O Cego de Landim - Capítulo IV Novelas do Minho · Capítulo 8 de 29
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O Cego de Landim - Capítulo IV

Em setembro de 1840 apareceu em Landim Pinto Monteiro e o seu chamado guarda-livros. Acompanhava-os a açoriana, intitulada honorificamente esposa do cego. Era uma mulher desnalgada, sardenta, ruiva, alta e possante, com bretoejas rosáceas na testa, e um caracol de barba no queixo inferior. Galhardeava moírées, calçava botas verdes, e trazia uns merinaques que rugiam como as cavernas dos ventos.

Pinto Monteiro alugou casa enquanto reedificava outra sobre o casebre de seus pais. O guarda-livros dizia com certo resguardo que o patrão era muito rico. Convergiram logo das freguesias circunvizinhas bastantes cavalheiros a visitá-lo, uns porque haviam sido seus condiscípulos na escola, outros por parentesco não remoto.

O cego banqueteava os seus hospedes com iguarias incógnitas apimentadas por cozinheiras negras. Os comensais, gente saturada de vegetais e milho, comiam à tripa fôrra, e levavam em si daquela mesa lauta raras indigestões, muitas saudades e cópia de vinhos. O cego tinha uma irmã dez anos mais nova, que surgiu com bandós, dom e espartilhos dentre um balão da cunhada. Falou-se do casamento da moça, dotada pelo irmão com dez contos. Os morgados já corveteavam os seus potros por Landim, e de longes terras vinham propostas de casamento, por intermédio de padres e beatas. A rapariga, que eu conheci a encanecer na decadência dos cinzenta anos, devia ter sido uma trigueira sanguínea com as mordentes graças das sobrancelhas travadas, e negras como a penugem do bigode.

Pinto Monteiro passava temporadas no Porto com Amaro Faial. Era ali que ele cumpria a mensagem a que fora enviado pelo chefe da polícia fluminense. Viera, sob condições estipuladas, relacionar-se com os exportadores de moeda-falsa, e estatuir, de harmonia com os interessados, bazés orgânicas e auspiciosas para negócio menos precário. O resultado, previsto pelo cego e aplaudido por Fortunato de Brito, era a polícia conhecer no império brasileiro os cúmplices dos agentes que residiam no Porto, e, de uma vez para sempre, abranger em rede varredoira os principais.

Conseguira captar a confiança dos dois gravadores mais habilidosos e conhecidos além-mar; mas um deles, Coutinho, o ancião que eu vi morrer na enfermaria da Relação em 1861, não delatou as pessoas com quem negociava, posto que o cego lhe garantisse uma velhice abastada nos confortos da honra. O outro artista, que morreu rico, apesar de se ter remido da cadeia à custa de dezenas de contos, também não denunciou os seus fregueses; mas convidou o cego a mercar-lhe au rabais uns cinquenta contos, resto da última edição.

E o cego comprou-os.

Em 1841, a hospedaria dileta dos brasileiros de profissão (distingam-se assim dos brasileiros do Brasil) era a do Estanislau na Batalha. Ali havia a sem cerimônia do chinelo de liga à mesa-redonda; os colarinhos arregaçados deixavam arejar as pescoceiras rorejantes de suor, que se limpavam aos guardanapos; cada qual podia comer o arroz com a faca e o talharim com o garfo; a laranja era descascada à unha, e os caroços das azeitonas podiam ser cuspidos na mesa, bem como as esquirolas do pernil do porco desentaladas a palito das luras dos queixais. E era até de direito comum cada qual caçar de guet-apens a importuna mosca na cara e decapitá-la publicamente. Estava-se ali à vontade, como nos jantares de Peleu e Patroclo, com um grande estridor de mastigação e arrotos.

O cego hospedava-se no Estanislau, e dizia ao secretário:

—Estamos com a nossa gente, Amaro amigo.

A idade, a compostura e o Palavreado, com a reputação de rico, deram-lhe na mesa o lugar mais autorizado. Os brasileiros, vindos do Rio, conheciam aquela figura; alguns sabiam que o homem se tinha arranjado com expedientes misteriosos; mas isto mesmo era qualidade meritória e relevante no comensal. Rosnava-se de moeda-falsa; até alguém teve a ousadia de repetir o boato corrente ao guarda-livros. Amaro Faial deu aos ombros, sorrindo, e disse:

—A moeda-falsa é comércio como qualquer outro, com vantagens em proporção dos riscos. Negócio execrando só conheço um: é o da escravatura. Há também uns negócios que, depois de muitos anos de estafa, não deixam nada: esses chamam-se negócios tolos. Assevero lhes que a riqueza do sr. Pinto Monteiro não se fez com a escravaria.

Estava lançado o dardo. Esta franqueza deu margem a discussões, nas quais o cego e o Faial descobriram entre os contendores os menos escrupulosos. Volvidos alguns dias, Pinto Monteiro tinha vendido os cinquenta contos de notas a um brasileiro da Maia, e era encarregado de agenciar cem contos para outros que o primeiro aliciara. Nesta transação cobrara o cego percentagem, e pedira sociedade no quinto dos interesses, com a cláusula de dirigir no império a circulação da moeda-papel. Pactuaram a viagem para julho daquele ano. Pinto Monteiro convencionou acompanhá-los, a fim de liquidar o restante dos seus haveres, dar impulso ao negócio e vir depois descansar na pátria.

Depois de uma demora de dois meses, Pinto Monteiro recebeu no Porto a infausta nova de que a açoriana, cativa das negaças de um espanhol operador da catarata, fugira com ele para a Galiza. Bacorejou-lhe ao cego que estava roubado, e o palpite funesto realizou-se.

A quantia devia ser valiosa, por que o traído amante suspendeu as obras começadas e desfez contratos apalavrados de compras. Ficou na memória dos contemporâneos a respeito da pérfida, uma palavra do cego, significativa de sua índole:

—Se o espanhol levasse a mulher e me não levasse o dinheiro, penhorava-me bastante. Como me tirou as cataratas do coração, pagou-se por suas mãos o patife!

A opinião pública de Landim irritou-se quando soube que a fugitiva era simplesmente manceba do cego. A moral exigia que ele fosse marido, para não se desvaliarem os quilates do escândalo.

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