A Morgada de Romariz - Capítulo VI Novelas do Minho · Capítulo 22 de 29
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A Morgada de Romariz - Capítulo VI

Joaquim de Araújo entrara na vida por má porta. Oito anos de caserna bastariam a degenerar-lhe as boas qualidades: mas, com certeza, o Faísca já tinha ganho esta alcunha à custa de turbulências, quando assentou praça, e não se regenerara, como é de supôr, no ofício de soldado.

A sua nova posição de lavrador não lhe quadrava; a pesada rabiça do arado dava-lhe engulhos ao estômago, quando a sacudia do regô aberto para romper outro; o cabo da enxada empolava-lhe as mãos; de çafaras não sabia nada; ignorava todo o trafego da lavoira; e, em vez de aprender, como queriam a mulher e o sogro, ia bandarrear por feiras, quatro vezes por semana, na sua égua rabona, de pau de choupa debaixo da perna, mão direita à cinta, chapéu braguês na nuca, e besta travada que não havia outra daquela andadura.

Às impertinencias do sogro respondia que não precisava labutar sujamente na terra, porque seu pai tinha o melhor de cinquenta mil cruzados em peças; e aos queixumes da mulher amante e ciosa voltava as costas enfastiado. O lavrador de S. Martinho, a fim de se desfazer do genro, repartiu a casa por três filhos, ressalvou uma pequena reserva, deu em terras o dote estipulado a Rosa, e mandou-os viver onde quisessem.

A libertinagem do Faísca foi até onde os dois mil e tantos cruzados da mulher chegaram; e, naquele tempo, quem os desbaratasse em seis anos alcançava a reputação dos que em nossos dias derivam à miséria sobre ondas do ouro. Antes de conhecer as primeiras necessidades, Rosa morreu na flor da idade, deixando um filho de seis anos entregue ao avô, porque o marido havia muitos meses que demorava pela Galiza, amaltado com jogadores de esquineta, seus antigos camaradas, uns com baixa, outros desertores.

O filho de Rosa breve tempo viveu da caridade do avô, que faleceu pouco depois. Quando Joaquim de Araújo voltou a S. Martinho por saber que estava viúvo, encontrou o menino de sete anos esfarrapado, sem amparo de parentes, a esmolar o pão e o gasalhado dos vizinhos, por que seu pai não tinha casa própria, e todo o patrimônio de sua mãe estava vendido. Quem recolhera o rapazinho era um fogueteiro, o mais remoto e desprezado parente de sua mãe. O pequeno ajudava-o a afeiçoar as canas e encher os canudos para os foguetes com bastante jeito e disposição para o ofício. Perguntara-lhe o pai porque não fora procurar o avô a Famalicão. O fogueteiro respondeu que lá fora com ele quando a mãe morreu; mas que o avô dissera que estava também muito pobre, e apenas lhe dera estopa para umas calças, e um chapéu de Braga mais rapado que a escudela de um cão. Lembrou-se Joaquim do padrinho; mas a morte cortara-lhe esse recurso. Foi ter-se com o filho sucessor na casa, a ver se quereria protegê-lo como seu pai. O fidalgo da Igreja recebeu-o com furiosas declamações contra o Bento pedreiro, a quem chamava ladrão, por que lhe pedia dois mil cruzados e juros que o pai lhe ficara devendo.

Neste tempo, o irmão do honrado Joia já não podia trabalhar. Passava os dias sentado ao sol no degrau da porta, e dava alguns chorados vinténs por semana a uma vizinha que lhe levava as couves e a broa. Nesta situação o achou o filho, quando voltou da Corunha, trajando à castelhana, mas delatando na jaqueta safada e suja a miséria que o trazia à porta do pai. Pediu-lhe dinheiro com suplicante brandura, com muitos atos de arrependimento e promessas de reformação de costumes.

—Se poderes reformar os teus costumes, fazes bem; eu é que não posso desfazer-me em dinheiro—dizia o velho.—Tudo o que eu tinha estava na mão de teu padrinho: ele morreu, e o ladrão do filho não me paga.

—O que o padrinho lhe devia—disse Joaquim—são dois mil cruzados; mas vossemecê herdou cinquenta e tantos…

—Não sei o que herdei—replicou o pedreiro—tudo o que eu tinha dei-o a guardar ao coronel, Deus lhe fale em alma, e tudo lá ficou.

—O meu padrinho não era capaz de o roubar, senhor pai! Vossemecê está metendo a sua alma nas mãos do diabo! Há de morrer para aí como um mendigo, e o seu dinheiro há de ajudá-lo a cair nas profundas do inferno!…

No calor da discussão figurou-se ao velho que o filho seria capaz de praticar alguma violência. Teve medo—o medo que devia ser-lhe uma agonia fulminante, se o gozo de sentir-se rico não prevalecesse às angústias de recear-se em perigo na presença do filho. Abriu com as mãos tremulas a arca, tirou um pé de meia, atado pelo calcanhar com uma guita, deu-o ao filho, e disse-lhe com voz cortada de soluços:

—É tudo quanto tenho. Recebi ontem esses vinte cruzados novos dos esteios que vendi. Se queres dar-me metade, dá; se não queres, leva tudo.

Joaquim quedou-se alguns minutos a olhar para o pai com piedoso aspeto; e, depois de pensar na repartição dos pintos, ouvindo filialmente a consciência e a razão, deliberou… não repartir nada. Saiu com mais duas maldições tácitas, e foi relatar o caso ao Luís Meirinho.

Neste tempo, o antigo aguazil do corregedor de Barcelos andava muito acautelado das justiças da comarca. A sua reputação de salteador de estradas estava feita; mas as provas que legalizassem a captura eram insuficientes. Os latrocínios de encruzilhada amiudavam-se na Terra-Negra, na Lagoncinha, e nas serras distantes do Ladário e Labruja. Algumas casas afamadas de dinheirosas eram assaltadas por quadrilhas que venciam pelo número a resistência; e, quando esses roubos estrondeavam, Luís Meirinho e outros sujeitos da sua familiaridade nunca estavam em Famalicão ou nas aldeias circunvizinhas. Era sabido que as maltas se reuniam em um grupo de cabanas em uma cafurna de pinheiros chamados os Ribeirais, não longe da vetusta igreja dos templários de S. Thiago de Antas. Ainda hoje estão em pé, mas ninguém as habita, essas choupanas execradas pela tradição de serem aí enterrados os ladrões que voltavam mortalmente feridos dos seus assaltos.

Como quer que fosse, a maledicência não calumniava Luís Meirinho, nem ele por modéstia escondeu do Faísca a superior categoria de capitão de ladrões a que o promovera a voz pública.

Joaquim ouviu estas confidencias íntimas sem pavor nem se quer estranheza. A esquineta era-lhe bastante iniciação para ser admitido aos mistérios da Terra-Negra. O Meirinho encareceu-lhe as vantagens, e desfez nos perigos do ofício. Principiando pelo argumento mais insinuante a favor dos ladrões, ofereceu-lhe de uma grande sacã dinheiro que ele afiançava ter adquirido sem escândalo nem efusão de sangue. Uma das suas regras de bem-viver era (dizia ele ao Faísca) matar somente em última necessidade: talvez a «justa defesa» que a lei indulta. Rômulo, o salteador que fundou Roma, não exibia ideias mais benignas.

A granjearia de um bravo para a jolda foi fácil. O Faísca, em uma das próximas noutes, foi apresentado na estalagem da Lagoncinha aos seus irmãos de armas, e achou-se em melhor sociedade do que ele previra. Condecoravam a cáfila alguns sujeitos que pareciam andar naquela vida aventurosa por amor das impressões rijas: eram artistas, como hoje diríamos. Filhos segundos de casas honradas e coutadas desde os reis da primeira dinastia, recrutas foragidos, desertores, jornaleiros, indivíduos barbaçudos vindos de longes terras, facinorosos escapulidos das cadeias ou dos degredos, gentes várias, como se vê mas todos alegres, chalaceadores, bem-quistos nas aldeias por onde residiam temporariamente, liberais nas tavernas com conhecidos e desconhecidos, armados até aos dentes, e, segundo a excelente máxima do capitão, matando somente em última necessidade. A malta, por espírito de imitação, chamava-se Companhia do olho vivo. Florecera outra, com igual denominação, na corte, capitaneada por José Nicós Lisboa Corte Real. Quarenta anos antes haviam sido enforcados os mais graduados da companhia, salvante o capitão, por que era protegido pelo infante D. Antônio, tio de el-rei D. José I. Um dos mais novos de essa horda de ladrões, que teve um período de esplendor, fugindo à perseguição, ainda funcionou na malta do Minho, à qual legou o saudoso nome da outra.

A «Companhia do olho vivo» não prosperou no ano em que o filho de Bento de Araújo se alistou. O terror afastara os passageiros dinheirosos do trânsito por serras infamadas, e os proprietários das povoações sertanejas mudaram para as vilas e cidades as suas residencias.

No programa de Luís Meirinho estava desde muito inscrito Bento de Araújo; mas, como ainda há pessoas de bem, ao capitão repugnava-lhe propor em conselho que se planeasse o expediente maís plausível na exhumação das três mil peças do pai do Faísca. Os sócios mantinham entre si estes decoros, o que não sucede em todas as companhias com estatutos legalizados.

Entretanto, como a necessidade apertava, e à notícia do Faísca chegara a má nova de que seu pai, acariciado por uns sobrinhos de Gondifelos, tratava de se passar para a companhia deles, o capitão, forte de rasões aconselhadas pela prudência e aplaudidas por Joaquim, pôs em discussão a matéria, quando ao modo de obrigar o pedreiro a confessar a lura do tesouro. O Faísca tirou a salvo, porém, que o haviam de dispensar de assistir ao assalto, por que, em fim, o homem… sempre era seu pai, e o sangue gritava. Ninguém se riu na assembleia da sentimentalidade daquele filho: é que as ideias grandes e fundas abalam toda a casta de alma. Foi apoiado calorosamente Joaquim, e até abraçado por um sócio de Felgueiras, processado por parricida.

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