Capítulo XXVIII
Augusto Leite quando chegou à Barca do Lago ia a pé. O cavalo caíra rebentado, e o cavaleiro desviou-se da estrada para curar os ferimentos que recebera na cabeça. Não lhe era difícil viver seguro em casa de um lavrador, que foi largamente indemnisado do hospitaleiro acolhimento que deu ao passageiro, que, segundo ele, tinha cara de pessoa de bem. Vendeu-lhe a sua égua, encaminhou-o por atalhos seguros da vigilância dos aguazis, e levou-o à fronteira de Espanha, curado das feridas, e salvo de encontros importunos. Aí, foi fácil ao foragido comprar um passaporte, que o levou a Madrid com o pseudônimo de D. Fernando Godinho Pereira Forjaz.
Chegado a Madrid, cortou as barbas, vestiu-se de trajes sérios, apresentou-se como viajante, relacionou-se com a facilidade habitual em Espanha, e entrou como português distincto nas primeiras casas da capital. Encontrou aí fidalgos portugueses, que o não conheciam; mas respeitavam-no pelos apelidos, e não se recusavam a chamar-lhe primo, visto que os Pereiras Forjazes eram ramificação do heráldico tronco dos condes da Feira.
Augusto Leite jogou, e augmentou consideravelmente os seus haveres. Em alguns meses alcançara uma publicidade que lhe não convinha. O seu nome era repetido de mais nos salões. As suas conquistas amorosas excitavam invejas e reservas vingativas que poderiam perdel-o. Augusto resolveu abandonar Espanha, e procurar na sociedade mais ampla de Paris viver bem, sem excitar curiosidades funestas.
Em Paris deu-se como espanhol, e era conhecido por D. Afonso Vilhegas. Falava correntemente o espanhol, associára-se a uma partida de jogadores da sua pátria adoptiva, e engrandecera o seu pecúlio, que já subia a vinte contos de reis. O dinheiro de Maria Elisa fora abençoado!
Não tivera, até então, alguma noticia de sua mulher. Não lhe convinha solicital-a, porque podia ser descoberta a sua residência. O coração também lha não pedia.
Passeava uma tarde nos boulevards, e viu um homem, que lhe não era de todo estranho, e reparava muito nele. Perguntou-lhe, em francês, se era espanhol.
— Sou português — respondeu o cavalheiro.
— Estimo muito... Eu gosto dos portugueses. Viajei alguns meses na sua terra, e simpathisei com as mulheres, que são quase todas gordas e vermelhas. Eu gosto muito das mulheres vermelhas e gordas.
— Tem razão... mas, pela pronuncia, parece-me espanhol, e as mulheres da Espanha não são inferiores às de Portugal. Não tem razão de invejar a minha pátria... Que cidades conhece em Portugal?
— Conheço as que lá há que mereçam esse nome... Lisboa e Porto.
— Esteve no Porto? É uma bonita cidade, não é?
— É muito interessante. A gente de dia faz horas para se deitar ao escurecer. Não há nada melhor. Come-se e dorme-se com a mais perfeita tranquilidade de espirito. E na semana santa vêem-se as mulheres, quando passam as procissões.
— Conheceu alguma no Porto?
— Apenas uma. Como fui recomendado a um negociante chamado Antônio José da Silva, tive ocasião de ver de passagem uma bonita rapariga, que falava em estilo de Corneille.
— Pois conheceu essa senhora?!
— Perfeitamente. Que é feito dela? É feliz?
— Penso que não. A sua fortuna está perdida. É por causa dela que eu vim a França.
— Sim? é notável a coincidência!... Pois senhor, veja se eu posso servir-lhe de alguma coisa com o meu pouco valimento... Que desastre foi esse! O tal negociante passava por ser um homem rico...
— E era. O negociante morreu há dez meses. A viúva liquidou a sua fortuna, que valia bem duzentos mil cruzados. Entrou com ela em uma casa comercial francesa, que tinha representantes em Lisboa. Esta casa acaba de falir, e o dinheiro de Maria Elisa está perdido, segundo creio.
— Coitada...! fica pobre por consequência...
— Pobrissima...
— E tem filhos?
— Não, senhor.
— Nem família?
— Tem em sua companhia uma amiga e a filha dessa desgraçada senhora, que também foi rica, e está reduzida a nada...
— Também tinha os seus bens de fortuna na casa comercial que faliu?
— Não, senhor... foi o marido que a reduziu a esse estado deplorável...
— Pobres senhoras!... Estou-me interessando em que não sejam tão infelizes como o senhor as pinta...
— Pois não digo metade das desgraças que as esperam.
— E o marido dessa amiga da viúva... naturalmente é um perdido que lhes não pode valer de nada?...
— Esse homem morreu... ou há todas as probabilidades para o julgar morto... Parece que o mataram, quando o prendiam por ladrão...
— Era ladrão? Oh diabo! então foi bem feito matarem-no!
— Roubara em Lisboa uns brilhantes que vendera a um judeu. O judeu perseguiu-o, e quando soube que sua mulher possuía algumas propriedades, de que fruia os rendimentos, provou o roubo, e penhorou-lh'as todas... A viúva do negociante, que o senhor conheceu, não lhe dava tempo a cismar nos seus infortúnios; mas agora a situação de ambas é desgraçadamente igual.
— E o seu procedimento?
— O mais exemplar. Maria Elisa vai retirar-se a um convento, e é natural que a outra viúva a acompanhe.
— Então o senhor que veio fazer a Paris?
— Vim tentar o último esforço; mas inutilisei despesas e trabalho. Pedi que se indemnisasse a viúva da massa falida; mas o tribunal do comércio não deferiu ao meu requerimento.
— Quando parte o senhor para o Porto?
— Amanhã deixo Paris, e vou embarcar a Toulon.
— Pode ser portador de uma encomenda para a viúva de Antônio José da Silva?
— Com muito boa vontade.
— Tenha a bondade de acompanhar-me.
Augusto Leite subiu ao hotel, onde residia, enquanto o procurador de D. Maria Elisa o esperava. Demorou-se alguns minutos, e entraram juntos em uma casa comercial inglesa. Sacou uma ordem de mil e quinhentas libras sobre o Porto, entregues à ordem de D. Maria Elisa, e entregou-a com uma carta ao procurador, acrescentando:
— Diga a essa senhora, que não desça da sua dignidade, nem abandone as pessoas que levantou da miséria. Eu terei cuidado de velar pela sua sorte.
O procurador, aturdido como é natural, desejou naquele momento vencer como num vôo de espirito a distancia, que o separava de Maria Elisa. Aventurou algumas perguntas ao generoso espanhol; mas não conseguiu elucidar-se mais do que tinha sido.
Augusto Leite entrou no seu quarto, e disse à sua imagem representada no espelho: «Meu amigo, quando te vi, há oito meses, rir de contentamento no espelho de Maria Elisa, tinhas um riso bem diferente desse que te vejo agora. Acredito que o prazer de uma boa ação é o único prazer sem mistura de dor. É a primeira ação boa que praticas, meu caro Augusto! Se te habituasses a ser honrado assim muitas vezes, naturalmente cahias desamparado na rua. Esconde agora a face da honra, e faz uso da outra, porque uma só cara não presta para nada. Visto que tomas a teu cargo aquelas mulheres, precisas de ser pessoa de bem uma vez cada ano. A virtude, nos homens da tua fortuna, deve ser como os intervalos lúcidos da loucura. Se vais dizer à sociedade que te dê os meios para sustentares tua pobre mulher e tua filha, a sociedade manda-te trabalhar. Pois então, D. Afonso Vilhegas, trabalha antes que ela te mande. Dos trabalhos procura o mais rendoso. Como não tens grande força muscular, faz que o teu ofício esteja mais dependente do espirito. »
Este dialogo, com o seu único amigo, foi interrompido por uma personagem, que apeára de uma sege e mandara adiante o seu nome: era o visconde de Bellarmin.
— Meu caro visconde, vieste encontrar-me a conversar comigo.
— É necessário que te retires de Paris imediatamente.
— Porquê?
— O governo suspeita que tu és um enviado do partido monachal de Espanha, que combinas com o de França uma reação. Há ordem de prisão para ti.
— Não julguei que era uma pessoa tão importante. Tenho gloria de ser prêso como homem temível a duas nações. Ainda agora me lembro que posso ser um grande homem. Quem sabe se me está reservada a corôa de Fernando VII!
— Não zombes, Vilhegas... Foge, quanto antes, de Paris. Aqui tens passaporte para Portugal.
— Não vou para Portugal. Alcança-me um passaporte para Espanha, e perdoo-te as mil libras que ontem perdeste. Olha lá... Dou-te outras mil se dizes no passaporte, que eu sou um missionário espanhol, que volto do Japão. Aceitas?
— Aceito... Vou buscar-t'o. Mas tu não tens cara de missionário.
— Eu respondo pela cara, e, se não, sabes quem venda uma? Os vossos ministros devem ter algumas disponiveis!... Vês como eu já vou pendendo para a linguagem dos estadistas?... Nunca me lembrou, que podia ser o grande homem, que vou ser!... Onde quer está um Napoleão incubado!... Avia-te...
Duas horas depois, Augusto Leite, com uma pequena trouxa, um habito franciscano, a face amarelecida por não sabemos que tinturas finissimas, caminhava a pé para um porto de mar, onde devia embarcar para Cádiz.
Vai-se tornando interessante o romance. Já era tempo!
O frade franciscano Benito das Cinco Chagas, dias depois, desembarcava em Cádiz, onde as cortes se refugiaram com Fernando VII, que estava prêso, a pretexto de demência, por não ter sancionado a constituição.
Augusto Leite apresentou-se nos congressos monachaes, e ofereceu, como fanático pelas prerogativas reais, e inimigo encarniçado da França, o seu apoio, e o seu braço, sendo necessário.
Tal fora a sua entusiasta eloquência, que os chefes da reação, sem discutirem a pessoa, abraçaram-no, victoriaram-no, e confiaram-lhe o segredo dos seus planos, aclamando-o unanimemente seu secretario.
Era necessário falar ao rei, que os liberais retinham com sentinela à vista. Empresa dificílima! Foi pedido o parecer do frade missionário, em quem os fanáticos reconheciam o providencial redemptor de Espanha. Antes que ele abrisse a boca, já todos sabiam que a sua palavra seria a salvação, e as suas ordens imediatamente executadas.
Augusto entrou no congresso, envolto no seu habito. Não respiravam os circunstantes. Fixavam-se todos os olhos nos lábios do moço frade, quando ele, antes de pronunciar uma palavra, deixou cair o habito, e deixou ver um fardamento completo de general francês.
As escarlates fisionomias dos conspiradores empalideceram, murmurando um prolongado ah!
— Não me julguem algum magico — disse Augusto Leite, sorrindo bondosamente. — Sou um frade, que renega por momentos o seu habito, para vestil-o um dia, com a consciência de ter servido a Espanha, fortalecendo-lhe a sua independência, e defendendo-a das impias aggressões da França. É necessário falar a Fernando VII. Eu irei apresentar-me às cortes, e direi que sou um enviado do duque de Angouleme, que, a estas horas, bate às portas de Madrid. Direi que o meu fim é capacitar o rei a aceitar a constituição, e serei conduzido pelos interessados ao pé do monarca.
— E depois? — exclamaram algumas vozes.
— Depois da minha conferencia a sós com o rei, retirar-me-hei dizendo às cortes que Fernando VII está doudo, e não concebeu as minhas razões. As cortes, que por força precisam que o seu rei seja doudo, reputar-me-hão de uma inteligência muito fina, ou de uma astucia tão cavilosa como a sua. Fernando VII, uma hora depois que eu me retire, dirá ao seu medico que sente uma forte dor de cabeça; duas horas depois sentirá uma convulsão, e cahirá...
— Morto?!
— Aparentemente morto. O medico virá dizer às cortes que o rei morreu de uma apoplexia fulminante. Far-se-hão os funerais. O cadáver será transportado para o palácio municipal. Três horas depois que o julgarem morto, o rei resuscitará, e, à frente do exercito fiel, dirá: «A Providência restituiu ao povo espanhol o seu monarca! »
Os venerandos frades sacudiram a cabeça em ar de pasmo. A alguns afigurou-se-lhes que o seu irmão era o próprio diabo, que vestira o habito do seráfico S. Francisco, sobre a farda de jacobino, que ele era, desde que o Senhor o expulsou do céu. Os mais circumspectos, encarando-o com o respeito da superstição, por isso que o reputavam embaixador de um poder sobrenatural, não ousaram interrompel-o no extenso discurso, que não publicamos na sua integra, porque na sala do conciliábulo não estiveram tachigrafos, que nos transmitissem o discurso completo.
O que sabemos é que Augusto Leite nesse dia apresentou-se às cortes, pedindo consentimento para falar ao rei como enviado do duque de Angouleme, comandante do exercito francês.
Perguntado pelos meios que empregára para chegar desconhecido até Cádiz, respondeu que embarcára num porto da França, com passaporte que apresentou, passado a frei Benito das Cinco Chagas. As cortes acreditaram o enviado, e permitiram-lhe a entrada no carcere de Fernando VII.
O rei, quando lhe foi anunciado um emissário francês, declarou que o não recebia, sem ter ao seu lado uma peça de calibre 40, com morrão accêso. Esta dificuldade é que o marido de Rosa Guilhermina não previra. Redobraram as instancias inutilmente durante três dias, ao cabo dos quais o duque de Angouleme, defronte de Cádiz, bombardeava a cidade.
Augusto Leite, empregando a corrupção por meio do ouro, fez saber ao rei que o enviado francês era um partidário do congresso sacerdotal, que vinha oferecer à Sua Majestade valiosos serviços para a sua fuga do poder das cortes.
O rei recebeu-o perplexo; mas brevemente se confiou aos planos do futuro arcebispo de Toledo, graça que desde logo lhe confirmou com a sua real palavra.
Augusto Leite agradeceu com reverente efusão a graça, e oferecia ao rei a beberagem que devia paralisar-lhe a vida aparentemente, quando se ouviram exteriormente gritos que anunciavam a fuga do exercito espanhol, e o desembarque do duque de Angouleme.
O populacho dava morras aos membros das cortes; e os partidários da constituição, que não sabiam as intenções pacificas da França, luctavam desesperadamente contra o povo, e contra o exercito victorioso.
Augusto Leite, persuadido de que era já desnecessaria a realisação dos seus planos para a soltura do rei, não lhe ministrou o liquido, e dava graças à estupida fortuna que o colocara ao lado de Fernando VII, no momento da sua liberdade.
Um membro das cortes, que odiava o rei, e julgava perdida a causa, e cortada infalivelmente a sua cabeça um momento depois, resolveu um desses atentados sanguinários, que são o caráter do povo espanhol nas crises revolucionarias, resolveu o regicídio.
Entrou no carcere, armado de um punhal. Foi direito à câmara do rei. O primeiro que se lhe antepôz foi o suposto oficial francês. Recuou diante de duas pistolas; mas um instante. Refez-se da coragem da desesperação, e aggrediu o tímido rei, que se refugiara atrás de Augusto. O bem provado atleta de Casal de Pedro desfechou-lhe uma pistola no peito: mas não pôde esquivar-se a uma punhalada no coração. Travaram por alguns minutos uma luta feroz, e caíram ambos estendidos.
O que recebera uma bala no peito podia viver ainda hoje, se, no dia imediato, não fosse arrancado à enfermaria militar para padecer morte de garrotilho, com alguns dos seus colegas. Mas, ao mesmo tempo, Augusto Leite, que sentira mais dentro a ponta do punhal, era enterrado com grandes honras por ter defendido, à custa da própria, a vida do seu rei.
O que ninguém sabia dizer ao certo era a naturalidade do corajoso defensor de Fernando VII. Os frades queriam-no para o catalogo dos mártires franciscanos; mas um francês do estado maior do duque de Angouleme dizia que aquele homem vivera algum tempo em Paris, onde se intitulava D. Afonso Vilhegas. O que tal disse, tinha razão sobeja para sabê-lo, porque era o visconde de Bellarmin, que vendera o passaporte de frade ao seu amigo por mil libras.
Ora pois, deste sujeito estamos nós livres. Podemos dizer que morreu bem. Espero que este meu romance, só de per si, conduza à eternidade individuos suficientes para chamarem a atenção devota dos pios leitores em dia de fieis, defuntos.