O Cego de Landim - Capítulo VI Novelas do Minho · Capítulo 10 de 29
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O Cego de Landim - Capítulo VI

Os meus informadores, que mais privaram na intimidade de Pinto Monteiro, dizem que ele, no segundo regresso a Portugal, trouxera, além de secretário, dois filhos, que deixara no Porto a educar no colégio da Lapa, e uma filha ainda muito na flor da mocidade. Da mãe destes meninos, que pouco há vivia ainda nos arrabaldes do Rio de Janeiro, não há nada romanesco; mas bem pode ser que houvesse da parte dela um profundo sentimento de dó com muitíssima abnegação de si mesma; e no coração do cego com certeza houve extremoso amor de pai. Os tigres sempre tem, e os homens costumam ter às vezes este santo instinto de amarem os filhos.

Vinte e tantos contos prefaziam os haveres de Pinto Monteiro. Concluiu as obras principiadas, comprou terras, e dirigiu pelo tacto as bemfeitorias que fez no prédio que habitava. Há duas horas que eu estive a reparar, por cima do muro do jardim, na graciosa vivenda que ele enchera de luz como se um beijo do sol de agosto pudesse descondensar a álgida escuridão de seus olhos. Ali passaram alegres dias os seus convivas sob os caramanchéis das parreiras. O grande prazer de Monteiro era dar banquetes opíparos.

Ouvia ler as Artes de cozinha, conhecia Brillat-Savarin, enchia-se do fino sentimento dos guisados; e, apontando a petuitaria aos vapores das caçarolas, marcava quando era sobejo o cravo ou escasso o colorau. Fazia pensar se a vista, voltando-se para o interior, penetrava nos refêgos membranáceos o ideal do estômago! Se um cego ilustre deplorava o perdido paraíso, outro cego parecia tê-lo encontrado na cozinha.

Ele, que na América pusera o cauterio à ladroagem, à falsificação das notas e ao adultério agravado pelo homicídio, não sabia como amordaçar a maledicência dos seus conterrâneos, se não ocupando-lhes as línguas no trabalho da deglutição. A cada injúria que lhe chegava aos ouvidos, mandava comprar dois leitões.

—Mano Antônio, dizem que tu entregaste os ladrões ao chefe da polícia—dizia a menina Neves.

—Dizem? pois, visto que não os posso entregar a eles, compra um peru e dá-lho amanhã com recheio.

—Mano Antônio, agora dizem que denunciaste os da moeda falsa.

—Compra anhos e capões; atasca essas línguas em podim de batata, embola-mos com almondegas, deita-lhes aziar de ovos em fio, afoga-lhes os escrúpulos em vinho de 1815, menina.

E, depois, tinha outra paixão que o deliciava: arranjar casamentos.

Florecem hoje em Landim alguns casais de pessoas ditosas que ele ajoujou, vencendo estorvos à custa de engenhosas intrigas, e até de liberalidades de suas abatidas posses.

A filha de um cabaneiro, que se criava por sua casa, era o passa-tempo do cego. Chamava-se a Narcisa do «Bravo»,—alcunha paterna. Até aos treze anos andava vestida de rapaz, e media-se com os mais gaiatos a trepar à grimpa de um pinheiro, no assalto noturno às cerejeiras, em duelos à pedrada, no jogo do pão e no murro. Era virilmente bela, e bem feita; mas os meneios adquiridos nos trajos de rapaz desengraçavam-na vestida de mulher. Ela mesmo olhava para si com zanga e puxava a repelões as saias esfrangalhando-se. Pinto Monteiro dava tento destes frenesis, ria-se muito, e contava-lhe casos de mulheres portuguesas que batalharam incógnitas, cobrindo os seios com arnês de ferro.

Estava no plano do cego casá-la. Narcisa dizia-lhe que não pensasse em tal, porque a primeira pirraça que o marido lhe fizesse, favas contadas, esmurrava-lhe os focinhos. Este programa não assustou Pinto Monteiro, visto que os focinhos ameaçados eram os do marido.

A rapariga foi pretendida extra-matrimonialmente por vários devassos de Landim, S. Tirso, e terras circunjacentes. A virago tinha perrixil do que morde nas línguas já embotadas; mas também tinha mãos nervudas e uns dedos nodosos que se fechavam em forma de box, assim que os pimpões lhe cantavam desafinados.

Um destes era um forte lavrador de Sequeirô, o Custódio da Carvalha. Apaixonou-se com a resistência, e falou-lhe sério em casamento. Narcisa contou a passagem ao cego, que batia as palmas com veemente júbilo, exclamando:

—Ó moça, aproveita antes que o rapaz se arrependa! Olha que ele colhe trinta carros, e é um bonacheirão… E que tal o achas de figura?

—Eu sei cá!…

—Tu gostas dele ou não gostas?

—Como se nunca nos víssemos.

—Então, não o conhecias há muito tempo já?

—Nunca o vi mais gordo.

—Mas queres casar com ele ou não?

—Tanto se me dá como se me deu; mas o padrinho diga-lhe que, se se faz fino comigo, eu pinto aí a manta, que ele não sabe de que freguesia é. Eu não ponho unhas em foicinha nem sachola, ouviu? Não fui criada na lavoira. Se ele pega a mandar-me sachar milho ou cegar erva, temo-las armadas.

—Casa, que tu amansarás…—dizia o cego.

E casou.

Monteiro deu-lhe magnífico enxoval, cordão, cabaças, anéis, broche; vestiu-se de fino pano; foi padrinho do casamento, banqueteou os noivos com muitos convidados, chamou a música de Paiva de Ruivães, e queimou dez dúzias de bombas reais.

O marido sentiu as fascinações que enchem de delícias o inferno dos corações escravos. Ela manietou-o sem violência de mau gênio, com as suas carícias de gata que desembainha as unhas brincando. Folia rija! Romagens, quantas havia no Minho; festanças com três clarinetes e requinta todos os domingos na eira; a Cana verde e o Regadinho saltado pelas maiatas mais frandunas; bródios e vinho, fasta fora. Comprou égua de marca, vestiu-se de amazona, e ela aí ia com o marido corcovado, sonâmbulo, a chotar na mula esparavonada atrás dela por essas feiras e romarias. Às vezes, se os moleiros não despejavam depressa os caminhos atravancados com os seus jumentos carregados de foles, verberava-os com o chicotinho, e chamava-lhes canalhas. Em questões com os vizinhos, por causa de regas ou invasões de gado, fazia ameaças sanguinárias. Carregava as espingardas do marido e atirava aos gaios com pontaria infalível. Quando soube que as senhoras do Porto usavam colete e gravata à laia de homens, exultou, como quem vê triunfar a sua ideia, e quis vestir calções e botas à Frederica.

O lavrador, já no cairel do abismo, vendidas as melhores propriedades, quis reagir. Viu que tinha pela frente um virago de fibras. Afroixou por medo e por amor. O pusilânime vergava ao prestígio da força. Narcisa ofuscava-o com a rutilante beleza do demônio, disfarçado na lendária Dama Pé de Cabra, e em outras damas que o leitor conhece com pés chineses.

Dobados dez anos de vertiginosa dissipação, o lavrador resvalou do idiotismo à sepultura, amando ainda a mulher que vendera um lençol para lhe comprar a última galinha. E Narcisa, viúva aos vinte e oito anos, e ainda formosa, atirou com a honra às goelas do dragão da miséria, e não chorou uma lágrima.

Havia uma amiga que lhe dizia palavras dolorosas, com sincero dó: era a irmã do cego. Pobre Neves! quem te predissera o suplício dos teus derradeiros anos, ligada ao destino da mulher que tu criaras com maternal ternura!…

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