A Morgada de Romariz - Capítulo V Novelas do Minho · Capítulo 21 de 29
Obra Menu

A Morgada de Romariz - Capítulo V

Poucos dias depois, o juiz de fora de Barcelos incumbia ao ordinário do julgado de Vermuim a prisão do desertor Joaquim da Costa Araújo, de alcunha o Faísca. A gente mais grada de Famalicão, convencida da riqueza do avarento sem entranhas, advogou a favor do infeliz moço, rodeando o pedreiro com rogos e até com insultos e ameaças. O pedreiro, assustado, foi ter-se com seu compadre o coronel Lobo da Igreja Velha; e, bem aconselhado pelo fidalgo, cujo credor era, deu o dinheiro necessário para abafar o processo militar, comprar a baixa e substituir a praça no regimento.

Em seguida, quando se viu esbulhado das economias que amealhara antes de herdar as três mil peças, entrou-se de tamanha paixão—espicassaram-no tantas saudades do seu dinheiro, que morreria abafado, se não desafogasse no ódio ao filho. As vinte e quatro moedas de ouro que lhe custara a liberdade de Joaquim, representavam fomes e sedes, desconfortos de frio em noites de inverno, muitos suores em dias de estio no trabalho da serra a horas de sesta. E lembrava-se com bastante remorso que sua mulher padecera sem cirurgião e morrera sem botica, e fora indigentemente enterrada, tudo isto assim desgraçado e infame, porque ele não quisera bolir em aquelas vinte e quatro moedas.

No entanto, Joaquim, bem que muito grato ao pai, não se mostrou tão penhorado que prescindisse de o julgar obrigado a dar-lhe modo de vida. O velho mostrou-lhe um ferro de monte, um pico, um camartelo, e disse-lhe:

—Se queres modo de vida, segue o meu. Anda daí brocar uma fraga, e saberás quanto me custaram a ganhar as minhas vinte e quatro…—E, ficando entalado, esfregava os olhos debruados de roxo com o encodeado canhão da jaqueta.

O filho não se compadecia daquelas lágrimas; antes se sentia bravejar de condição com remoques e até com ódio à avareza do pai. Mau foi convencer-se Joaquim da herança, e supor que o velho podia morrer sem testamento nem declaração do escondrijo do tesouro.

Debalde lhe espiava os movimentos, os olhares, as caminhadas no monte, afim de farejar a lota das três mil peças. Bento de Araújo ia frequentemente quebrar esteios de pedra nos penhascais de Vermuim e vendia-os aos lavradores para especar parreiras. As desconfianças do filho seguiam o velho entre fragoedos, chamados o Castelo; e o pai, que se julgou espreitado, alegrava-se secretamente, e não se mostrava ofendido.

Entretanto, continuara Joaquim a sua velha afeição a Rosa de S. Martinho; e, confiando que a fama da riqueza do pedreiro seria bastante a que o abastado lavrador, esperançado na herança, lhe cedesse a filha, pediu-a afoitamente; mas o pai de Rosa tinha mediana confiança em sapatos de defunto, e disse que só daria sua filha, se o noivo trouxesse mil cruzados em dinheiro ou terras. O moço namorado abriu de novo o seu peito ao pai, que parecia apertar os cordões da bolsa à medida que o coração do rapaz se abria. Joaquim, bem aconselhado pelo seu amor, socorreu-se do padrinho, o coronel da Igreja Velha, pedindo-lhe que movesse o velho a dotá-lo.

Era o fidalgo a única pessoa que exercia influência em Bento de Araújo, e tamanha que pudera arrancar-lhe alguns mil cruzados a juros, sob juramento de não dizer a alguém que lhos devia. Mandou-o chamar, e aconselhou-o a que desse dote a Joaquim. Avultou lhe as funestas consequências da sua teimosia em querer passar por pobre, quando toda a gente estava convencida do contrário; pintou-lhe os perigos em que ele punha o filho sem ofício que o salvasse da camaradagem de vadios suspeitos com quem patuscava nas tavernas da Lagoncinha e outros lugares infamados. A final, como o velho insistisse desaforadamente em dizer que não tinha senão o dinheiro que seu compadre lhe devia, o coronel rendeu o com esta honrada deliberação:

—Pois bem: tudo se arranja, querendo Deus e tu. Devo-te três mil cruzados; não tos posso pagar, enquanto algum dos meus filhos não trouxer esposa com dote; mas irei tirar quatrocentos mil réis a juro em alguma Confraria, e esse dinheiro vais tu dá-lo a teu filho para casar com a rapariga, que é de boa gente, e há de ter dobrado ou mais do que ele tem.

As últimas palavras de Bento, nesta pendencia, definem cabalmente a sua natureza. Quando o compadre lhe disse:

—Tu virás de hoje a oito dias receber os quatrocentos mil réis para os dares ao teu Joaquim no ato da escritura de casamento—Bento acudiu impetuosamente:

—Eu não quero ver o meu dinheiro! Arranje v. s.^a cá isso, de modo que eu não veja o meu dinheiro!…

Ele sabia que, no ato da contagem dos mil cruzados, seria capaz de agarrar a sacã e fugir com ela do escritório do tabelião.

Assim mesmo, o pedreiro, se tinha muitas maldades de avarento, possuía também algumas Belas qualidades de pai; e uma, digna de bastante memória, é que, tendo ele em casa arsênico para matar os ratos, não o administrou ao filho.

1/1
Menu

Fazer anotação