O Comendador - Primeira Parte
É tão fatalmente séria a vida que o soffrêl-a, sem misturar a tragédia com a comédia, seria impossível.
H. Heine, Reisebilder.
A D. Antônio da Costa
Em testemunho da regalada leitura que v. ex.^a me deu com o seu MINHO, lhe ofereço uma das novelas de cá. O Minho tem o romanesco da árvore e o romance da família. A paisagem sugeriu-lhe, meu caro poeta, as prozas floridas do ridente livro. O seu estilo tem a macia luz do luar das noites estivas, e o cadencioso murmúrio das ribeiras onde o céu estrelado se espelha.
O Minho lucra muito, visto assim de passagem, na imperial de uma diligência, lá muito no galarim do tejadilho, onde as moscas não se além a ferretoar-nos a testa e a sevandijar nos os beiços convulsos de lirismo.
Viu v. ex.^a perfeitamente o Minho por fora: as verduras ondulando nas pradarias, os jôrros de água espumando na espalda dos outeiros, os fragoêdos às cavaleiras dos milharais, a amendoeira a florejar ao lado do pinheiral bravio, as ruínas do paço senhorial com os seus tapetes de ortigas e guadalmecins de musgo ao pé da chaminé escarlate e verde do negreiro a golfar rolos turbinosos de fumo indicativo de panelas grandes e galinhas gordas, lardeadas de chouriços. Simultaneamente, ouviu v. ex.^a o som da buzina pastoril resonando a sua longa toada nas gargantas da serra; viu os espantadiços rebanhos alcandorados nos espinhaços dos montes, e os rafeiros à ourela das estradas com os focinhos nas patas dianteiras, orelhas fitas e olhar arrogante. Reparou de certo na pachorra estoica do boi sevado, que parece estar contemplando em si mesmo a metempsicose em futuro cidadão de Londres mediante o processo do bife. Tudo isto, que é a forma objectiva do Minho romântico, viu v. ex.^a a fora o mais que aformosea o seu livro, os encarecimentos, as lisonjas, as feitiçarias da arte com que v. ex.^a disputa primores à natureza.
Mas o que D. Antônio da Costa não teve tempo de ver e apalpar foi o miolo, a médula, as entranhas românticas do Minho; quero dizer—os costumes, o viver que por aqui palpita no povoado destes arvoredos onde assobia o melro e a filomela trila.
Ah! meu amigo! Romances, tecidos de casos cândidos e inocentes, apenas os fazem por aqui os pássaros em abril quando urdem e afofam os seus ninhos. O restante dos animais não ovíparos vista-mos v. ex.^a no Catarro ou no estabelecimento da famosa senhora Cecília Fernandes, da Travessa de Santa Justa, que eu lhos farei representar ao vivo no próprio coração do Minho—entre Fafião e S. João do Calendário—as cenas contemporâneas da fina Baixa e piores.
A peste, que infecionou os costumes destas aldeias, não sei decidir se veio das cidades para aqui, se foi daqui para lá. Sá de Miranda considerou isto tudo estragado quando viu
correr pardáos Por Cabeceiras de Basto.
Imagine v. ex.^a o que terá feito o esmeril do progresso a descodear e a brunir este gentio há três séculos! Não faz Ideia, meu amigo! Até a fotografia, abarracada nas cabeças dos concelhos, tem feito colaborar o sol e o clorureto de prata na relaxação dos costumes. Os «conversados» permutam retratos, e beijam-se reciprocamente em papel-cartão, aguçando o instinto da natureza bruta. Verdade é que os pastores minhotos, há trezentos anos, já traziam ao pescoço os retratos das pastoras pintados em madeira, como se depreende destes versos de Diogo Bernardes, o rouxinol do Lima.
Pendurei em um salgueiro a minha lira
Ouvi-la ao som do vento é uma mágoa,
Em lugar de tanger geme e suspira.
Marília que pintada em uma tábua
Aqui no seio trago, também chora;
Seus olhos dão-me fogo, e os meus dão-lhe água.
Não obstante, o fogo, que acendrava a paixão nos peitos daqueles Bieitos e Melibeus das éclogas, era uma espécie de lume sacro que velava a virgindade… dos retratos pintados em tábua. Por quanto, deve v. ex.^a lembrar-se que os pegureiros do Minho tais fornalhas faúlavam do peito que os vizinhos iam lá prover-se de lume para cozinhar a ceia, como se colige das lástimas deste pastor do canoro Bernardes:
A viva chama, aquele intenso ardor
Que brando sinto já pelo costume,
De noite de si dá tal resplandor
Que mil pastores vem a buscar lume.[3]
É verdadeiro e bonito. Os mestres da vernaculidade mandam que a gente leia isto, e mais os outros líricos seiscentistas—caldeirada de favas clássicas com as quais o intendimento se opila e encrua; mas a língua cresce.
Como quer que seja, entre os retratos em tábua quais os pintava S. Lucas, e o retrato em fotografia aperfeiçoado por Fox Talbot, mede a distância que etnologicamente separa as Nizes e Filis de Diogo Bernardes destas Joanas e Tomásias que hão de florejar nas Novelas do Minho.
Ouço dizer que a via-férrea, sulcando o seio virginal desta província, afugentou com o estridor das suas azas os pardais, a mala-posta e a Probidade.
É possível. Os caixeiros do Porto, sadíos e sanguíneos, com as suas luvas amarelas, e todo o verniz, que lhes coube em sorte, nos pés, entraram Minho dentro, e derramaram a dissolvente chalaça nas aldeias. Por outro lado, a raça turdetana de Braga fechou pelo norte a barreira à inocência espavorida. A cidade santa de nossos pais e dos cônegos, a esposa de Fr. Bartolomeu dos Mártires, Braga despeitorou-se, desnalgou-se, sofraldou as saias e mostrou a liga sobre o joelho desde que um jornal da terra lhe chamou segunda Paris. Eu não reparo na desproporção do confronto, quando ali me vejo no Café-Faria, a sentir-me arquejar em uma das artérias do grande corpo da civilização chamada Europa, como lindamente diz o sr. Vaz de Freitas na sua Guia do Viajante em Braga, por seis vinténs. Tudo me leva à persuasão de que me acho na segunda Paris, quando a Guia me assevera com exatidão, ainda não contraditada pela inveja, que Braga encerra nos seus muros sete procuradores de causas, e que aí (pág. 28) os barbeiros superabundam. Fazia-se ainda pelos modos uma terceira Paris com a superfluidade dos barbeiros!
A categoria modesta, em que o jornalista afidalgou a sua terra, justifica-se principalmente nas estalagens. Aí, é aí onde o viajante se sente saturado de Paris, a ponto de, cuidando que açorda alvoroçado pelas campainhas elétricas do Grande Hotel no Boulevard des Capucines, acha-se em Braga, no hotel-Aveirense, largo dos Penedos. Avantajam se ainda às hospedarias parisienses, no ponto de vista zoológico, os hotéis da princesa do Minho. Os forasteiros dados a pesquisas de anatomia comparada, podem, mediante uma gratificação razoável, passar as suas noites em vigílias uteis estudando insetos sem queixos e sem azas, de membros articulados, consoante a classificação de Cuvier. Ali se lhes oferecem exemplares em barda da pulga braguês (Púlex bracharensis). Convencer-se-á que as seis pernas deste parasita são desiguais, o que assim se faz mister para o salto. Não duvidará que ele tem o bico alongado com duas cerdas, e guarnecido na bazé de dois palpos escamosos. Se reparar bem nas pulgas maiores, dissipará suspeitas de que tem azas que realmente não tem as do Hotel Leão de ouro nem as do Hotel-transmontano. Encontram-se nestes dois estabelecimentos larvas das mesmas, cilíndricas e sem pernas. O olho armado pode observá-las a mudarem-se em ninfas, que não são exatamente umas de quem cantava Garret:
As ninfas invoquei do Tejo ameno
Que em mim criassem novo engenho ardente,
Etc.
Cam. C. IV.
Nem as outras de quem dizia o épico:
Caem as ninfas, lançam das secretas
Entranhas ardentíssimos suspiros…
Lus. Cant. IX.
Verdade é que o acessório das secretas, inclusas no verso de Camões,
deixa supor que ele quisesse falar das ninfas dos hotéis de Braga.
Que estude o caso o sr. visconde de Juromenha, e não o desampare a
Academia Real das Ciências.
Nos hotéis de Braga, finalmente, dão-se as mãos o espavento das modernas indústrias, as refinações da decoração, a obra prima de marcenaria e vidraria,—um luxo levantino, como em recamaras de Nababos—e sobre tudo a higiene expansiva de saúde a dar cambalhotas na brancura virginal dos lenções; e à mistura com tudo isto ressalta não sei que de arqueológico em aqueles quartos! A gente, quando vai deitar-se, imagina que naquela mesma cama dormiu na noite passada S. Pedro de Rates ou Gonçalo Mendes da Maia.
Por fora das estalagens ainda há proeminentíssimas feições de Paris em Braga. O Jardim, por exemplo. V. ex.^a já esteve no jardim? Impressionaram-no com certeza uns rumores, «ora sufocados, ora estrepitosos» que ali se escutam nos domingos de tarde? Também a mim. Não pôde soletrar em sons articulados aquele confuso burburinho? Nem eu. Quem explica o fenômeno, trivial nos Champs-Elysées e no parc de Monceau, é o já citado sr. Vaz de Freitas na sua Guia do viajante em Braga, por seis vinténs, pág. 41. A coisa é isto: O chilrear das crianças, o divanear das poetizas, o queixume sonolento dos poetas, a conversação pezada e metálica dos proprietários, todos estes murmúrios vagos ou alegres, sufocados ou estrepitosos (hîc) enfundem uma vida nova e excepcional ao passeio, que o tornam atraente ou deleitoso. Teófilo Gauthier, o Benvenuto Celline da proza francesa, não rendilharia com tão subtis filigranas de frase a explicação dos ruídos babilônicos do Luxemburg. Donde se colhe que Braga tem poetizas que exibem delirantemente os seus devaneios no jardim, ao mesmo tempo que os poetas se queixam sonolentos. Paris, tal qual. Note v. ex.^a o contraste no sexo destas pessoas que bebem na Castália: elas divaneam, apostrofando a gritos o arrebol da tarde e a brisa que cicia e se perfuma nas cilindras; eles, cabeceando marasmados pelo opio do narguilé, queixam-se sonolentos, por que não os deixam dormir as poetisas. São homens gastos, estafados, roués. Saíram do café-Faria intoxicados do absinto de Espronceda, de Nerval, de Larra e de Mussét. Entraram no jardim com o cérebro anestesiado, querem dormir; e elas, à imitação do femeaço da Trácia, projetam escalavrar aqueles Orfeu dorminhocos, Marcyas que elas, filhas de Apolo, querem esfolar. Segundo Paris.
Aí vê v. ex.^a a razão dos «estrépitos» explicada na Guia. Pareciam outra coisa pior.
Eu, afora isto, conheço outras analogias entre Braga e Paris, que estudei, sem subsídio—intendamo-nos. Há três meses senti-me ali adoecer da nevropatia, que é moléstia endêmica dos grandes centros de população, onde os deleites requintam, e o fluido nervoso se desperdiça—o que sucede em Londres, em Braga, em New-York, em Paris, quando a gente desconhece as leis da relatividade dos prazeres, como diz o professor escocês Bain. Confiando nos anti histéricos, fui comprar à botica do sr. Pipa, na rua do Souto, um frasco de capsulas de éter-sulfúrico, e preparava-me para pagá-las com 300 rs. (um fr. e 50 cent.)—preço corrente no Porto—quando o praticante da farmácia me mandou intender o preço da droga com mais cinco tostões, e mostrou-me que o sinal aritmético de um franco estava emendado em dois. Ainda assim, observei-lhe que dois francos cambiados em moeda portuguesa eram quatrocentos réis. O interlocutor refutou triunfantemente a minha objecção, alegando que em Braga dois francos eram oito tostões.
Esta fisionomia da botica bracarense dá feições à terra, não da 2.^a, mas da 1.^a Paris. A 2.^a é a outra que os geógrafos ignaros nos inculcam 1.^a. Corrija-se.
Dou de barato que as referidas poetisas do jardim consumam capsulas de súlfur copiosamente nas suas eterizações, e que os poetas sonolentos se despertem com elas, não querendo usar economicamente das cocegas; deve-se talvez às condições especiais das musas bracarenses o preço superlativo dos antiespasmódicos: assim mesmo, Paris 2.^a não pode arbitrariamente dobrar o valor da moeda de Paris 1.^a, nos gêneros que importa, ao mesmo passo que, no valor legal da moeda francesa, exporta para França os seus chapéus, os seus cavaquinhos e as suas frigideiras.
Aqui tem, pois, D. Antônio da Costa, o foco do progresso que esparge raios de luz para as aldeias setentrionais do Minho, enquanto o Porto alastra no sul os caixeiros contaminadores, que levam consigo a corrupção dos romances e as tentações do cabelo untuoso com a risca ao meio da cabeça, lasciva como o dorso de um gato de Angora.
É neste meio que eu me abalanço a esgaratujar novelas. Há treze anos que apeguei por esse Minho, em cata do bálsamo dos pinheirais e das fragrâncias das almas inocentes. Diziam-me que a rusticidade era o derradeiro baluarte da pureza, e que os lavradores do Minho, nivelados com os saloios da Extremadura, eram os cândidos pastores da Arcádia comparados aos malandrins de Gomorra. Um dos meus estudos, no intuito de me habilitar para o confronto do saloio com o minhoto—da raça sarracena com a galega—É a historinha que lhe dedico meu nobre amigo.
De Coimbra, aos 15 de outubro de 1875.
O COMENDADOR
Seis de janeiro de 1832. Manhã chuvosa e frigidíssima. O zimbro rufava nas frestas envidraçadas da igreja de Santa Maria de Abade. Ringiam as carvalheiras varejadas pelo norte. Ao arraiar do dia, a devota dos Três Reis Magos, a tia Bernabé, tecedeira,—viúva do operário Bernabé, que lhe deixara o nome e uma cabana com sua horta—ergueu-se, foi à residência paroquial pedir a chave da igreja; e, sobraçando a bassoura de giesta para barrer o chão, e a almotolia para prover as lâmpadas, entrou no adro. Ao passar em frente da porta principal, ajoelhou, persignou-se e orou. Neste momento, ouviu o vagir convulso e ríspido de criança. Voltou o rosto para o lado donde lhe parecia sair aquele choró. Não viu alguém. Espantou se.
—Jesus! santo nome de Jesus! Isto é coisa ruim!—exclamou ela, pousando no degrau da porta a vasilha e a bassoura.
E o chorar de criança cessou.
A tia Bernabé debruçou-se na parede baixa que murava o adro, e viu entre as grossas raízes de uma oliveira secular um embrulho de baêta azul donde saiu um vagido. Saltou a parede, agachou-se à raiz da árvore, e pegou da criança, aconchegando-a do calor do peito e bafejando-a no rosto azulado do frio. A baêta estava ensopada da chuva que escorria da ramaria da oliveira. Tirou-lha apressadamente, involveu o menino no avental, e agasalhou-o entre o seio e o farto jaqué de picotilho. Depois, desandou para a residência, e mandou dizer ao abade que topara no adro uma criança, que parecia estar a despedir.
—Pois que quer ela então?—perguntou o abade, expondo uma parte do nariz e metade do olho esquerdo à frialdade do ar—Que tenho eu com isso? Que a leve a Barcelos. Aqui não há roda de enjeitados.
A criada do abade deu o recado.
—Torne lá, sr.^a Joana—replicou a tia Bernabé friccionando os pés álgidos do recém-nascido com a barra da sua saia de saragoça—e diga ao sr. padre que este menino, se morrer sem batismo, é um anjinho do céu que se perde. O sr. abade há de saber isto melhor que eu…
A criada repetiu a réplica, e ajuntou:
—A tia Bernabé diz bem.—Salte daí pra fora, seu calaceiro!—E deu lhe uma sonora palmada na nádega esquerda.—Um rapaz de vinte e sete anos está aí enteiriçado como um velho! Upa!
—Está quieta, Joana, olha que me fazes vento!
E ela puxou-lhe pelo pé direito, que excedia o volume de três pés; e ele, com o outro, despedido à toa, sacou-lhe do baixo ventre um som timpânico de odre cheio.
—T'arrenego!—bradou ela, recuando com as mãos postas na parte molestada.—Você atira? Tem má manhã!
—Cheguei-te?—volveu ele risonho, embiocando-se na felpuda coberta, e encostando-se à almofada de chita que estofava o espaldar do leito.
—Que brincadeira!—queixou-se a moçoila arrufada—podia-me matar com o couce, se me dá aqui no coração!…
E punha a mão no estômago.
—Isso não é nada, rapariga!… Olha se amúas!
—Nada, não é!… não que a barriga é minha…
—Pois tu com este frio de mil diabos, vens-me mexer na roupa, e de mais a mais puxaste-me pelo pé do joanete que tem a frieira aberta!…
—Então dissesse-o…—tornou ela com semblante ajeitado à reconciliação—Salte daí!… vá batizar o enjeitado; que, se ele morre sem batismo, verá que ingranzéu se levanta na freguesia. Bem basta o que já dizem…
—Calça-me as meias de lã; mas tem cuidado que não se despegue o emplasto da frieira.
E, enquanto a mocã com jeitosa meiguice lhe encanudava nas pernas cerdosas as grossas meias alisando-lhas ao correr da tíbia, resmungava ele:
—Quem seria a grande bêbada que enjeitou a cria?
—Isso há de ser de fora da freguesia…
—Também me parece… Cá não me consta… E vem-ma cá pôr no adro!… ah bom estadulho!…
—Fica uma coisa pela outra. As de cá também as levam às outras freguesias, quando acontece—disse Joana.
E nomeou várias ovelhas fecundas e tinhosas, enquanto o pastor lavava a cara no alguidar vermelho que a raparigaça lhe chegava, com a toalha no ombro.
Ao pegar da toalha, sacudindo a cara e assoprando ruidosamente com a sensação do frio, o abade apertou a polpa da espádua à moça com ternura felina. Este carinho confirmou as pazes. Joana arregaçou os beiços ridentissimos até às orelhas, e mostrou-lhe nos dentes de brilhante esmalte que o seu amor infinito resistira à prova do couce.
A tia Bernabé afligida, porque o menino soluçando-se esverdeava, chamou outra vez Joana com encarecidos rogos.
—O sr. abade está já vestido—disse a mocã saindo à janela.—Passe você por casa do tio Isidro da Fonte, e diga-lhe que vá pra igreja, e deite água na pia.
* * * * *
O padre saiu de casa carrancudo e bocejando. De cada vez que escancarava as mandíbulas, traçava no envazamento da boca três cruzes com o dedo polegar.
A tecedeira, que o esperava no adro, abeirou-se dele mostrando-lhe a cara roxa da criança. O padre olhou-a de esconso, e perguntou:
—É macho ou fêmea?
—É um menino—respondeu a viúva.
—Acenda um daqueles cotós—disse o abade ao Isidro, apontando para os sórdidos castiçais de chumbo de um altar—A pia tem água?
—Vem aí o meu rapaz com o cântaro.
—Vocês são os padrinhos? O rapaz há de chamar-se Isidro, ou então põe-se-lhe o nome do santo de hoje—observou o abade, boquejando e benzendo a boca, no limiar da porta travessa onde a mulher esperava, segundo o ritual.
—Hoje é dia dos Santos Reis—disse ela.
—É verdade—confirmou o padre, e cismou se Reis seria nome ou apelido. Não se lembrava de ter estudado esta espécie.
—Os santos Reis Magos eram três—prosseguiu a tia Bernabé.
—Bem sei—acudiu o padre.
—Um chamava-se S. Belchior, outro S. Gaspar, outro S. Baltazar—explanou a devota dos magos orientais:—o menino pode chamar-se Belchior, se o sr. abade quiser.
—Eu quero tudo que vocês quiserem. Vamos a isto, que está um frio de rachar—E, recolhendo-se à sacristia, esfregava as mãos, bufando-as com os gazes do estômago ainda perfumados do vinho da ceia.
—Meu rico anginho, irá ele morrer na água fria?—lamentava a boa criatura bafejando-lhe as duas faces.
O abade enfiou a sobrepeliz, revestiu a estola, mandou chegar o enjeitado ao baptistério, fez um resumo do latim ceremonial, e disse:
—Vão-se à vida.
—Vou-me daqui às Lagoas a ver se a Teresa do Eido me dá o peito a este anginho, até ver se arranjo que algum lavrador me faça esmola de um bocado de leite de cabra—disse a tia Bernabé.
—Então você não o leva à roda?—perguntou o abade esbugalhando o espanto nos olhos.
—Ágora levo eu à roda o meu enjeitadinho! Já que Deus me não deu filhos…
—E tem muito que lhe dar você?
—Enquanto eu poder fiar uma meada e tecer uma teia, dou-lhe eu o meu caldo e o meu pão; depois, quando eu não poder, dá-mo ele. Casa e dois palmos de horta, graças a Deus, tenho eu, e não na devo a ninguém… O pior é que o pequeno, se lhe não acudo, morre de fome… Ai! meu Deus! há cadelas mais amoráveis que algumas mães…
—Ande lá… meta-se em trabalhos…—concluiu o abade, safando-se com os cabeções do capote apanhados na testa.
* * * * *
A criança vingou, espigou e saiu robusta e menos mal encarada. Entre os sete e onze anos aprendia a ler, e nas horas vagas enchia as canelas do fiado ou dobava meadas.
Belchior Bernabé, (assinava-se assim com satisfação da mãe adotiva) deparado a algum romancista imaginoso, daria trela ao esvoaçar alto da fantasia, quanto à sua origem. A mãe poderia ser uma fidalga de Famalicão ou de Santo Tirso. O pai, com toda a verosimilhança, poderia fantasiar-se algum dos generais do exército realista ou liberal que, por aquele tempo, manobraram em essas paragens. Com estes dois elementos, a fidalga e o general, qualquer mediano talento, aproveitando o acessório das batalhas, compunha um romance de maus costumes, pelo que respeitaria ao enjeitado, e um livro histórico, pelo que interessaria à história da restauração da Carta Constitucional e do sistema representativo. Feito isto, o pequeno lucrava muito, sabendo nós que sua mãe era uma devassa recatada que, por noite desabrida de janeiro, o mandou expor entre as raízes de uma árvore, em que os sevados fossavam luras com o focinho, e o não devoraram naquela madrugada porque estavam ainda cerrados nas suas pocilgas. Com tanto que esta mãe desnaturada enjeitasse o filho, em respeito ao brasão e ao crédito, a criança ser-nos-ia mais simpática, as linhas de fina casta extremá-lo iam entre as caras boçais da plebe, a auréola de nascimento misterioso banhá-lo-ia então da luz de um melancólico romance. Assim é; mas eu não sei quem fossem os pais de Belchior Bernabé. O rapaz, segundo ouvi dizer aos que o viram criança e adulto, era feio, espesso de cara, achamboado de pernas. Ninguém lhe farejava o pai nem a mãe pela semelhança do rosto: parecia-se com todas as mulheres e com todos os homens daquelas freguesias, onde as caras são achatadas sem ressalto de protuberância, ou angulosas como as peras de sete cotovelos.
É maravilhoso este capricho fisiológico! A terra da Maia é um alfôbre de moças bonitas, com os seios altos e alvos como pombas no ninho; os quadris elásticos e boleados tem saliências que vos levam cativo, e vos levarão doido se lhes virdes as lisas colunas em que a hera do verso de Camões lembra sempre…
Desejos que como hera se enrolavam.
E lembra sempre este verso e os outros convizinhos[4] por serem os Lusíadas um poema que se lê nas escolas, e se encontra no açafate de costura das educandas, que puderam subtrair-se à morigeração pestilencial dos lazaristas.
Transpostos os limites da Maia, a primeira mulher que se vos depara na primeira freguesia do concelho de Famalicão, é feia e suja até ao asco, escanelada, escalavrada no peito, veste-se a frisar com a desgraça da sua má figura. E daí até Braga, se vos apraz, podereis inhalar em todo seu perfume a pura flor da castidade. Se há terra onde possam ermar e defecar-se de sensualismo santos tentadiços, é ali. Cada mulher é uma figa benta de que fogem os três inimigos da alma, principalmente o último.
* * * * *
Belchior, aí por maio, mês das flores, da brotoeja e de outras fatalidades especificas, começou a amar. Tinha dezenove anos, carnadura rubra, ombros largos, assobiava como um melro, tangia cavaquinho, e amava a Maria Ruiva, filha do Silvestre Ruivo, o maior lavrador da freguesia. Este amor resguardava-se como um delito, e por isso mesmo se escandecia e refinava até à quinta essência da paixão que está paredes meias do desastre. O enjeitado, se se afoitasse a alardear preferencias nas atenções de Maria Ruiva, seria espancado pelos rivais ou por algum dos três padres tios da cachopa. Eram três clérigos afamados por façanhas de estudantes em Braga. Haviam militado nas guerrilhas da usurpação; terçaram de novo as armas em 1846, na carnificina de Braga; recolheram a casa depois da morte de Mac-Donald, e diziam missas a oito vinténs para não se descansarem no ofício.
Uma noite, quando um dos padres recolhia, enxergou um vulto esbatido no escuro do murtal que formava o tapume da eira de sua casa, e lobrigou por entre a sebe o alvejar de uma saia a fugir. Cresceu sobre o vulto com o pau em programa de bordoada, e ouviu o estalido do pêrro de pistola. Susteve a pancada, e perguntou:
—Quem está aí?
—Sou o Belchior Bernabé.
—Que fazes aí?
—Nada, sr. padre João.
—Porque te escondestes?
—Não faço mal a ninguém, sr. padre João.
—Mas engatilhaste uma arma de fogo!—e acercou-se dele arremetendo.—Que queres tu desta casa, enjeitado? Servem-te as minhas sobrinhas…?—e atirou lhe um epíteto, que definia a natureza da mãe incógnita.
—Sr. padre João, olhe que, se me bate, eu, bem me custa, mas… atiro-lhe. Siga o seu caminho, e deixe estar quem está quedo e manso.
Padre João Ruivo sobraçou o marmeleiro ferrado, e murmurou:
—Tomo-te à minha conta, brejeiro!
E passou avante.
Ao apontar do sol, esporeou a égua para Famalicão, demorou-se com a autoridade administrativa, com os membros da Comissão distrital, com o regedor, e saiu alegre. Ao outro dia, na porta da igreja de Santa Maria de Abade, lia-se Belchior Bernabé, enjeitado, entre os mancebos apurados para o recrutamento.
E, entretanto, Silvestre, o pai de Maria, chamou ao sobrado da tulha três filhas que tinha, e disse:
—Qual foi uma de vocês que esteve esta noite na eira a conversar para o quinchôso com o enjeitado da Bernabé?
Duas responderam logo ao mesmo tempo:
—Eu não!—e acrescentaram:
—Cega eu seja de ambos os olhos!
—Quebradas tenha eu as pernas!
—Má raios me partam!
A terceira, Maria, abaixou a cabeça, levou o avental de estopa aos olhos, e chorou.
—Foste tu?—exclamou o pai; e, pegando de um engaço, ia cravar-lhe os dentes na cabeça, quando as duas filhas lhe ferraram do pulso. O pai, homem possante de quarenta anos, sacudiu-se a custo das prezas das valentes raparigas, largando-lhes o engaço, e esmurraçou a outra com tamanho ímpeto de raiva que Maria caiu atordoada.
Em seguida voltou-se para as duas filhas, e disse:
—Esta mulher fica fechada aqui, entendem vocês? Se quiserem, tragam-lhe o caldo; se não, que morra para aí, que a levem os diabos!
E, saindo, rodou a chave, e guardou-a na algibeira interior da véstia.
* * * * *
A tecedeira, quando Belchior, lavado em lágrimas, lhe disse que ia ser soldado, encostou o queixo às mãos postas em suplica, relançou os olhos à imagem do Bom Jesus do Monte, deteve-se instantes, e disse serenamente:
—Não irás para soldado, meu filho. O tio Silvestre Ruivo já me ofereceu dois centos por esta casa, com a condição de me deixar morrer nela. Vende-se a casa, ficas tu sem ela, mas onde quer se vive. Para soldado não vais, Belchior. Dás o dinheiro aos governos, como fazem os filhos dos lavradores ricos, e estás livre.
Belchior não cessava de chorar, e de vez em quando, por entre soluços, articulava palavras que a tecedeira, um tanto surda e de todo alheia dos amores do rapaz, não percebia.
Não chores, moço!—insistia a velha, repetindo o expediente de vender a casa; e Belchior, por fim, obrigado a explicar-se, rompeu nesta exclamação:
—A Maria Ruiva está perdida e desgraçadinha!
—Credo!… tu que dizes, Belchior!?
O rapaz arrepelava-se; apanhava com as mãos a nuca, e batia com os cotovelos um contra o outro. Atirava-se de trambulhão sobre uma grande caixa de castanho, e jogava de cabeça contra os joelhos com a pasmosa elasticidade da sua aflição. Fazia aquilo porque não sabia as frases que nós, os mãos romancistas, costumamos emprestar a esta espécie de sujeitos.
A tia Bernabé, ora lhe pegava na cabeça, ora nos braços, dizendo-lhe as mais carinhosas consolações. Por fim, o enjeitado, erguendo-se de salto, e olhando em redor tão sinistramente quanto cabe na rubrica de um drama e na pupila fulva do sr. Isidoro Sabino Ferreira na tragédia, disse com o esbofar das angústias vertiginosas:
—Assim com'ássim… mato-me!
Aqui foi um alto soluçar da tecedeira, um desentoado choró que alvorotou a vizinhança.
Belchior, assim que viu a casa a encher-se de gente, fugiu pela porta da cozinha, saltou valados, emboscou-se em uma seara de centeio, e aí, estirado por terra sobre as louras gabelas, chorou copiosamente.
A tia Bernabé pedia entretanto aos vizinhos que fossem atrás dele, porque o seu Belchior dissera que se matava.
O enjeitado deixou-se trazer como um ébrio nos braços dos vizinhos; e, chegando a casa, pediu que o deixassem deitar. Depois, ganhando ânimo—que é sempre certo, esgotadas as lágrimas—contou à tia Bernabé a sua curta história com a Maria Ruiva, concluindo-a com uma revelação que irriçou os cabelos da velha.
* * * * *
Nessa mesma hora, a tecedeira saiu cambaleando e encostada às paredes, em demanda do abade.
Era ainda o mesmo que batizara Belchior. Envelhecera e engordara. Meditava depois de jantar no destino da sua alma, assim que o destino do corpo lhe parecera consumado. Joana, a das sapatadas naquela anca de Hércules Farnésio, havia muito que cauterizava a consciência chagada, cortando o cabelo e cilhando os rins pecadores com a corda nodosa dos cilícios. O abade também sofrera um abalo rijo de contrição, a ponto de não substituir Joana, e calçar as meias direta e pessoalmente. Nesta espécie de amputação espontânea, não podendo criar processos de filosofia nova, como Pedro Abélard, comia às suas horas e profanava com silabadas o latim do missal. Prometia acabar bem.
A tia Bernabé referiu-lhe o que Belchior lhe confessara a respeito da
Maria Ruiva.
—Eu bem lhe disse a você, mulher, que se metia em trabalhos, lembra-se?—recordou o abade.
—Sim, senhor, lembra… mas então? Ainda me não arrependo, se o sr. abade me fizer a caridade de falar ao Silvestre, e dizer-lhe que o melhor é, já agora, deixar casar a rapariga.
—Você—atalhou o padre—você, Bernabé, deu-lhe volta o miolo! O Silvestre dar a filha ao enjeitado!… Ora, mulher, peça a Deus juízo, e diga a esse tratante que se vá quanto antes sentar praça, antes que lhe deem cabo da pele. Com que então!… O alma do diabo foi às do cabo, eim?
A tecedeira ouviu-o com o rosto lavado em lágrimas; e ele, solfejando as palavras iracundas ao compasso do rufo que fazia com a caixa de prata sobre o braço da cadeira, prosseguiu:
—Forte maroto! Atrever-se a conversá-la, já era muito: mas isso que você me diz, mulher, só na forca! E então… uma rapariga sem nota, que já foi pedida pelo Francisquinho das Lamelas, que colhe oitenta carros e vinte pipas, afora azeite!… E, vamos lá, era a melhor das irmãs, uma mocetona!… Com que então esse patife disse-lhe mesmo que ela… daqui a pouco… já não pode esconder o fruto do seu crime?
—Sim sr.—balbuciou a tia Bernabé.
—Isto só no inferno!—volveu o abade, rebitando a ponta do nariz para dilatar a circunferência das ventas sobranceiras à pitada—Isto só no inferno!…
—Valha-me Deus, sr. abade!—replicou timidamente a tecedeira.—Então a religião de nosso Senhor Jesus Cristo não dá remédio a estas desgraças, que tantas vezes acontecem? No melhor pano cai a nódoa. Logo que eles se casem, está tudo remediado, pois não está?…
—Está o quê?… Então uma rapariga de boa família, que tem três tios padres, e que é filha de um capitão de ordenanças, casa-se assim com um enjeitado que você encontrou na bouça da igreja entre o mato?…
—É verdade; mas todos somos filhos de Deus,—argumentou a tia Bernabé, e mais longe iria na sua preleção de caridade ao pastor, quando uma vizinha a chamou à porta da residência para lhe dizer que Belchior estava prezo entre seis cabos de polícia que o levavam para soldado, e ele a mandava chamar para se despedir.
Ainda desceu precipitadamente as escaleiras a trêmula velhinha; mas, a poucos passos, caiu de joelhos, amparou-se no valo, e debruçou-se desmaiada.
Entretanto, o regedor ordenava aos cabos que levassem o prezo, visto que a tia Bernabé fora levada sem acordo para a residência. Belchior pediu que o deixassem ir lá despedir-se de sua mãe. O regedor voltou-lhe as costas, acenou aos cabos que marchassem.
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Em Famalicão deram-lhe uma guia, e enviaram-no entre seis espingardas para Braga. Ao outro dia era soldado.
A tia Bernabé procurou-o no quartel do Populo nesse mesmo dia. Quando o viu de cabeça tosquiada como cão morrinhoso, e coleira de couro preta, estonteou-se-lhe o juízo e esteve a pique de cair. O recruta, chorando com ela nos braços, apiedou o comandante da guarda, que os mandou entrar na casa das tarimbas. Daí a duas horas, tocou a corneta a recruta. Belchior já não tinha nome. Era o 29.
—Salta daí, 29!—bradou-lhe um anspeçada.
—Que é?—perguntou a tecedeira.
—Vou para o exercício, minha mãe.
Ela viu-o marchar com os outros para o Campo do exercício; e logo, a meio caminho do terreno das manobras, um furriel barbaçudo e de chibata, lhe assentou na parte sobrejacente às pernas um pontapé instrutivo. Diga-se verdade—era o primeiro.
A tecedeira, quando isto presenceou, saiu do campo estrangulada por soluços, entrou na Sé, e orou largo tempo com o rosto no pavimento. Depois, levantou-se reanimada, e foi para a sua aldeia executar o que ficara convencionado com Belchior: vender a casa, e substitui-lo.
Pregou anúncios na porta da igreja e nas árvores vizinhas das estradas. O pai de Maria Ruiva muito queria comprá-la para arredondar um campo com a horta e armar na casa térrea um estabulo de bois para embarque; porém, receando que o seu dinheiro servisse a resgatar o soldado, consultou os irmãos clérigos. Padre João foi a Braga mexer os pausinhos, disse ele; e, voltando, sossegou o irmão:
—Compra a casa, que o enjeitado as correias não as bota fora do lombo.
O lavrador tinha oferecido duzentos mil réis, quando a tecedeira não pensava vender a casa onde nascera; mas agora, por terceira pessoa, mandou-lhe oferecer cento e quarenta.
A desventurada velha ia ceder, pensando que vinte moedas de ouro bastariam a resgatar o filho; neste aperto, uma beata de freguesia distante, e confessada do abade, lhe propôs a compra, a fim de passar a estação das penitências ali à beira do seu diretor espiritual. Esta mulher, que era virtuosa, foi desde logo difamada pelos padres Ruivos à conta do confessor que a dirigia; e o lavrador por sua parte enraivava-se sabendo que a Bernabé vendera a casa por duzentos mil réis. Padre João, conversando a tal respeito com o abade, desfechou-lhe esta ironia entre duas pitadas:
—Quando se está assim gordo, sr. abade, é preciso trazê-las para perto…
E o pastor, exulcerado na sua candura, cascalhou uns froixos de tosse de esgana, e gosmou:
—Se eu trouxesse para esta freguesia ovelhas de fora, talvez que o padre João me deixasse em paz as do meu rebanho…
Entendiam-se.
* * * * *
A tia Bernabé foi a Braga com o dinheiro e com um seu cunhado, que havia sido embarcadiço, e então era calafate em Vila do Conde. Por felicidade viera ele à terra ver os parentes; e, condoendo-se da paixão da cunhada, se oferecera a dar em Braga os passos necessários à baixa de Belchior. O requerimento foi indeferido. O calafate andou por advogados que lhe escreviam réplicas inúteis. Por fim, compreendeu que o rapaz havia de gemer sob o peso da vingança do lavrador. E como ele passara quarenta anos no mar e aí ganhara ódio às misérias da terra, tanto que soube que o rancor era de padres e o crime do rapaz era de amores, voltou-se para a cunhada, e disse:
—O rapaz vai de hoje a quinze dias para o Brasil. Tu pagas-lhe a passagem, e o resto fica por minha conta. Daqui até Vila do Conde é desertor; assim que sair a barra, é livre… olha… vês aquela andorinha? é livre como ela!
—E não hei de tornar a vé-lo?!—atalhou ela chorando.
—Se não o tornares a ver, que monta? Tens tu de fechar os olhos para sempre ou não? qual queres tu: vê-lo aqui soldado, ou saber que ele está no Brasil a manobrar a sua vida? Deixa-o ir. A rapariga, quando ele chegar a Pernambuco, já lhe não lembra; e, se enjoar, então, é como quem deita o coração pelas goelas fora. Tu vens para Vila do Conde comigo. Tens que comer e uma enxerga onde durmas.
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Em março de 1852, fez-se à vela de Vila do Conde a Barca Conceição.
Entre os passageiros ia o desertor. Chamava-se aí Manuel José da Silva
Guimarães, e nunca mais ouviu proferir o seu nome.
Quando a polícia deitava inculcas no concelho de Famalicão procurando a paragem da tia Bernabé, rendia ela a alma ao seu Criador em Vila do Conde. Vira desaparecer as velas da barca Conceição, ajoelhada no terraço do Castelo. Depois, quedara-se de bruços a chorar. Levaram-a nos braços a casa do cunhado. As lágrimas secaram-se. Veio a febre e o delírio. Chamou, chamou por seu filho, até que Deus a chamou a ela. Não foi confessada nem ungida; mas morreu santa por que vivera santamente. Achara aquele enjeitadinho, criara-o, amara-o, vendera um cordão para o vestir jeitosamente afim de o mandar à escola, vendera as arrecadas para lhe comprar fato novo quando foi à primeira confissão, vendera a casa e o tear e o leito onde morrera sua mãe para o remir de soldado. Padeceu grandes angústias quando soube que o filho do seu coração era culpado na desgraça de uma rapariga honesta. Cuidou que o padre, o pregador da caridade e da igualdade dos servos de Jesus Cristo, iria admoestar o lavrador abastado a conceder a filha para esposa do pobre. Esta santa cegueira da cristã é de crer que Deus lha perdoasse. Por fim, de virtude em virtude, e de dor em dor, logo que aos setenta anos de idade viu sumir-se para sempre o seu querido enjeitado, pediu a Deus por ele, por si, e… morreu.