O Cego de Landim - Capítulo II
Nascera em Landim em 11 de dezembro de 1808.
1808! Os biógrafos portugueses, se escrevem de pessoa nascida naquela data ou por perto, relatam-nos derramadamente a revolução francesa a começar em Luís XVI, exibem a guerra peninsular, e concluem o curso de história moderna ligando fatidicamente à evolução social o nascimento daquele sujeito.
No ano 1808, uma das muitas pessoas que nasceram sem pesarem um escrópulo, pelo peso velho, na balança dos lusos destinos, foi aquele Antônio José Pinto Monteiro.
Seu pai barbeava em Landim com ferocidade impune. A espada de Afonso Henriques e as navalhas dele tem tradições sanguinárias. Ainda hoje, transcorridos setenta anos, os netos dos seus fregueses parece que herdaram a sensação dos gilvazes dos avós. Em Landim fala-se dele como de Torrequemada em Valhadolid. Aquele barbeiro é uma lenda como a de Gerião, assassinado por Hércules, e a do monstro de Rhodes cantado por Schiller.
Antônio, o primogênito deste esfolador, estudou primeiras letras com rara esperteza. Aos onze anos, era prodígio em taboada e bastardinho. Aos doze, imitava firmas com perfeição despremiada, e vingava-se do menospreço em que o estado o esquecia, estabelecendo correspondências entre pessoas que não se correspondiam, mediante as quais, uma vez por outra, agenciava alguns pintos.
Como talentos tais não se atabafam muito tempo debaixo do alqueire, o rapaz Sofreu algumas contusões. Um monge beneditino de S. Tirso compadeceu-se do moço, em tão verdes anos perdido, à conta da sua habilidade funesta: pagou-lhe passagem para o Brasil, porque sabia que os ares de Santa Cruz são como os do Éden para refazer inocentes.
Empregou-se como caixeiro no Rio. Foi estimado nos primeiros três anos. Estremava-se dos seus broncos patrícios no dom da palavra, nas lerias aos fregueses, nos ardis lícitos do balcão, nas ladroíces consuetudinárias que afirmam a vocação pronunciada, as quais, no calão da óptica mercantil, se chamam: «lume no olho.» Nas horas feriadas, lia aplicadamente e tangia violão. A sua especialidade literária era a eloquência tribunícia. Estudara francês para ler Mirabeau e Danton. Enchera-se deles, e ensaiava republicas federalistas com os caixeiros, pedindo cabeças de reis a uns pobres parvajolas que suspiravam apenas por cabeças de gorazes.
Os patrões não farejaram um acabado Robespierre no caixeiro; mas, como desconhecessem a vantagem da apoteose dos girondinos em uma loja de molhados, expulsaram-no como republicano.
Pinto Monteiro intrometeu-se na política brasileira, iniciou-se na maçonaria em 1830, fez discursos vermelhos contra o imperador e escreveu clandestinamente. Esteve assim na fronteira do país prometido aos eternos Paturots. É indeterminável o estádio que ele ganharia, se um militar imperialista lhe não cortasse o rosto com um latego. Uma das tagantadas contundiu-lhe os olhos. Pinto Monteiro cegou.