A Morgada de Romariz - Capítulo VII Novelas do Minho · Capítulo 23 de 29
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A Morgada de Romariz - Capítulo VII

Naquele tempo, Famalicão, às nove horas de uma noite de novembro, negrejava silenciosa e rodeada de pinheirais e carvalheiras. Aqueles palacetes brasonados com seus titulares campeam hoje onde então rebalsavam extensos nateiros de lama, a espaços habitados por cabaneiros. A quadrilha de Luís Meirinho podia manobrar sem temor e desassombradamente no centro da vila como nas Rodas do Marão.

Em uma de essas noites, o chefe, com uma dúzia de escolhidos, entrou na Congosta de Enxiras, onde morava Bento de Araújo. Ele, com mais dois, acercaram-se da porta; os outros, postaram se de atalaias nas extremidades da viela.

O pedreiro estava ainda sentado à lareira. Desde que lhe disseram que o filho pernoitava às vezes em casa do Meirinho, velava até ser dia claro. O receio de ser assaltado era tamanho que já três vezes, em noites tempestuosas, gritara à de el-rei. Os vizinhos, à primeira, acudiram vozeando das janelas com invulnerável intrepidez, e viram de essa feita que um porco vadio, atraído talvez pelo cheiro de pocilga, foçava contra a porta de Bento. Depois, ainda que ele gritasse, ninguém se mexia, atribuindo a porco as agressões incomodas ao avarento.

Foi o que aconteceu naquela noite de novembro. O pedreiro sentiu o abeirar-se gente da sua porta, e deu tento do raspar de ferro entre a hombreira e o batente. Gritou; mas parecia já gritar com os colmilhos apertados. A língua da fechadura estalou, e a porta foi diante de dois possantes ombros tão rapidamente que os homens, como duas catapultas, entraram de roldão, e só pararam filando-se à garganta do velho empedrado. Por entre eles, e à luz do canhoto que flamejava, o pedreiro viu lampejar o aço de uma navalha, e ouviu, através dos lenços com que os hospedes cobriam as caras, uma voz disfarçada:

—Se grita, você morre aqui já. Se quer viver, entregue as três mil peças que herdou, e ande depressa. Não nos conte lerias, nem faça lamurias. É decidir: o dinheiro ou a vida.

Bento erguera as mãos suplicantes, e pedira soluçante que o não matassem.

—Onde estão as três mil peças?—perguntou o Meirinho.

—As três mil peças?!—gaguejou o velho como tolamente espantado de que lhe perguntassem por três mil peças não tendo ele de seu três moedas de seis vinténs.

—Mate-se este diabo!—acrescentou o Meirinho—e vamos levantar o soalho.

—Eu não tenho aqui o dinheiro, meus senhores…—acudiu o pedreiro desfeito em lágrimas.

—Então, onde o tem você?

—Enterrei-o debaixo de uma fraga…

—Perto daqui? Avie-se.

—Não, senhor, muito perto não é. São três quartos de légua… em

Vermuim.

—Bem—concluiu o capitão.—Salte para diante de nós, e venha desenterrar o dinheiro. Mexa-se!

O homem sentiu certos alívios nesta mudança de situação como se expor a vida, salvando o dinheiro, lhe fosse uma considerável melhoria de fortuna.

A malta, precedida do velho, embrenhou-se nos matos, atravessou o outeiro que toca nas faldas da serra de Vermuim, e por S. Cosme do Vale trepou ao espinhaço de penhascos que lá chamam o Castelo.

—Você não vá aflito—dizia-lhe o Meirinho—por que há de ter o seu quinhão com que pode viver regaladamente. O necessário não se lhe tira; nós o que queremos é o que lhe sobeja. Somos honrados ou não, seu velhote?

E dava-lhe palmadas nos ombros.

—Sim, senhor—dizia o Bento, e recolhia-se a cismar na situação perigosa em que se via, e no modo de a esconjurar.

—Ande depressinha—tornava o chefe empurrando-o brandamente.

—Será bom ajudá-lo com alguns pontapés—alvitrava outro, receando que a manhã lhes viesse tolher a empresa.

Chegados ao cabeço da serra, espigado de rochas, disse o Meirinho:

—Cá estamos. Onde é a fraga?

—Não enxergo bem… Só quando for dia é que eu conheço o sítio—respondeu Bento.

—Temô-las arranjadas…—tornou o Meirinho com um sorriso agoureiro de más coisas.—Ó Freiamunde, petisca lume, e faze aí um archote de codêços para este tio ver onde está o arame.

—Parece-me que o melhor seria alumiá-lo com a luz da pólvora…—observou Freiamunde, bebendo alguns tragos de aguardente de uma cabaça que trazia a tiracolo.—Quer lá, capitão? Se lhe parece, dou dois goles ao velho como se faz aos perus…

—Tio Bento—insistiu Luís Meirinho—você acha a pedra ou não acha? O dinheiro ficará enterrado; mas você também fica de papo ao ar à espera que o enterrem. Veja lá no que ficamos; lembre-se que está tratando com homens de palavra.

No entretanto, um da companhia petiscara fogo, e comunicara o lume da mecha à manada de fetos secos apanhados de baixo de uma rocha que figurava um dólmen.

—Ali tem luz que farte—disse Luís.—Veja lá agora qual é a pedra, tio

Bento.

—Parece-me que é aquela…—respondeu ele a tiritar, já convencido de que estava chegado às últimas.

—Parece-lhe ou é?—insistiu raivoso o Meirinho.—Ande. Mostre lá o sítio. Ó Zé Landim, se for preciso desenterrar o morto serve-te da tua faca. Patrão, estamos às suas ordens, diga onde quer que se cave; a cova há de fazer-se ou para sair o dinheiro ou para entrar você.

Bento caíra sobre os joelhos como ferido de súbita apoplexia, e começou a gaguejar uns sons ininteligíveis.

—Este alma de dez diabos que está a mastigar?—disse Freiamunde.

Neste momento, o pai de Joaquim caiu de borco, batendo com a face na pedra; e, quando dois homens o levantaram de repelão e o viram à luz dos fetos, estava morto.

Este incidente nem levemente impressionou aqueles homens fortes. Ninguém fez a miníma reflexão acerca do lance em teatro tão lúgubre. Os mais preocupados bebiam aguardente a froixo, dizendo que o homem morrera de frio. Nem uma ideia filosófica, nem sequer um dito elegíaco! Luís Meirinho discorreu brevemente sobre a certeza de que o morto os tirara de casa para os desviar do lugar onde tinha o dinheiro. Decidiu que se aproveitasse o restante da noite, indo a casa revolver a terra quanto se pudesse; e, no caso de lá não aparecer o dinheiro, viriam na seguinte noite escavar debaixo da rocha, no Castelo.

Assim se fez. Bento de Araújo ficou deitado de costas sobre uma moita de codeços, com os braços hirtos e abertos em cruz, os punhos cerrados, e os olhos envidraçados de lágrimas. Ao alvorecer do dia, uma nuvem pardacenta, que ondolava pela crista da serra, rasgou-se em saraivada glacial, que lhe batia no rosto e saltava pelo peito nú e descarnado. Chovera e nevara depois, durante muitos dias. Nenhum pastor subira com o rebanho àquelas cumeadas, sempre escondidas na negridão da névoa, e perigosas se o lobo uiva faminto.

Quando o tempo estiou, quem denunciara o cadáver já disforme no rosto fora uma revoada de corvos que crucitavam pairando sobre os restos do seu banquete disputado às feras.

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