A Morgada de Romariz - Capítulo IX Novelas do Minho · Capítulo 25 de 29
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A Morgada de Romariz - Capítulo IX

Hão de lebrar-se que Joaquim de Araújo tinha um filho, que aprendera em

S. Martinho do Vale o ofício de fogueteiro com o parente de sua mãe.

Aos vinte e seis anos, quando seu pai acabou, estava ele ainda na

companhia do velho benfeitor e mestre, ganhando alegremente o seu pão.

Falecido o parente, alguém lhe disse que ele tinha em Vila Nova de

Famalicão a casa, boa ou má, de seu avô, que ninguém lhe podia disputar.

Facilmente se habilitou herdeiro de Bento de Araújo e tomou posse do casebre, desabitado desde 1790. Às vezes os mendigos, nas noites quentes, levantavam a aldraba, que era um cavaco de castanho, e albergavam-se no sobrado podre, contando casos horrendos que ali passaram—o parricídio e o roubo. As covas estavam ainda abertas, e o desentulho em montículos de redor.

Silvestre de S. Martinho, o filho do Faísca, não usava dos paternos apelidos: do pai aproveitara somente a casa, transigindo com a honra o necessário sem prejuízo seu.

Apossado da casa, deu-lhe um jeito para poder habitá-la, e pendurou meia dúzia de foguetes e bombas reais à porta. Era habilidoso, principalmente para as bonecas de pólvora. Gabava-se de haver inventado o barbeiro a amolar navalhas na roda, e levara à perfeição da indecência a velha que despedia contra a cara combustível do barbeiro um repucho de chispas pela parte posterior, tudo com uma graça portuguesa que era um estoirar de riso o arraial!

Corria-lhe bem a vida, e já tinha casado com uma rapariga dura e trabalhadeira, quando o descuido de um aprendiz, na ausência dos patrões, deixou pegar o lume em um feixe de bombas. Houve explosão que sacudiu em estilhas o teto da casa, e abrasou todas as madeiras. Quando Silvestre voltou com a mulher da romagem da Santa Eufemia, nas terras da Maia, encontrou quatro paredes denegridas, e o interior da casa a fumegar, cheio da brilhante claridade da lua. O aprendiz, carbonizado, estava já na cova.

Tiveram compaixão do pobre fogueteiro os vilanovenses. Diziam-lhe que construísse uma cabana com as esmolas que lhe iam tirar pela freguesia; mas que a fizesse em outra parte, por que naquela casa, onde um filho matara seu pai para o roubar, pesava a maldição de Deus. Um vizinho comprava-lhe o terreno da casa amaldiçoada para acrescentar à sua; mas deixava-lhe a pedra que era boa para o fogueteiro edificar em outra parte. Silvestre aceitou, convencido de que o sangue de seu avô funestara para sempre aquele teatro do grande crime.

Recebido o terreno de esmola, principiou Silvestre a demolir as paredes da casa queimada. Fazia ele este serviço, com ajuda da mulher, em quanto o carreteiro ia carreando a pedra.

Às três da tarde de um sábado, o carreteiro, consoante o costume, despegara do serviço; mas Silvestre e a mulher continuaram a desfazer o último lance de parede que lhe restava, com o fim de na próxima segunda feira acabarem o trabalho da demolição. Observára o fogueteiro que este lado da parede quadrilátera era mais grossa um palmo que os outros que formavam o recinto, reintrando para o interior o excedente da grossura. Estava coberta de pasta de barro e caleada como as outras. Divisava-se ainda no barro gretado o risco traçado pelo atrito de qualquer corpo que se encostara à cal ainda fresca.

Por esta raspadura, conjeturou Silvestre que ali devia estar o banco da cama do avô, até porque ouvira dizer que parte do tesouro estivera enterrado debaixo da cama; e ele, quando tomara posse da casa, ainda vira a cova aberta, dois palmos distante daquela parede.

—A pedra aqui é mais larga—disse o fogueteiro à mulher.

—Agora é!—emendou ela—o que a faz parecer mais larga é a camada de barro; se não, olha.

E começou a picar ao longo da parede com a extremidade aguda da alavanca, e o barro, esboroando-se e desacamando a pedaços, deixava descobrir a superfície da pedra que não era mais grossa que a outra.

—Dizes bem, é isso—aprovou o marido.—Vamos apeando a parede por esse lado, que o barro ele se despegará.

E, dizendo, pegou de outra alavanca e começou a derribar as capas da parede, enquanto a mulher, para não estar com as mãos debaixo dos braços, ia descaliçar a camada barrenta. Quando atirava rijamente com a ponta da alavanca à parede, notou que o ferro batera e se cravara em pau.

—Aqui há madeira—disse ela.

—É alguma cascaria que tinha mão no barro—explicou Silvestre.

A mulher repetiu os golpes em diversos pontos na circunferência de dois palmos, e tirou sempre o mesmo som.

—Parece que bate em vão…—notou ela.

—O quê?!—acudiu o marido, descendo do andaime em que trabalhava.—Bate em vão! que dizes tu?!

—É o que te eu digo… Olha… Ouves?

—Ó mulher!—exclamou ele, cravando-lhe os olhos cheios de palpites que a língua não ousava formular.

E como nesse comenos passasse gente, e parasse a olhar para as ruínas, o fogueteiro fez um trejeito à mulher, que ela intendeu, calando-se.

—Ajunta a ferramenta, Maria, e vamos embora que já mal se enxerga—disse ele.

—Lá vai a casa do Bento pedreiro, Deus lhe fale em alma!—disse o mais ancião dos curiosos.—Que dinheirão aqui esteve neste pardieiro! Cinquenta e seis mil cruzados! Era o homem mais rico da vila e seu termo, e tanta necessidade passava aquele alma do diabo, Deus lhe perdoe, para a final o dinheiro ser repartido pela quadrilha do Luís Meirinho, que também o levou berzabum com duas balas que lhe meteram na barriga ali à ponte de S. Thiago!

—São fadários, tio Simeão!…—disse Silvestre.

—Você podia a esta hora estar rico como um porco, se tivesse outra casta de pai…—tornou o velho.

—Assim é; mas não o quis Deus. Desgraças…

—Ora faça você de conta que tinha achado aí o dinheirame do seu avô!

—Ainda venho a tempo!…

—Pois sim; mas faça de conta que o topava! Você que fazia, ó sôr

Silvestre?

—Eu sei cá, tio Simeão!

—Foguetes é que você não fazia mais! aposto dobrado contra singelo!

—Não falemos nisso… Foguetes é que eu hei de fazer toda a minha vida, e Deus me dê saúde para os fazer.

—Ámen; mas você, se se pilhava com as três mil peças, metia a vila toda em um chinelo, e pintava aí o diabo a quatro!

—Está enganado! não pintava nada… Comprava uns bemzinhos, e havia de trabalhar em eles, como trabalho nos foguetes.

—Vem daí, homem—disse Maria já aborrecida das impertinentes perguntas do Simeão que, encostado à sachola, parecia jubilar nas pachorrentas hipóteses, e nas delícias de coçar uma perna com a outra alternadamente.

Simeão foi seu caminho com os outros; e o fogueteiro e a mulher seguiram para casa; mas, assim que as portas e janelas se fecharam na rua, aí estavam eles outra vez sobre o cascalho, raspando com ferramentas pouco ruidosas a parede no espaço em que o som do vácuo respondia ao toque do ferro.

No termo de curta fadiga, tinham descoberto uma superfície liza de madeira, invasada na parede como a portada de um postigo. Facilmente desencaixilharam a tábua do invasamento de pedra, por que não tinha dobradiças nem outra firmeza além da que lhe dava a espessa camada de barro. Silvestre introduziu a mão, e topou um corpo frio.

—Que achas?—perguntou Maria ofegante com as mãos postas.

—É uma panela de ferro…—balbuciou ele.—Ó mulher!… tem mão em mim, que não sei o que me dá pela cabeça!…

—Nossa Senhora!—exclamou ela—Nossa Senhora!…

E, em vez de ter mão no homem, meteu ambos os braços até achar a panela, enquanto Silvestre abria e fechava a boca em trejeitos de tão estúpida felicidade, que só a suprema desgraça os poderá fazer iguais.

Nisto, a rija mocetona arrancava da lura o peso enorme de ouro; e, caindo de cocoras com o pote no regaço, exclamou sufocada:

—Ai Jesus! que eu morro de alegria!…

Sivestre apertava o ventre com as mãos. Esta postura não é ridícula nem inverossímil para os que sabem que os intestinos quase nunca são estranhos às comoções grandes.

Aos primeiros assomos da seguinte aurora, a parede estava arrasada. Os vizinhos ouviram o ruido da assolação, e cuidaram que a derribara um pegão de vento.

Mas, na próxima semana, a obra da casa nova parara. O fogueteiro dizia aos seus benfeitores que ia mudar de terra, e talvez mudar de vida

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