tenciono sacrificar-me... O escravo há de ser ele.
— Não te entendo! O escravo há de ser ele!... de que modo?
— Obrigal-o-hei a servir os meus caprichos.
— Quais caprichos?
— Todos.
— Vais ser uma esposa infiel?
— Não.
— Vais ter carruagem, e vestidos ricos?
— Vou.
— E se te não der carruagem, nem vestidos?
— Há de dal-os.
— E se não der?
— Divorcio-me... metade da sua riqueza é minha.
— E queres dar escândalo?
— Escândalo é ser pobre. Vejo-te hoje muito moralista.
— E tu pareces-me filosofa de mais.
— Antes isso.
— Que maneira de responder!
— É como a tua de perguntar... Não nos zanguemos, Rosinha. Sejamos boas amigas. Aconselha-me que me case, que é a maior prova que podes dar-me da tua estima.
— Faz o que quiseres... és livre... Enganei-me contigo... creei uma víbora no meu seio.
— Isso é de uma novela que nós lêmos há dias. Nada de arrufos... Vamos cear?