O Cego de Landim - Capítulo IX Novelas do Minho · Capítulo 13 de 29
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O Cego de Landim - Capítulo IX

Os dois prédios que a viúva possuía na rua da Quitanda valiam quarenta contos de réis fracos; as suas joias, dádivas de três maridos, eram muitas e nem todas de pedras falsas. A idade da viúva animava um quarto marido, na hipótese de caber a esse quarto a vez de a ver fugir para o céu a ela. O certo é que andavam já dois empregados da fazenda e outros tantos da administração a expiarem o ensejo de lhe seduzirem a inexperiência, quando a viram ir impertigada em umas andilhas, caminho de Landim, a chotar, e a rir-se dos solavancos do macho.

Os pretendentes pegaram de gritar contra o cego, assacando-lhe o rapto e a coação da viúva. O juiz de direito viu-se forçado a deferir ao requerimento de um curioso que pedia uma visita domiciliaria ao cárcere privado de D. Joana Tecla Alves. Efetivamente a hospeda de Pinto Monteiro foi interrogada em presença de testemunhas, se estava naquela casa por sua livre vontade, não coagida nem seduzida.

Respondeu que estava muito contente, e que podia estar onde quisesse.

O juiz concordou.

Algumas cartas amorosas em papel perfumado lhe enviou o mais galan dos funcionários de Famalicão. Joana Tecla relia as cartas com secretas delícias; mas, no exterior, fingia-se de uma isenção que faria envergonhar Artemisa, viúva de Mausólo e as combustíveis viúvas do Malabar. Perguntava à sua amiga Neves quem era o tolo que lhe escrevia; e, rindo com a garridice arisca dos dezesseis anos, dizia que seria grande pagode mangar com ele, respondendo-lhe às cartas.

A mana do cego segredava ao irmão:

—Olha que a velha é tola, mano Antônio; trata de cortar os voadouros à cegonha: senão, hás de vê-la voar aos braços do quarto marido.

—O quarto marido hei de ser eu!—disse o cego com uma visagem de mártir voluntario—Hei de ser eu o quarto marido—repetiu ele, tragando um copo de rum para ganhar alma—porque a ter de entrar nesta casa o espectro da miséria, é melhor que entre Joana Tecla. Não me lembra como se chamava um cego que dava graças a Deus porque não podia ver um certo tirano; eu também as dou, porque não posso ver a minha noiva.—E enchia o copo esvaziado, mascava o charuto, e fazia com as duas pernas um curso de geometria—Sacrifico-me a ti e a meus filhos. Vou ser o bode expiatório das minhas e vossas prodigalidades; mas levo a certeza de que ela ao menos me será esposa fiel—o que é raro antes dos setenta anos. O seu terceiro defunto disse-me que Tecla era uma paz de alma, bruta sim, mas boa. Emfim, mana, sonda-ma; vê se lhe achas vontade de casar quarta vez.

—Tomara ela!—acudiu a irmã—Está sempre a dizer: «Isto de mulher sem homem é como peixe fora de água.» Põe papelotes todas as noites, e faz caracoes quando se ergue. Que quer isto dizer? Queres que eu lhe toque no casamento contigo?

—Toca; que eu começo hoje a fazer-lhe a corte.

Na tarde desse dia, passeava Monteiro, debaixo da parreira do seu quintal, pelo braço da viúva. As calhandras e os pintassilgos trilavam os seus requebros às margens do rio Pele. As rãs coaxavam nas poças, e as auras ciciavam na ramaria dos álamos. Era uma tarde de tirar amores do olho de uma couve lombarda.

Passeavam silenciosos, quando ao longe, no pinhal do mosteiro, cantou um cuco.

—Olhe o cuquinho a cantar!—disse ela com meiguice.

—Gosta de ouvir o cuco, sr.^a D. Tecla?—perguntou o cego.

—Eu gosto de toda a passarinhada—respondeu ela com as denguices infantis da Lili de Goethe.

—O cuco é pássaro de mau agoiro!—tornou ele—Eu, com medo de tal ave, não quis casar.

Tecla riu-se descompassadamente, provando que conhecia a linguagem simbólica da ave agoureira. E o cego, nesta entreaberta de galhofa, beliscou-lhe a polpa do braço esquerdo.

—Ai!—exclamou ela—Isto que foi?!

—Não se ria assim das fraquezas do próximo, Joaninha!—respondeu o cego, dando ao beliscão o ar inocente de um gracejo familiar—Eu não quis casar nunca porque o meu coração nunca sentiu ao perto nem ao longe a mulher digna dele. Cheguei aos cinquenta e dois anos, pode-se dizer, sem ouvir a este coração as palpitações que estou agora ouvindo. É a primeira vez…—e estreitava-lhe o braço contra o lado esquerdo com umas pressões trêmulas—é a primeira vez que amo; porque é esta a primeira vez que encontro a mulher, a esposa digna da minha ternura. Que me responde, Tecla? não me responde, prenda adorada?—instava ele sacudindo-lhe a mão com transporte.

A viúva inclinou a face para o seio, deixou-se apertar com o indolente abandono de suas faculdades sensitivas, esteve impando como quem suspira a custo, e murmurou:

—De vagar se vai ao longe, sr. Monteiro.

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