O Cego de Landim - Capítulo X Novelas do Minho · Capítulo 14 de 29
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O Cego de Landim - Capítulo X

Aquilo foi depressa. O fervor reciproco dos noivos, e o preceito do poeta pagão que manda não adiar os prazeres, abreviaram quanto possível a identificação das duas almas. O reitor, que os recebeu, era um padre bom e jovial que até a estes noivos disse o que dizia a todos: «Eu espero o vosso primeiro filho daqui a nove meses.» A noiva entreabriu à flor dos beiços um hipotético sorriso de pudor; o cego, porém, ferido na infecundidade da esposa, disse, carregando o semblante:

—Neste ato, sr. reitor, são improprias as chalaças.

O padre, querendo emendar eruditamente a inadvertência, respondeu:

—As santas escrituras falam de Sarã…

—Eu não sou Abraão—replicou o cego, voltando-lhe as costas.

Reverdeceram os contentamentos da mesa lauta e das íntimas palestras ao fogão. D. Tecla Monteiro confessava que nunca tão felizes lhe derivaram os dias da existência. O cego sentia se docemente ameigado e bem, com o rosto no regaço da esposa. Saboreava os santos aconchegos da companheira canônica. Recendia-lhe o ninho dos seus amores lícitos um patriarchismo anterior ao sacramento do matrimônio, é verdade, mas puro como os conúbios de Jacob e Lia, de Ruth e Booz. Ela não o idolatrava com o maior frenesi, mas aquecia-lhe no inverno os lenções com botijas, e de manhã levava-lhe uma chávena de sagú, que pessoalmente cozinhava com todos os primores de uma vocação especial para os mingáos.

Na venda das propriedades liquidara Monteiro menos do seu valor; mas ainda assim não desceu de vinte contos de réis o dote da esposa. Parte deste capital empregou-o em uma quinta no Alto-Douro, outra parte na reincidência de pleitos que havia perdido, e o restante nas opulências da mesa, e nas liberalidades com os renovados amigos. Do mesmo passo que a opinião pública encarecia a velhacaria do cego, formava-se uma confederação de sujeitos que lhe exploravam a perdularia generosidade. Emprestava facilmente dinheiro, e não negava esmola, nem se desculpava com a falta de cobres. «Tal desculpa seria boa,—dizia ele—se os mendigos se ofendessem com as pratas.» E também dizia: «Ninguém dá esmolas mais às escondidas do que eu, porque nem vejo as pessoas a quem as dou!» Triste gracejo proferido por um cego.

Pinto Monteiro, que tanto refinara em astucias, no último quartel da vida, deixava-se enganar por qualquer velhaco montezinho. A quinta do Alto Douro, comprada por seis contos de réis, foi uma venda fraudulenta: a propriedade estava hipotecada à fazenda nacional, e o vendedor, apresentando títulos falsos, recebeu o dinheiro no Porto, e fugiu. Os convivas do cego rejubilavam a cada arremesso novo que a desfortuna lhe dava para a pobreza, e as pessoas contemplativas observavam às incrédulas que o enorme delinquente estava sofrendo retaliações providenciais. É de crer que sim.

Lance admirável! Pinto Monteiro mantinha serenidade socrática e impertérrita a cada lançada que lhe resvalava na rodela da filosofia. Se a irmã ou a esposa choravam, e ele dava tento disso, dizia-lhes: «É uma vergonha chorar quando a vida é tão curta! As dores são um sonho mau de que se acorda na sepultura.»

Ao sentir desfibrar-se-lhe a corda tenaz da paciência, digna de um cristão, emborcava garrafas de genebra, e fumava sempre até cair marasmado pelo álcool e pela nicotina; mas, se antes da prostração, se exaltava em desvarios de ébrio, as frases refloreciam os raptos de eloquência que aos vinte e cinco anos o arrebatavam nos clubs fluminenses. Nestas ocasiões, projetava ir ao parlamento, e ensaiava discursos tão bonitos que pareciam ser decorados no «Diário das Câmaras.» Às vezes pedia à mulher e à irmã que lhe fizessem «apartes» para o picarem. A boa de D. Tecla dava-lhe para se rir, ou pedia-lhe amorosamente que se deitasse—pedido que a gente não pode fazer a todos os oradores parlamentares.

Nestas intermitências, quase sempre risonhas, se passavam os dias e boa parte das noites naquela murmurosa casa de Landim. D. Tecla desmentira os vaticínios que a deploravam, esbulhada do dote e abandonada à piedade do Asilo das velhas do Camarão. Não teve uma hora de tristeza esta senhora; nem se quer ligeira borrasca de ciúme, em sete anos de casada, lhe nublou as suas alegrias de esposa leal. Às setenta e seis primaveras seguiu-se um inverno rigoroso de catarrais e gota, com perturbações no aparelho digestivo, timpanites e cólicas flatulentas. A morte arrebatou-a em dezembro de 1861 dos braços do marido que, pela primeira vez na sua vida, chorou.

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