O Cego de Landim - Capítulo XI
Sete anos de glacial solidão giaram sobre a alma de Pinto Monteiro. As portas da sua casa raro se abriam. Concordemente se disse que o cego estava pobre pela terceira vez. Era verdade: estava pobre—vendia o restante das joias da mulher.
Às vezes entrava naquela casa a Narcisa do Bravo, sentava-se à mesa ainda abundante do padrinho, e matava a fome. A irmã do cego debulhava-se em pranto a confrontar aquela desgraçada de rosto empolado com esfoliações rubras à formosa noiva de Custódio da Carvalha, à gentil amazona por amor de quem alguns fidalgos de Guimarães terçaram as suas badines de caoutchouc na romaria de S. Torquato.
Sobre todas as famas repelentes, ganhara Narcisa, com legítimo direito, a de ladra, e ladra à mão armada. Os mais queixosos eram os que lhe colheram as flores já outoniças da beleza, e a rejeitaram com a brutalidade do tédio. Narcisa saía-lhes de rosto nas concavidades das congostas escuras, e abocava-lhes à cara uma pistola de dois canos; e eles, com um fingido sorriso de piedade desprezadora, atiravam-lhe a forçada esmola. Outras vezes, escalava as janelas das alcovas conhecidas, e entroixava os bragais como se inventariasse o espolio de um esposo Falecido. E temiam-na como a um celerado disposto a vender cara a vida, por que ela deixava entrever a coronha da pistola entre os atacadores do colete escarlate, e, se sofraldava as saias, quando saltava as poldras dos ribeiros, mostrava a faca de ponta atravessada na liga. Os regedores das freguesias que ela frequentava tinham ordem de a capturarem; mas o medo, predicado pacifico destes magistrados, era a ressalva de Narcisa.
O cego de Landim não ignorava a desastrosa saída de sua afilhada; conselhos, naquela extremidade, eram perdidos; censuras, a si próprio as fazia o cego por que encetara a perdição daquela moça, tirando-a da arribana de seu pai, para a criar nas regalias da abundância, sem vislumbres de religião, em plena liberdade de se viciar com as travessuras e gaiatices que lhe festejavam. Narcisa era talvez uma das polés que torturaram o cego nas impenetráveis agonias dos seus últimos seis anos.
Contava um rapazinho, criado de Pinto Monteiro, que ouvira, uma vez, sua ama dizer a Narcisa que ia mandar vender dois cobertores porque não havia dinheiro em casa; e que Narcisa lhe dissera que não vendesse os cobertores, por que ela ia vender a sua pistola por meia moeda. Não tenho outro lance generoso que possa referir de Narcisa do Bravo.
Quando este caso passou, entrava Antônio José Pinto Monteiro nos paroxismos da morte. A 28 de novembro de 1868, pelas dez horas da manhã, disse à irmã que lhe acendesse um cigarro, e abrisse as janelas, que sentia grande calor e ânsia. Sentou se no leito, e inspirou consoladoramente a coluna de ar frigidíssimo que lhe bateu no rosto, ao abrir da janela. Pediu uma chávena de café, e, enquanto a irmã o fazia, Narcisa veio para a beira do padrinho.
—Quem é?—perguntou o cego.
—Sou eu, padrinho. Está melhor?
—Vou estar melhor, filha. Isto vai acabar. Quando eu morrer, faze companhia à minha pobre irmã…
Narcisa chorava, beijando a mão do cego, que se estorcia nas dores da cistite. Ao cair da noite, a prostração, a febre, os soluços, e o frio das extremidades diagnosticavam a gangrena. No 1.^o de dezembro, o cego de Landim expirou reclinado ao seio de Narcisa, que se sentara no leito para o amparar nos derradeiros arrancos.
As suas últimas palavras, no delírio que precedeu a morte, encerram toda a moralidade desta biografia:
—Eu tinha três filhos que criei com tanto amor… Que é deles?…
E mais nada.
Os três filhos do cego de Landim afrontar-se-iam com o nome de seu pai? Para ter um peito amigo que o amparasse na agonia, foi mister que a sociedade remessasse para dentro da alcova do moribundo uma mulher perdida. Mas, lá ao longe, no Brasil, houve lágrimas saudosas no coração de uma filha. Pois quando é que Deus consentiu que uma filha as não chorasse… em um epitáfio?