A Morgada de Romariz - Capítulo XI Novelas do Minho · Capítulo 27 de 29
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A Morgada de Romariz - Capítulo XI

José Hipólito criara protetores esperançados no bom exito da tentativa. Os inimigos políticos de Silvestre de Romariz coadjuvaram-no a tiral a judicialmente.

O juiz prestou se a interrogar a morgada, visto que ela não podia requerer por seu pulso. Supridas legalmente as formalidades, Felizarda foi depositada em Barcelos, no seio da família Alvarães.

Trava-se então a luta nos tribunais. O pretensor, mal dirigido pelo seu advogado, responde com retaliações pungentíssimas a insultos que o argentário lhe dirige ao seu nascimento obscuro e à sua pobreza. A pugna passara a ser um assanhado pugilato dos dois causídicos.

Um dos membros da família Alvarães era moço, chamava-se José Francisco, e estudava o quinto ano de latim a ver se aprendia o necessário para cônego da colegiada barcelense. Tinha quatro reprovações conscienciosas em Braga; mas ao quinto ano já distinguia o verbo do complemento objectivo, e traduzia com poucos erros a Ladainha.

A família Alvarães era antiga e abastada; contava muitos frades bernardos na prosápia, e um governador em uma praça da Azia, donde trouxera navios de especiarias que formaram o casco da riqueza. A casa tinha pedra de armas, e uma liteira brasonada que antigamente ia a Alcobaça buscar os frades a rusticar nas pescarias do Cavado, e a encher as roscas da caluga balofas pela inércia do claustro.

José Francisco, o estudante, era sanguíneo, nédio, com as maçãs do rosto vermelhas, e os olhos enfronhados nas pálpebras sonolentas. Felizarda, a noiva depositada, pareceu-lhe bem, ao passo que o amanuense da câmara lhe era um antipático bandalho, desde que em plena praça o enxovalhara perguntando-lhe, no terceiro ano de latim, o acusativo de Asinus. Opusera-se José Francisco à recepção da morgada para haver de casar com José Hipólito, filho do Manuel Colchoeiro; mas força maior obrigara os Alvarães a protegerem o amanuense.

Às vezes, o futuro cônego pasmava-se a contemplar Felizarda, e sentia em si as suaves dores da natureza em parto do primeiro amor. Se ela, a morgada, olhava para ele a fito, produzia-lhe no rosto o efeito do sol que aponta em dia de calma—avermelhava-o até aos glóbulos das orelhas; e José coçava-se a disfarçar, ou esbofeteava as moscas que lhe passeavam sobre a epiderme oleosa, e faziam titilações incomodas nas fossas nasais.

A morgada achava-o bonito, e dizia às irmãs que era pena fazerem-no padre. José, quando soube isto, criou umas esperanças que o tresnoitavam, e tinha as sentimentalidades doloridas de Jocelin, e de um ou outro clérigo de Barcelos que deixava vingar-se a natureza.

Procuràva José Francisco Alvarães modos de conversar com Silvestre de

Romariz, e contava-lhe o que a filha dizia a respeito do Hipólito.

Levava à depositada cartas do pai, e lia-lhas às escondidas da família.

O amanuense suspeitara-o, e tratava de remover o depósito, alegando

subornos que a lei não facultava.

Ora, em aquelas confidentes leituras, estabelecera se intimidade bastante entre a morgada e o interprete das lástimas de seu pai. de uma vez que Felizarda enxugava as lágrimas, ouvindo ler o adeus que o pai enfermo lhe enviava, José Francisco, transportado em um rapto inconsciente de entusiasmo, pegou-lhe da mão e disse com ternissima meiguice:

—Não case contra vontade de seu pai… Tenha pena dele, que está tão acabadinho…

A morgada pôs-se a torcer e a destorcer o seu lenço branco, e a lamber uma lágrima que lhe pruía no beiço superior; mas não respondeu.

Alvarães foi contar isto ao velho. Silvestre pegou do processo que o seu advogado lhe enviara, e disse-lhe:

—Faça-me o sr. Josezinho o favor de levar estes autos, e ler a minha filha o que o tal patife, que quer ser seu marido, aqui diz de seu pai; leia-lhe isto, e veja o que ela diz.

O leitor já sabe, por eu lho haver dito nas primeiras páginas deste livrinho, que o indiscreto amanuense consentira que se escrevesse que o pai de Silvestre fora salteador de estradas, e que o pai de Felizarda exercitara o baixo mester de fogueteiro em Famalicão.

Tudo isto era expendido na tréplica de José Hipólito com grande lardo de zombarias e sarcasmos em estilo picaresco. A morgada ouviu ler as injúrias entoadas com veemência por José Francisco, que as declamou como se estivesse traduzindo um período de Eutropio.

Concluída a leitura, Felizarda, antes que o leitor a interrogasse com os olhos, exclamou:

—Quero ir para casa de meu pai, e há de ser já. O Josezinho vai comigo.

Mande dizer a meu pai que me mande a burra.

José foi dar parte à família da súbita resolução da morgada; o depositário foi dar parte ao juiz, e o juiz respondeu que a lei não podia empecer à vontade da depositada. Quando estas altercações chegaram à notícia de José Hipólito, a filha de Silvestre ia já caminho de casa, acompanhada pelo estudante e pelas irmãs.

O pai e a mãe receberam-na nos braços, ofegantes de júbilo, a pedir-lhes perdão da sua doudice. Silvestre abraçava José Francisco Alvarães, chamando-lhe o salvador da sua filha e da sua honra. A santa mãe de Felizarda olhava para o estudante com os olhos cheios de riso, e dizia:

—Não queira ser padre, sr. Josezinho… Olhe que o meu homem já disse que se vossa senhoria quisesse a nossa rapariga, que lha dava, e eu também.

José olhou estupefacto para o velho; Silvestre intendeu o espanto, e disse-lhe:

—Não olhe para mim, que eu não sou o que caso; olhe para a minha filha, e veja o que ela diz. Felizarda, queres casar com o sr. José Francisco?

—Se o pai quiser… também eu.—E escondeu o rosto no seio da mãe com umas visagens que pareciam de entremez; mas que eram da maior naturalidade.

As irmãs de José Francisco rodearam-na e beijaram-na sofregamente, em quanto o noivo, alumiado por aquele improviso e inesperado lampejo de felicidade, achou no coração estas frases que balbuciou, abeirando-se da morgada:

—Se a menina casasse com o outro, eu acho que morria de paixão, e mais nunca lho disse.

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