Capítulo XIX
O NOIVADO
DRAMA EM UM ATO
PERSONAGENS
D. Maria Elisa de Sarmento e Athaide.
Antônio José da Silva.
D. Angelica Athanásia da Silva.
João Alves Rodrigues }
Manoel José Fernandes} Convidados.
Joaquim João Batista}
O Sr.. João Pereira, o do chinó.
Um encapotado.
A cena passa-se na rua das Flores, em casa do senhor Silva. Vista de sala decorada, segundo a época.
D. Maria Elisa, e seu marido estão sentados no canapé. À esquerda do senhor Antônio está sua irmã. Os convidados estão em frente do canapé, com as costas voltadas para nós.
O relógio de S. Domingos dá meio dia. Ouvem-se as regateiras que apregoam robalinhos na rua.
CENA I
O SENHOR ANTÔNIO
(batendo na respectiva perna)
Meus amigos, mal diriam vmc. es que eu viesse por fim de contas a casar! Ninguém diga desta água não beberei! Um homem, enquanto anda neste mundo, não sabe para que veio...
O SENHOR FERNANDES
(à parte)
Ela to dirá...
O SENHOR ANTÔNIO
Eu não tinha, até há pouco, na cabeça... (sensação nos espectadores enquanto o orador se assôa) não tinha na cabeça a ideia de me casar, porque, emfim, os tempos não vão muito bons para alguns maridos que eu conheço... O nosso vizinho João Pereira, do chinó, que o diga...
D. MARIA ELISA
Que história é essa do João Pereira, em que o senhor Silva já me falou de passagem duas vezes?
D. ANGELICA
Ora o que há de ser? Os nossos pecados, cunhada... É uma mulher que o demônio tentou, Deus me perdoe, se peco... Não gosto de murmurar... É mesmo uma vergonha... Está vestida e calçada no inferno...
D. MARIA ELISA
Quem? Não compreendo...
D. ANGELICA
Quem há de ser? Ela, a birbantona, que deu a mão de esposa a um, e anda por aí sempre... como se diz, Antônio?
O SENHOR ANTÔNIO
Como se diz o quê?
D. ANGELICA
Como é que dizem os prégadores desse pecado?
O SENHOR ANTÔNIO
Não são os prégadores, é o nono mandamento.
D. ANGELICA
Pois sim; mas os prégadores chamam a essas mulheres... indultas... adultas, ou não sei que...
O SENHOR FERNANDES
Adulteras?
D. ANGELICA
Isso mesmo... Eu uma coisa assim nunca vi na minha vida!... Em nome do Padre, e do Filho, e do Espirito Santo... Assim que vê um homem na rua a olhar para ela, às duas por três, faz-lhe gaifonas com a gata...
D. MARIA ELISA
Com a gata?
D. ANGELICA
(remedando com a manga do capote de castorina amelada)
Põe-se assim com a gata no colo a bulir-lhe na cabeça...
D. MARIA ELISA
E isso que quer dizer?
D. ANGELICA
Eu sei cá? é o pecado... Acho que a gata lá tem coisa de feitiçaria, porque os homens ficam de boca aberta para ela!
O SENHOR FERNANDES
Acho que não é para a gata...
O SENHOR BATISTA
Eu também sou da mesma opinião... A gata não é má...
O SENHOR RODRIGUES
O pior é o gato, que a gata boa é, que caça ratos...
D. MARIA ELISA
(à parte)
Que cacafonias! que a gata! que caça! ... Apre, que são muito alarves!
O SENHOR ANTÔNIO
Deixemos lá isso... ela lá sabe o que faz, e cada qual guarde bem a sua cabeça do mau pensamento de casar-se com doudas... Eu bem lho disse a ele... «Olha que essa mulher não te serve... tem má pinta, e não sei, mas há de te dar que fazer... »
CENA II
OS MESMOS E O SENHOR JOÃO PEREIRA
O SENHOR PEREIRA
(entrando, sem pedir licença)
Deus aqui, e o diabo em casa dos frades...
D. ANGELICA
(à parte)
Olha o inimigo!... quem o chamou cá?!
O SENHOR ANTÔNIO
Ora viva o meu amigo e vizinho! Esteja bom, passasse muito bem, é o que eu mais estimo. Puxe cadeira e sente-se, sem cerimônia.
O SENHOR PEREIRA
A bôda e a batizado, diz lá o outro, não vás sem ser convidado. Eu não estive pelas contas. Somos vizinhos há cinquenta e dois anos, e rapazes da mesma criação. Cá entre nós não há ceremonias. Vim dar os parabéns ao meu amigo e senhor Antônio, e ver-lhe a sua noiva, que enquanto a mim é esta menina...
D. MARIA ELISA
Uma sua criada.
O SENHOR PEREIRA
Criada dos anjos. Pois, minha vizinha, a minha casa é logo adiante desta; metem-se duas portas de permeio; se precisar de alguma coisa, de mim ou da minha companheira, não tem mais que mandar.
D. MARIA ELISA
Muito agradecida ao seu favor... Queira sentar-se.
O SENHOR PEREIRA
Estou bem assim: farto de estar sentado estou eu atrás do mostrador. Com que sim, senhor Antônio, está vmc. e cá no rol dos homens de bem...
O SENHOR ANTÔNIO
(com intenção)
É verdade... cá estou no rol dos homens de bem...
O SENHOR PEREIRA
Fez vmc. e o que devia. Não há vida melhor que a de casado. Eu cá de mim não tenho razão de queixa. Estou casado há dez anos, três meses, e vinte e quatro dias, e, graças a Deus, não tive ainda um desgosto!
O SENHOR FERNANDES
(à parte)
Este é dos tais que o sabem no fim.
O SENHOR PEREIRA
A minha santa companheira é propriamente uma mulher de casa, e minha amiga, que é mesmo uma coisa! Lá por eu ter mais vinte anos que ela, isso não tira, nem põe. Não é como algumas cá da nossa rua... nós bem sabemos quem elas são...
O SENHOR FERNANDES
(à parte)
Eu só conheço a dele...
O SENHOR PEREIRA
Lá porque os maridos não andam espartilhados a dar, com licença... nas canelas com as abas da casaca, gostam mais de peralvilhos!...
Arreda com elas! Eu, se tivesse assim uma, eu não seja João, se lhe não arrebentasse a própria barriga!... A minha Marcellina é uma rapariga, que, se me vir aflito, vem prantar-se ao pé de mim, e não sai dali sem que eu lhe diga que estou bom. Quando me caiu o cabelo foi ela que me pôs este chinó na cabeça, e por aí os tratantes meteram-me sonetos ao chinó por debaixo da porta! Valha-os o diabo!...
D. ANGELICA
Credo! Anjo bento! vmc. e fala tantas vezes no inimigo! Não diga essa palavra que faz arripios no costado!
O SENHOR PEREIRA
Aí está a nossa beata com as suas escrupulisações. A gente não sabe como há de falar diante de vmc. e A minha Marcellina, às duas por três, é diabo para aqui, diabo para acolá; e, se eu lhe digo que não é bom chamar quem está manso e quedo, ela diz que o diabo se chama diabo!...
D. ANGELICA
(persignando-se)
Santo breve da marca! Cale-se lá com essas blasfêmias! Sua mulher, se tivesse juízo, não dizia isso!... Se vmc. e lhe desse com o covado pela rabada, ela se calaria...
D. MARIA ELISA
(à parte)
São indecentes!... Se algum futuro autor de novelas quisesse descrever fielmente esta cena, teria de ser indecente como eles! Tomara-me eu sozinha!
O SENHOR ANTÔNIO
Em que pensas tu, Mariquinhas?
D. MARIA ELISA
Ah!... eu?... não pensava em nada...
O SENHOR ANTÔNIO
A modo que estás triste! Aposto que estás a pensar lá nessas coisas dos astros?
D. MARIA ELISA
Dos astros? não... pensava... na minha sorte... (com ironia) que é realmente invejável. Estou satisfeitíssima da deleitosa conversação destes senhores, que são sobremaneira recreativos.
OS SENHORES BATISTA E RODRIGUES
Pela parte que me toca... muito obrigado...
O SENHOR FERNANDES
(à parte)
Pobre mulher!... e pobre homem!...
O SENHOR ANTÔNIO
Então, Fernandes, estás aí tão calado!...
O SENHOR FERNANDES
Que quer que eu lhe diga?
O SENHOR ANTÔNIO
Quando te casas?
O SENHOR FERNANDES
Quando tiver mulher. Ainda não é tarde.
O SENHOR ANTÔNIO
Isso não; mas o casamento faz arranjo... Ela tem cinquenta e quatro, mas olha que é um ano para cada conto; e tu tens os teus trinta e seis, mas cá, segundo os meus cálculos, por morte de teu pai não tens nem trinta e seis moedas, porque ele é um gastador, e deixa-te viver lá metido no quarto a ler o Carlos Magno, sem te importares do negocio... Teu pai parece-me que não virá... vai-se demorando.
O SENHOR FERNANDES
Já lhe disse que o meu pai pede desculpa de não vir, porque se sente incomodado da gota... Eu vim da sua parte dar ao senhor Antônio os parabéns, e comprimentar a sua esposa a quem desejamos, tanto eu como ele, largos anos de felicidade.
D. MARIA ELISA
Muito agradecida! (à parte) Este fala melhor que os outros...
O SENHOR ANTÔNIO
Tu sabes fazer a preceito esses discursos! Sempre é bom a gente ler o Carlos Magno... Eu era pequeno quando o li, e ainda me lembra esta passagem da formosa Floripes a Roldão: «Senhor par de França! Os vossos olhos são dois sóes que derramam raios que matam como os lampejos da vossa durindana. Senhor cavalheiro, eu vos digo que o vosso afeto é mais doce que o mel, e mais abrazador que as ardentes fragas. »
O SENHOR FERNANDES
(sorrindo)
Essas fragas deviam de ser boas para assar bacalhau.
D. MARIA ELISA
(sorrindo)
De certo...
O SENHOR ANTÔNIO
E outras muitas coisas que me não lembram agora.
O SENHOR FERNANDES
(com ar sarcástico)
É pena que vmc. e se esqueça dos bocadinhos de ouro do Carlos Magno!
O SENHOR ANTÔNIO
Ora diz lá tu algumas passagens...
O SENHOR FERNANDES
É impossível, porque nunca li o Carlos Magno; mas, à falta dessa preciosidade literária, posso dizer outra qualquer passagem bonita.
O SENHOR ANTÔNIO
A apostar que tu não sabes ortografia?
O SENHOR FERNANDES
(sorrindo)
Nada, não sei.
O SENHOR ANTÔNIO
Pois então diz ali a minha mulher que ta ensine...
O SENHOR FERNANDES
Far-me-ia muito particular favor.
D. MARIA ELISA
Eu?!
O SENHOR ANTÔNIO
Sim, tu, Mariquinhas. Ensina-lhe aquelas coisas que fazem com que a gente não caia quando a terra anda de redor.
O SENHOR FERNANDES
E é isso que se chama ortografia?
O SENHOR ANTÔNIO
(meio irritado)
É, sim, senhor. Olha lá se queres saber mais dessas coisas que minha mulher!
O SENHOR FERNANDES
Deus me livre disso... (sorrindo a Maria Elisa que abaixa, envergonhada, o rosto) Eu nem sequer sei escrever com astronomia, como hei de saber essas leis com que se regem os astros!...
O SENHOR ANTÔNIO
Chama-se lei de atrição... Não te rias... é o que te digo, e, senão, ouve: ó Maricas, como se chama isto que nos faz estar de pé, assim direitos? (erguendo-se. )
D. MARIA ELISA
Salvo erro, creio que são as pernas.
O SENHOR ANTÔNIO
(seriamente)
Isso é verdade; mas, se a terra andasse à roda, a gente caía para o lado...
O SENHOR FERNANDES
Não é forçoso que caia para o lado; pode cair para traz, ou para diante. (Maria Elisa ri-se. )
O SENHOR ANTÔNIO
Também não vou contra isso; mas minha mulher sabe de uma coisa que faz com que a gente não caia, porque todos os corpos saem do centro da terra... Olha ela a rir-se! Então enganavas-me, cachorra?... Ah ruimzinha!... (puxando-lhe uma orelha. )
O SENHOR FERNANDES
Sua senhora tem razão... Os corpos, não digo que saiam do centro da terra, mas tendem para lá; e esta tendencia faz que não possam, embora a terra se mova, cair no espaço.
O SENHOR ANTÔNIO
Tu não sabes dessas coisas...
O SENHOR PEREIRA, do chinó
Os diabos me levem se eu sei o que vocês estão a dizer!
D. ANGELICA
S. Bento! Ele aí torna com o berzabum do inimigo às voltas! Não se pode estar ao pé de vmc. e!... Credo!
O SENHOR PEREIRA
Ó mulher! deixe falar a gente!... Eu queria saber como é lá isso de andar o mundo ao redor como se fosse uma bola! Esta gente moderna sempre diz coisas! Eu nunca tal ouvi aos velhos! Já a minha Marcellina se mete também a falar dessas coisas lá dos livros com o doutor Miranda, e, pelos modos, a rapariga não é tola de todo. Agora anda ela a congeminar nos planetas, e levanta-se algumas vezes de noite, e vem à janela...
O SENHOR FERNANDES
Observar os astros?
O SR.. PEREIRA
Acho que sim! A mulher lá tem aquela pancada na mola, e eu deixo-a estudar a natureza, como ela diz...
O SENHOR FERNANDES
Isso é justo. Não me sabe dizer que planeta estuda sua mulher?
O SENHOR PEREIRA
Acho que é o sete-estrelo.
O SENHOR FERNANDES
Ah! sim? E que diz ela a respeito desse «planeta? »
O SENHOR PEREIRA
Eu sei cá o que ela diz? Está ali à janela duas horas a olhar lá para cima, e quando se deita está fria de neve. Eu já lhe disse: ó mulher! deixa lá essas coisas celestes aos homens que sabem da póda! Tanto faz como nada; ela diz-me não sei que da abobada, e das mariadas de estrelas... Apostar que o senhor Fernandes não sabe que há uma estrela chamada vespa, e outra saturnea?
O SENHOR FERNANDES
Nada, não sabia, mas ainda venho a tempo de saber. Sua senhora é que lhe ensina essas coisas?
O SENHOR PEREIRA
E muitas outras, que me esquecem, porque não tenho as memorias afeitas a esses nomes ingleses e gregos. Se vmc. e quiser ver o que é uma cabecinha há de falar com minha mulher...
O SENHOR FERNANDES
Estou convencido... não é preciso mais nada... Vejo que sua senhora estuda perfeitamente a natureza, e compensa bem a pena deitar-se fria de neve, quando a inteligência vai quente do fogo da ciência. Não concorda, senhora D. Elisa?
D. MARIA ELISA
Eu?!... não sei se...
O SENHOR FERNANDES
Pois não é da minha opinião?
D. ANGELICA
(rabugenta)
Não é, não, senhor! Qual natureza, nem meia natureza! Uma mulher não se deve meter lá nessas trampolinices! Do que ela deve tratar é de governar a sua casa, de tratar do seu marido, e dos seus filhos, e de encomendar a sua alminha a Deus. Nossa Senhora era a própria mãe de Deus, e não sabia lá das ciências, nem dos planetas! Uma mulher honrada não vai de noite ver à janela o sete-estrelo, nem a vespa, ou o bisouro... mau bisouro é o demônio... Deus me perdoe...
O SENHOR PEREIRA
(pundonoroso)
Com que vmc. e, lá porque não tem cabeça para estas coisas, quer que as outras sejam tapadas como vmc. e? Não é má esta! Cada qual trata de si, e Deus de todos. Minha mulher gosta de estudar a natureza, e vmc. e gosta de rezar novenas. Quem vai contra isso?
D. ANGELICA
E ela porque não resa novenas? Acha que lhe não são precisas? Pois olhe que... eu já vi quem precisasse de rezar menos... Melhor lhe fora governar a sua casa, e remendar a sua roupa, e não deixar ir tudo como vai de portas a dentro...
O SENHOR PEREIRA
Sabe que mais? trate cá do que lhe pertence, e deixe as outras! Vmc. e é muito murmuradeira...
D. ANGELICA
Eu! murmuradeira!... Ó meu Menino Jesus! inda mais ouvirei! Ó Antônio, já viste uma coisa assim?
O SENHOR ANTÔNIO
Está bom... calem-se lá com essas questões. Cada qual vive como o seu gênio lhe pede; mas olha cá, vizinho, eu sempre fui teu amigo, e não tenho papas na língua, quando é necessário. Cá a minha opinião é que não deves deixar vir tua mulher para a janela de noite...
O SENHOR FERNANDES
(com ironia)
Porque se pode constipar...
O SENHOR ANTÔNIO
Não é isso... é que das más línguas ninguém se livra... Se quer estudar a natureza, ou lá o sete-estrelo, ou o que é como se chama, que o faça de dia.
O SENHOR PEREIRA
Tu és tolo, Antônio! Pois os planetas aparecem lá de dia?! Já vejo que não te chama Deus para este caminho!...
O SENHOR FERNANDES
O senhor João Pereira tem razão. De dia não se descobrem planetas. O padre Teodoro de Almeida, que escreveu muito sobre os astros, diz-me meu pai que o vira muitas noites na trapeira dos Congregados a contemplar a natureza.
O SENHOR PEREIRA
Vmc. e é que sabe responder, senhor Fernandes... E, de mais disso, eu estou muito contente com minha mulher. Antes quero que ela se entretenha com os planetas lá de cima, do que com certos planetas que andam por aí a olhar para as janelas, e que não são das melhores coisas para viver em paz cada qual com a sua mulher. Eu não tenho até hoje razão de queixa; oxalá que tua mulher te dê a boa vida que a minha me tem dado...
O SENHOR ANTÔNIO
(enfurecido)
Isso agora!... salvo tal logar!...
D. ANGELICA
Longe vá o agouro, e mais não diga a boca que tal diz...
O SENHOR ANTÔNIO
(para os circunstantes)
Que lhes parece esta?! (para ele) Meu amigo, sabes que mais?... Vai muito de cá a lá...
D. ANGELICA
Ó menina, Deus a livre de tal... Minha querida nossa Senhora dos Remedios, não permitais que tal aconteça...
O SENHOR PEREIRA
(formalisado)
Que diabo dizem aí? Se eu os percebo, sêbo! Parece que já jantaram! — Pois minha mulher... sim, pergunto eu... minha mulher... se faz favor de me dizer... com que então a minha Marcellina... digam para aí o que sabem, línguas damnadas!... Eu queria saber o que vem a ser estas benzedelas da nossa sanctinha, e lá esses arrufos teus, Antônio!...
O SENHOR FERNANDES
Não se irrite, senhor Pereira, que não tem razão. Vmc. e entendeu mal os reparos da senhora D. Angelica e seu irmão. É porque o senhor Antônio não quer que sua senhora se constipe no estudo da natureza...
O SENHOR PEREIRA
Isso agora é outra coisa... Cada qual tem o seu gênio; mas vir cá dizer-me que vai muito de cá a lá, isso tem que se lhe diga. Tanto é a minha Marcellina como a tua companheira. Somos todos do negocio, e deixemo-nos de fidalguias, porque todos nos conhecemos. E quem for mais rico, coma duas vezes, mas não desdenhe dos outros. O que eu queria dizer-te a respeito da conducta das mulheres é que sou teu amigo, e que oxalá a tua mulher seja como tem sido a minha.
O SENHOR ANTÔNIO
(desesperado; com as belfas tremulas)
Isso é que eu não quero!... já te disse que não quero e que não há de ser!...
D. ANGELICA
E ele a dar-lhe! má mês para ele!... Valha-o uma figa! Não faça caso, cunhada...
D. MARIA ELISA
Eu sinceramente lhes digo que não sei o motivo desta disputa! Se me não engano, a esposa do senhor Pereira tem vocação para a astronomia. É louvável esse gosto da ciência. São raras as senhoras que se dedicam ao trabalhoso estudo da natureza...
O SENHOR PEREIRA
(interrompendo)
É como diz, e viva quem sabe falar!
D. MARIA ELISA
O senhor Antônio José da Silva diz que...
O SENHOR ANTÔNIO
Ó Mariquinhas, é melhor dizeres meu marido.
D. MARIA ELISA
Meu marido diz que não quer que eu imite a senhora D. Marcellina.
O SENHOR ANTÔNIO
Não quero, é tal e qual o que eu disse. Minha mulher entendeu-me logo.
D. MARIA ELISA
Pois bem, eu não a imitarei; não me levantarei de noite a observar a atmosfera, porque realmente não quero ser mártir da ciência. deste modo, está acabada a questão. O senhor Pereira consentirá, porque assim lhe apraz, que sua senhora se levante para os seus estudos; e meu marido usará do direito, que eu lhe concedo, de me privar que eu estude os astros de noite.
O SENHOR PEREIRA
Falou bem como quem é; parece mesmo a minha Marcellina que sabe dizer coisas que é mesmo da gente ficar encantado; mas eu tenho a dizer que cá quanto ao que eu quis dizer, a minha birra é que se a senhora D. Mariquinhas for honrada como a minha Marcellina, não precisa ser mais.
O SENHOR ANTÔNIO
És teimoso como um jumento! Já te disse que a minha mulher tem outros brios, e que sabe as obrigações de mulher casada!
D. ANGELICA
E não há de dar que falar como algumas... emfim... cada qual meta a mão na sua consciência...
O SENHOR PEREIRA
(solene)
Que quer dizer isso? Então vmc. e acha que minha mulher... Ora tenha juízo, que já é bem tempo de perder o sestro da má língua... destas beatas... Deus me livre delas...
D. ANGELICA
(aguçando o queixo inferior)
Vmc. e está mesmo a inquietar a gente... Olhe que eu!... não me puxe pela língua, que eu não sou boa...
O SENHOR PEREIRA
Isso sei eu... que vmc. e é levadinha de todos os diabos... diga-m'o a mim...
D. ANGELICA
(enfurecida)
Sabe que mais? ninguém o cá chamou... Deixe-nos em paz...
O SENHOR PEREIRA
Vmc. e é muito mal criada... O que merecia... sei eu...
O SENHOR ANTÔNIO
Está bom, Angelica! cala-te, João Pereira!... Se não estás bem, vai-te embora; eu não te chamei cá...
O SENHOR PEREIRA
O asno sou eu em vir cá fazer de homem que sabe a cortesia quando é preciso. Olha, meu amigo, enquanto tiveres cá em casa esta senhora Angelica, não hás de ter amigo nenhum...
D. ANGELICA
Vá importar-se lá com a que tem em casa, que não tem pouco que guardar.
O SENHOR PEREIRA
A que eu lá tenho em casa tem mais honra nos calcanhares, que vmc. e na cara. O que vmc. e queria era que eu casasse consigo, quando casei com ela. Como eu não estive para isso, vinga-se a falar mal de minha mulher.
D. ANGELICA
Olha o bezuntão!... Eu quis lá nunca casar com ele!...
O SENHOR ANTÔNIO
Accommodem-se!
D. ANGELICA
Sevandija! Más maleitas te colham!
O SENHOR ANTÔNIO
Angelica, tapa a boca.
D. ANGELICA
Não quero!... Pois este desavergonhado não diz que eu quis casar com ele! Mariola! Sempre é bem coitadinho!...
O SENHOR PEREIRA
de uma pandorca assim não há nada a estranhar. Eu tenho vergonha, sua truquilheira, quando não havia dizer aqui quem vmc. e é...
O SENHOR ANTÔNIO
Quem manda aqui sou eu! Já daqui para fora, João Pereira!
(_João Pereira, irritado como Ajax, leva as mãos indignadas à cabeça e maquinalmente desloca o chinó. Ouvem-se fungadelas de sorrisos, que exacerbam a cólera do calvo que se retira. Angelica tem o queixo numa atitude perfurante. O senhor Antônio transpira na abundancia do costume. À luta sucede um profundo silencio, quebrado apenas pelos gemidos convulsos da beata ofendida na sua isempção de setenta anos. _)
CENA ÚLTIMA
OS MESMOS E UM ENCAPOTADO
ENCAPOTADO
(no limiar da porta que comunica para o interior)
Senhora Angelica!
D. ANGELICA
Que queres tu, rapaz?
O SENHOR ANTÔNIO
Pois tu levantaste-te da cama a tremer maleitas, Joaquim? (para Maria Elisa) Aquele é o rapaz da loja que tem maleitas.
D. ANGELICA
Que queres tu?
O ENCAPOTADO
Eu estava a tremer as maleitas, e ouvi um grande restolho debaixo da cama.
D. ANGELICA
Credo! que seria?
O ENCAPOTADO
Resei o credo em cruz, e fui ver o que era...
D. ANGELICA
E que viste?!
O ENCAPOTADO
Era a gata que comia uma galinha assada, que trago aqui, menos o pescoço que lho tinha ela já comido.
(_O encapotado afasta as bandas do capote, e mostra a galinha efetivamente degolada!... A senhora Angelica recebe a vítima da gata, e pede a seu irmão poderes discricionários para vingar a afronta. _)
UMA VOZ
Está o jantar na mesa.