O Cego de Landim - Capítulo V Novelas do Minho · Capítulo 9 de 29
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O Cego de Landim - Capítulo V

No mês aprasado, Pinto Monteiro regressou ao Rio de Janeiro, acompanhado de sua irmã D. Ana das Neves. Embarcaram no Porto com ele os amigos e sócios granjeados no hotel. O brasileiro da Maia, comprador dos cinquenta contos, levava algumas pipas de vinho verde, e uma destas vasilhas havia sido fabricada, conforme o modelo que dera o cego, e sob a fiscalização de Amaro Faial. No reverso das quatro aduelas do bojo pregaram um quadrado de madeira com chanfradura onde invasasse o rebordo de um caixote de flandres; a pregagem do quadrado ficava oculta debaixo de quatro dos arcos de ferro. O caixote continha duzentos contos em notas brasileiras, e era estanhado nas junturas de modo que o liquido as não penetrasse, através de uma grossa capa de chumbo.

Chegados ao Rio, a carregação entrou nos armazéns da alfandega, e Pinto Moreira com a sua família hospedou-se em casa de Fortunato de Brito. Ao apontar o dia seguinte, os passageiros delatados pelo cego eram presos; a pipa despejada e desfeita; e o caixote das notas conduzido ao tribunal para se lavrar auto. Os quatro portugueses morreram no degredo, perdidos os haveres que já tinham adquirido honradamente. Pinto Monteiro recebeu dez contos de réis, os 5% estipulados e deduzidos da preza.

O leitor vai descobrindo que eu não estou escrevendo um romance. Consta me que, no Rio, os homens que já o eram há trinta anos, recordam estes fatos com algumas miudezas que não pude obter nem já agora inventarei. Os meus apontamentos são exatíssimos no sumário das excentricidades do cego; mas escassos dos pormenores que eu rigorosamente quisera não omitir.

Aqui me contam eles os amores da morena filha de Landim com o chefe da polícia. Este episódio poderia ser o esmalte do meu livrinho, se em um chefe de polícia coubessem cenas de amor brasileiro, mórbidas e sonolentas, como tão languidamente as derrete o sr. J. de Alencar. Em país de tanto passarinho, tantíssimas flores a recenderem cheiros vários, cascatas e lagos, um céu estrelado de bananas, uma linguagem a suspirar mimices de sotaque, com isto, e com uma rede—ou duas por causa da moral—a bamboarem-se entre dois coqueiros, eu metia nelas o chefe da polícia e a irmã do cego, um sabiá por cima, um papagaio de um lado, um saguí do outro, e veriam que meigas moquenquices, que arrulhar de rolas eu não estilava desta pena de ferro! Mas eu não sei se me acreditariam coisas tão peregrinas entre o virginal Fortunato, chefe da polícia, e ela, a menina Neves que já havia colhido as boninas de vinte e nove primaveras nas florestas do seu Minho, onde a maroteira é pre-histórica.

Amores e desventuras de pior natureza nos levam a outro incidente, e aí veremos que Pinto Monteiro fareja todos os latíbulos em que se acoite algum crime, e não consente que a corrupção do século XIX ponha pé em ramo verde no novo mundo.

Certa carioca, esposa de um João Tinoco, português, fizera assassinar com veneno o marido por um escravo: mas com tal resguardo que o conjugicídio não escoou dos muros da chácara onde ela impunemente se dava às delícias de Agripina. Isto de chamar Agripina à viúva de João Tinoco é excesso de erudição. Ela não tinha ideia nenhuma de ser posta em paralelo histórico com a envenenadora de Cláudio; o que ela queria era que a deixassem gostar as alegrias da viuvez de um marido que entrara em casa de seu pai como aguadeiro; e, exaltado a esposo, a quisera forçar a fidelidades incombináveis com o clima, desenvolvendo de mais a mais um excedente de calórico na esposa com o atrito do murro português de lei.

Tinoco tivera um caixeiro que expulsara quando lhe descobriu capacidade para o adultério, segundo informações de um marçano que vira piscarem-se reciprocamente os olhos direitos à sinhá e o caixeiro. Eis o fio que conduz o cego até ao tálamo infamado e daí à campa do inulto João Tinoco. O assassinado tinha irmãos abastados no Rio. Pinto Monteiro revela-lhes que seu mano morrera de morte violenta, e, coberto de lágrimas, não podendo mostrar os intestinos dilacerados de Tinoco, como Antônio a túnica de César, põe as mãos convulsas no ventre, e exclama:

—Despedaçaram-lhe as entranhas as agonias do arsênico! etc.

Fez terror.

Rugem vingança os irmãos; o cego dá vulto às dificuldades das provas judiciarias; franqueiam-lhe dinheiro sem conta, e um grande prêmio, se a prova se fizer.

Vejam os profundos segredos do céu! Os crimes obscuros quase nunca é a lampada da virtude que os descortina; são sempre os cerdos que fossam e tiram à tona dos lamaceiros as podridões submersas.

Pinto Monteiro fez surdir à flor da terra as podridões de Tinoco, e a toxicologia declarou que o homem morrera envenenado pela massa de Frei Cosme. Não vá o leitor cuidar que entra na novela um frade que manipulava massas homicidas. Não, senhor. A massa de Frei Cosme é uma farinha saturada de arsênico.

A viúva não pôde defender-se, desde que a negra confessou que envenenara o amo em um timbal de borrachos, por ordem da senhora. Degradaram por toda a vida a ré convicta, privando-a dos bens herdados do esposo. Com a chácara preciosa foi galardoada a benemérita solicitude de Pinto Monteiro—o vingador de Tinoco e da Moral, que eu sempre escreverei com o M maior que eu poder.

Fortunato de Brito, o chefe da polícia, foi demitido por este tempo. Antônio José Pinto Monteiro resolveu repatriar-se. A denuncia dos moedeiros açulara-lhe muitos e poderosos mastins. A imprensa brasileira insultava a colônia portuguesa pelo fato do crime e pelo fato do delator. A equidade foi estranha aos ódios e injúrias que golpearam Monteiro. Não lhe descontaram na perfídia as vantagens comerciais que derivaram dela. Cessara o panico e o terror iminente de um cataclismo no crédito e nas casas bancarias. A polícia, alumiada pelo cego, sabia as veredas que em Portugal conduziam aos balancés. A gente honesta, e, o comércio honrado rejubilavam com a traição de Pinto Monteiro; mas, atidos ao velho prolóquio onde não reluz faúla de filosofia prática, execravam o homem que levara às plagas do degredo os salteadores da probidade incauta.

Esta vítima ainda não estava inscrita no martirológio dos grandes lapidários da civilização.

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