O Comendador - Segunda Parte
Vinte anos volvem-se tão depressa, que eu, neste salto que o leitor vai dar, não me despenderei a encher-lhe de frases o passadiço. O melhor é fechar os olhos e saltar.
Vinte anos! Que são vinte anos?
Nós, ainda ontem eramos rapazes, ó velhos! Este ontem gastou vinte anos a resvalar para hoje. Que se passou neste lapso fugitivo de nossa vida entre a juventude e a velhice? Nada. Temos a nosso lado filhos homens, e netos que amanhã serão homens: e, todavia, parece que ainda ontem com um raio de sol e com o perfume de uma Rosa compúnhamos o sorriso da loira mãe destes homens, que está hoje velha! Ainda ontem eramos poetas pelo amor, afoitos pela aspiração, valentes pela mocidade. Que grandes coisas devem ter-se passado nesse instante de vinte anos, enquanto esperávamos outras que nunca vieram! A cismar sempre com o futuro não o víamos passar. A final parou; e deixou-se conhecer porque marchava pesado, tardio e triste: era a velhice. Chegou de repente; escureceu-se-nos tudo como se as alegrias nos fulgissem do seio de um relâmpago. Esta treva foi instantânea, e gastou vinte anos a condensar-se. Que são vinte anos?
* * * * *
Em 1872, hospedou-se no hotel de Famalicão um brasileiro a quem os seus criados negros e brancos chamavam simplesmente o sr. comendador. Não viera recomendado a algum dos barões da terra. Enviára adiante a recomendação da parelha das orças, da caleche, dos lacaios. Representava quarenta anos florentíssimos. Basto bigode, Suíça inglesa, espesso cabelo levantado em novelos crespos que lhe escantavam a fronte. Espáduas amplas, à proporção das pernas que se moviam rijas e baseadas em pés infalíveis como os alicerces das pirâmides dos faraós. Trajava a primor, de preto, com um ar de pessoa que passeava de tarde na estrada de Braga, com o intento de ir à noite a Covent-Gard, ao Royal Italian Ópera. Fumava sempre uns charutos que vaporavam os aromas das recamaras das sultanas. Na mesa, era de uma elegância frugal que desmentia a procedência. Olhava para o bife com um fastio tal e tamanha tristeza, que fazia lembrar Tertuliano, quando, meditando na metempsicose, olhava para o boi cozido, e dizia: «Estarei eu comendo meu avô?»
Conquanto nem ele nem criados declarassem os seus nomes e apelidos, os jornais do Porto haviam anunciado a chegada do maior capitalista de Pelotas, o sr. Manoel José da Silva Guimarães.
Nada de bioquices com o leitor: aí está Belchior Bernabé, o enjeitado.
* * * * *
Ao terceiro dia de hospedagem em Famalicão, o comendador cavalgou, acompanhou-se do lacaio, e seguiu na direção de S. Thiago de Antas.
—Vai ver a igreja que fizeram os moiros… Calculou outro comendador da terra, e assim o comunicou a mais dois comendadores, atribuindo aos moiros a igreja dos cavaleiros de Rhodes.
—Há de ser isso—confirmou o mais correto.—Este homem é magico. O Guimarães do hotel já lhe perguntou se era nascido cá no Minho, e ele respondeu…
—Que não tinha a certeza—concluiu o outro—Tem grande telha!
—Ontem, na feira, estava ele a ver vender duas juntas de bois para embarque. Quem nas vendia era o Silvestre Ruivo…
—Bem sei, o irmão daquele padre João que morreu há três anos de apoplexia.
—É isso. O telhudo, que não fala com ninguém, pôs-se a conversar com o Silvestre a respeito dos bois: depois levou-o à hospedaria, e deu-lhe de jantar. O Silvestre esteve depois comigo, e vinha espantado de ver dois criados de casaca, bota de verniz, gravata branca e luvas, a servir à mesa.—E em que falaram vocês?—perguntei-lhe eu. Disse-me que o comendador lhe perguntara coisas e tal et coetera cá da província, e que ficara de ir a casa dele ver a corte dos bois. Magico ou não? Olhem vocês! Vai ver os bois!
—Se fosse aqui há dez anos atrás—disse o comendador Nunes—valia-lhe a pena de ir ver as bezerras… Você ainda conheceu as Ruivas, a Antônia e a Chica, ó sôr Leite?
—Ora, se conheci! Que fatias!…
—Que diriam vocês—volveu o sr. Nunes—se conhecessem a Maria que eu malembro de ver antes de ir em o Rio… Que pimpona! Apanhou a um enjeitado…
—Já ouvi contar esse caso.
—Você não sabe nada, perdoe. O enjeitado entrava em a escola do Zé Batata quando eu saía já pronto. Depois, lá tive notícias no Rio que a moça dera em droga. Ele foi prezo para soldado e desertou; e ela nunca mais ninguém lhe pôs o olho no lombo. Uns dizem que está em um recolhimento de convertidas, outros dizem que está fechada, desde que isso foi… há de haver, João Nunes, há de haver, bons vinte anos…
—Isso é que é pai de fêbras!… fez muito bem!—aplaudiu o mais devasso.
* * * * *
Entretanto, chegava o comendador Guimarães à porta do ex-capitão de ordenanças Silvestre Lopes, de alcunha o Ruivo. Era esperado.
No patamal da escada que conduzia à vasta quadra chamada «a sala dos padres» estava o lavrador, entre três clérigos venerandos por sua idade: devia contar qualquer deles bastantes anos sobre setenta.
O comendador deu as rédeas do seu alazão ao lacaio, subiu prazenteiramente, apertando a mão a Silvestre, e cortejando os padres.
—V. ex.^a não se perdeu nos atalhos?—perguntou o lavrador.
—Quem tem boca vai a Roma—respondeu o comendador; e referindo-se aos padres:
—São seus manos, sr. Lopes?
—Dois são; o outro é o sr. abade.
O hóspede encarou-o muito a fito, e perguntou:
—É abade há muitos anos nesta freguesia?
—Vim para aqui paroquiar em 1828, na idade de vinte e cinco anos; tenho setenta e seis: conte lá v. ex.^a.
—Está aqui há quarenta e quatro anos feitos—acrescentou o padre
Bento Lopes.
—Justamente,—confirmou o clérigo que batizara Belchior, o enjeitado exposto na manhã de 6 de janeiro de 1833.
O comendador não via naquele ancião um só traço do corpulento abade.
Conversaram sobre a guerra do Paraguai, sobre a emigração dos minhotos, sobre o estado florescente da indústria e agricultura portuguesa. O lavrador, apoiando o comendador, encarecia a nossa prosperidade com este conciso, pesado e até certo ponto bicórnio argumento:
—Vejam o dinheirame que dão os bois!
Estava a mesa posta no sobrado imediato, e à cabeceira da mesa a cadeira destinada ao hóspede.
—V. ex.^a vem para aqui—disse o lavrador apontando lha com urbana homenagem.—Ninguém mais se sentou nessa cadeira desde que morreu nosso irmão mais velho, padre João. Faz agora três anos que morreu de um estupor…
—De apoplexia—emendou o padre Hipólito.
—Tanto faz—replicou Silvestre.—Estava a dizer missa, e caiu redondo no altar.
—É de crer que a sua alma estivesse preparada para esse transe—observou o comendador em tom compungido.
—Era bom padre—disse o abade, talhando à faca os canudos flexuosos da sopa de macarrão—isso era, coitado! Deus o tenha à sua vista!…
—Está aqui toda a sua família, sr. Silvestre?—perguntou o hóspede,—Se bem me recordo, disse-me na feira de Vila Nova que tinha filhos…
—Filhos, não, meu senhor. Tenho duas filhas.
—Três…—emendou o abade.
—Duas!—retorquiu desabridamente o lavrador coruscando-lhe os olhos irados.
—Ah! sim… duas… eu agora estava distraído…—remediou o indiscreto.
E o comendador não perdia a miníma expressão das quatro fisionomias.
—Tenho duas filhas,—repetiu o pai de Maria.—Uma está casada fora com um proprietário, já tem um filho em Braga para padre, e outro a doutorar-se em Coimbra. A outra está em casa. Não quis casar, e já está a caminhar para os trinte e sete anos. É a que governa a casa.
Este incidente passou. O comendador mostrava-se profundamente abstraído. Comeu pouquíssimo, e quase nada disse. Apenas, terminado o suplício da exposição do peru, do lombo de porco de vinho e alhos, da perna de vitela e do leitão, pediu licença para retirar-se, pretextando a precisão de estar cedo em Vila Nova.
O abade acompanhou-o, porque o brasileiro mostrou desejo de ver umas sepulturas notáveis de que certo romance dava notícia, no adro da igreja de Santa Maria.[5]
Os outros padres quiseram ir também; mas o comendador dispensou-os com delicada violência, prometendo voltar a vê-los mais de espaço.
O abade, mostradas as duas campas vazias, convidou o ricasso a subir à sua pobre residência.
—Com muita satisfação, sr. abade; simpatizo com v. s.^a, quero mesmo angariar a sua amizade.
—Ó excelentíssimo senhor! que valho eu, pobre velho, e pobre abade da mais pobre das abadias!… Aqui gastei a vida, já agora quero que esta terra, onde dormem tantos que batizei, tantos que casei, me coma também os ossos.
O padre estava lugubremente palavroso. Havia ali uma flor de poesia elegíaca a entreabrir-se um pouco borrifada de mau vinho do Porto. Sentia-se expansivo.
Pensava o brasileiro em ocasionar conversa acerca do incidente, acontecido ao jantar, sobre se eram duas ou três as filhas do Silvestre. Não foi preciso rodeios. O padre endireitou logo com o assunto nestes termos:
—O Silvestre é bom sujeito, bom paroquiano, amiguinho dos seus interesses, isso sim; mas desse pecado, se o é, está o inferno cheio. Porém, excelentíssimo senhor, tem este homem um modo de pensar a respeito da honra que se não conforma com a religião da caridade e do perdão. V. ex.^a havia de notar a ira com que ele disse que as suas filhas eram duas, quando eu, por descuido, disse que eram três. Conheci logo que andei mal, e emendei contra a minha consciência; mas em fim, eu estava a jantar em casa do homem, estava ali um cavalheiro respeitável, a civilidade mandou-me tapar a boca…
—Sim… eu notei que v. s.^a, cedendo ao número das duas, fê-lo constrangidamente.
—Pois por isso mesmo que eu percebi que v. ex.^a notou, é que devo à minha posição de padre esclarecer a verdade diante do sr. comendador. Se quer ouvir a história… mas v. ex.^a disse que tinha pressa…
—Não, senhor. Queira dizer. Tenho muito tempo…
O abade saiu à janela, e disse para fora ao criado que fosse levar a égua pela fresca ao mato. Depois, fechando o trinco da porta da saleta, continuou, fazendo sentar o hóspede em uma cômoda cadeira de estofo, e ocupando ele outra de pregaria com espaldar de moscóvia.
—O Silvestre não tem duas filhas, mas três. A mais velha, que eu batizei há trinta e nove anos, chama-se Maria. Esta rapariga, aqui há vinte anos, andou de amores com um enjeitado que por aqui se criou em casa de uma santa criatura, que o encontrou no mato da igreja, pelo lado de fora das campas que v. ex.^a viu há pouco. O diabo do rapaz desviou-a do bom caminho e pôl-a na mais misera situação que em tais casos é possível. Emfim, a rapariga sentia-se mãe, quando um dos padres que já lá está na presença de Deus, deu com eles em palestra de noite. Daí a dias, o Belchior (chamava-se assim o enjeitado), foi daqui preso para Braga, e deitaram-lhe as correias às costas. Passado pouco tempo, o soldado desertou, e foi para onde estivesse seguro. Agora falemos da moça. O pai moêu-a bem moída de pancadaria, fechou-a no sobrado de uma tulha, e mandava-lhe dar todos os dias duas tigelas de caldo, dois pedaços de pão, e uma caneca de água. Dois ou três meses depois, apareceu-me aqui um calafate de Vila do Conde, que vinha a ser cunhado da tal Bernabé que criara o Belchior, e disse-me que sua cunhada morrera de saudades do desertor que não podia mais voltar à pátria; e que, antes de expirar-lhe, pedira que viesse ter comigo, e me rogasse, pelo divino amor de Deus, que fizesse eu todas as diligências por haver à mão o filho do seu Belchior, que ele calafate se encarregava de o levar para Vila do Conde. A falar a verdade, era empreitada de costa arriba meter-me eu neste delicado negócio com o Silvestre; mas pedi forças a Deus e fui-me ter com ele. Contei-lhe o estado da filha, e Ofereci-me para dar à criança, quando nascesse, o único destino possível em harmonia com os interesses da terra e os da divina religião da caridade de Jesus, que mandava chegarem-se a Ele as criancinhas. O homem ouviu, praguejou, berrou que ia matar a filha; e eu então, resolvido a tudo, disse-lhe sem temor que se ele matasse a filha iria eu acusá-lo de matador de duas vidas. O homem teve medo, e concluiu afinal que a criança me seria entregue; mas que a rapariga nunca mais veria sol nem lua… Estou massando o sr. comendador…
—Pelo amor de Deus! estou interessadíssimo nessa triste história…
—Tristíssima, excelentíssimo senhor! Eis que nasce um rapaz, e quem assistiu ao nascimento e mo trouxe foi uma viúva serva de Deus, minha confessada, que vivia aqui na casa que comprara à tal Bernabé. Fui eu que lhe pedi que merecesse a divina graça por esta obra de misericórdia. Já cá estava então em casa de uns parentes o calafate à espera do filho de Belchior. Entreguei-lho, e lá foi o pequeno para Vila do Conde, depois que o batizei com o nome de seu pai.
—E esse menino…—atalhou o comendador arrancando a pergunta das ânsias que a débil vista do abade não divisava.
—Eu lhe conto, meu senhor. Dois anos depois, morreu o calafate, e eis que a criada dele mo remete para aqui, dizendo que o patrão assim lho ordenara, para que eu o entregasse às irmãs e sobrinhas dele que moram aí em uma freguesia ao pé. Chamei as tais mulheres, mostrei-lhes a criancinha, dei-lhes o recado do calafate Falecido, e elas responderam que não queriam saber de histórias; que tomasse o avô e a mãe conta dele, que eram bem ricos. A serva de Deus que morava, como já disse a v. ex.^a, na casa que fora da tia Bernabé, tomou conta do enjeitadinho. Havia nisto mistério profundo! O pai fora criado na mesma casa onde era criado o filho, ambos sem pai nem mãe! Desgraçadamente, quando o pequeno ia nos seis anos, morre a bemfeitora de morte repentina. Os parentes sacudiram de ali o mocinho, e o Silvestre comprou a casa, botou-a abaixo, e fez uma corte de bois. Ali daquela janela pode v. ex.^a ver a corte onde foi a casa das duas santas mulheres. É aquela que branqueja por entre aqueles dois carvalhos.
O comendador foi à janela, reconheceu os arredores da extinta casa da sua infância, enxugou as lágrimas, voltando as costas ao abade, e tornou a sentar-se em frente do ancião.
—Que havia eu de fazer-lhe?—prosseguiu o abade—trouxe para aqui o pequeno, e mandei-o à escola.
—Muito bem! muito bem!—exclamou arrebatado o brasileiro—muito bem, honrado homem!—e apertou-lhe a mão, levando-a aos lábios.
O abade retirando a mão úmida de lágrimas, disse comovido:
—Fiz o meu dever, senhor! Oxalá que esta boa ação me seja descontada nas muitas ruins que tenho na minha vida…
—E depois, o pequeno…—atalhou pressurosamente o hóspede.
—O pequeno, eu lhe digo… Agora tornemos a falar da mãe… Três anos e meio esteve fechada no tal cárcere. Via apenas uma irmã que lhe levava o alimento. Depois, esteve em perigo de vida, e pediu um confessor. Fui eu o chamado à falta de outro. No ato da confissão, disse-lhe que o seu filho estava em minha casa, e que passava por ser meu parente. Outros, sr. comendador, diziam que ele era meu filho e da mulher que o amparara. Perdoei aos calumniadores, para que Deus me perdoe os escândalos que dei: era justo que me difamassem porque eu dei azo a isso com os desatinos da minha mocidade. Maria, quando soube que tinha seu filho vivo, ganhou forças, quis viver, e venceu a doença. Dizia-me ela: «se eu viver, hei de ter alguma coisa desta casa, e o que eu tiver será do meu filho; e, se eu morrer, ficará pobrezinho de pedir.» De pedir não—disse eu—porque vou mandar-lhe ensinar um ofício logo que ele chegue à idade de poder trabalhar. Perguntou-me então se eu sabia alguma coisa do Belchior. Fora da confissão, respondi-lhe que o calafate muito em segredo me dissera que ele fora para o Brasil. No primeiro ano, o calafate recebia a miúdo cartas do Belchior, que o rapaz escrevia à mãe adotiva, cuidando que ela estava viva. O calafate escrevia para lá que a Bernabé tinha morrido; e o rapaz a escrever sempre à Bernabé. A opinião do calafate era que o Belchior lá andasse pelos sertões onde nunca lhe chegavam as cartas idas de Portugal. Depois, o calafate morreu. O que se passou daí em diante não sei. Foi isto o que eu contei a Maria. Por fim, espalhou-se por aí que o Belchior tinha morrido; e eu aproveitei a notícia, quer fosse verdade quer não, a fim de ver se o pai da pobre moça lhe dava alguma liberdade. Falei nisto ao Silvestre, e, em nome de Deus o fiz responsável pela privação em que a tinha da missa e dos sacramentos. Tanto lhe bati à porta da consciência dura, que consegui deixá-la confessar-se e ouvir missa uma vez de três em três meses. Pouco e pouco, obtive que ela viesse à igreja de quatro em quatro semanas, e em essas ocasiões já ela sabia que o seu filho era o menino que me ajudava à missa. Uma vez entrou na sacristia, não estando mais ninguém na igreja; abraçou-se no filho e desfez-se em lágrimas. Deixei-a, coitadinha! mas depois pedi-lhe que não tornasse a fazer tal imprudência, por que, se alguém a visse, não tornaria a sair do seu cárcere. O rapaz, quando fez quatorze anos, lia e escrevia correntemente. Mandei-lhe ensinar o ofício que escolhesse: quis ser carpinteiro, para o que tinha muita habilidade. Essa cadeira em que v. ex.^a está sentado fez-ma ele. Veja que bonita peça! pois ainda não tinha dado um ano ao ofício quando fabricou essa obra que parece feita no Porto!
—E está aqui nesta freguesia o tal Belchior?—perguntou o brasileiro.
—Não, meu senhor, está trabalhando em Braga; mas vem aqui todos os meses ver a mãe no dia em que ela se confessa.
—Todos os meses?
—Sim, sr., na primeira segunda feira de cada mês. de hoje a oito dias, se eu viver, hei de ouvi-la de confissão, e dou de jantar ao meu Belchior.
—de hoje a oito dias? Que prazer v. s.^a me dava, sr. abade, meu honrado e querido amigo, se me consentisse que eu contemplasse na sua igreja essa mártir a rever-se no seu pobre filho! Seria possível?
—Pois não é?! apareça v. ex.^a na segunda feira aí pelas seis horas da manhã, que é quando eu a confesso e lhe dou a comunhão. Vê a a ela, e vê o rapaz que é ainda quem me ajuda à missa, e ministra o jarro da água à mãe, depois que ela comunga.
Eriçaram-se os cabelos ao comendador por uma espécie de eterização, mescla de entusiasmo, de arroubamento e de tristeza. Apertou ao seio as cãs do ancião, e beijou-o na fronte. O padre encarava-o com assombro, e ele murmurava:
—A sua história arrebatou me!… Eu sou um homem que tenho a loucura da admiração pelas ações grandes. Se até hoje eu não acreditasse em Deus, cairia de joelhos a seus pés, confessando-o!
—Quem é que não acredita em Deus, meu amigo?!—perguntou o velho enxugando as lágrimas.
* * * * *
A segunda feira aprazada raiou com todas as pompas e músicas e perfumes de uma aurora de julho. O comendador Guimarães chegara de Braga, por volta da meia noite, e ordenara ao escudeiro que o chamasse às quatro horas da manhã. Supérflua recomendação. Não dormira. Antes do alvorecer da manhã, chamara ele os criados, e mandara aparelhar os cavalos.
Às cinco e meia da manhã estava ele encostado a uma das campas do adro de Santa Maria de Abade. A distância, escarvavam os cavalos insofridos na terra barrenta de um montado calvo. O sol verberava em uma das frestas da igreja. Os pardais pipilavam na oliveira, naquela mesma que, trinta e nove anos antes, dera, nas suas raízes recurvas à flor da terra, um berço empapado de chuva, àquele homem que ali se sentia feliz até ao extremo em que as palpitações de júbilo laceram o coração como as farpas da agonia. As andorinhas chilreavam em redor da cornija da igreja, e, esvoaçando-se por longos círculos, cortavam de notas embaladas pelas ondas da luz o grande hino, que na terra se completa com as lágrimas dos que podem chorá-las de gratidão à divina providência.
Ele, Belchior Bernabé, chorava essas lágrimas benditas, contemplando a terra onde a tecedeira pobre se ajoelhara para o levantar regelado até ao peito, e resuscitá-lo com um milagre da caridade.
Às cinco horas e três quartos ouviu passos que soavam na trempe de ferro que forma o limiar do adro. Correu pressuroso ao cunhal da igreja, e viu uma mulher com um capote aconchegado da face, encaminhando-se para a porta transversal. Simultaneamente chegava, transpondo de salto a parede, um rapaz de boa presença, vestido de azul, com o seu chapéu de felpo branco na mão. O comendador parou, encostado ao cunhal. A mãe e o filho abraçavam-se, quando deram tento daquele homem estranho.
—Quem é?—perguntou Maria.
—É figurão!—disse ele—Eu vi aquele homem em Braga com o sr. deão e entraram no paço do sr. arcebispo. Ali abaixo na bouça estão dois cavalos, e um criado de libré. Hão de ser dele…
—Queres tu ver que é um comendador que esteve em casa de teu avô faz hoje oito dias? Tua tia viu-o, e disse-me que ele era assim de bigode e suíças…
—Que estará ele a fazer aqui?
—Ele olha para nós?! perguntou a mãe olhando-o de través por entre a fresta formada pelo capote em que se encapuzava.
—Não tira os olhos da gente… e parece que está assim a modo de quem quer perder os sentidos!
—Estará doente!… Ainda bem que aí está o sr. abade…
—E lá vai falar com ele, minha mãe…
—Então é o mesmo que eu te dizia.
—Belchior!—chamou o abade—pega lá a chave, e entrem que eu já vou.
O moço foi buscar a chave, beijou a mão ao padre, e abaixou a cabeça ao senhor desconhecido. O comendador, com os olhos cravados nele, movia-se em um balanceado arfar de peito: era o esforço que punha em resistir aos ímpetos que o impulsionavam para o filho. O carpinteiro abriu a porta e entrou com a mãe na igreja, dizendo-lhe:
—Aquele sujeito estava a olhar para mim de um modo que parecia querer falar-me…
O brasileiro, depois que respondeu ao comprimento do abade, perguntou-lhe:
—V. s.^a terá dúvida em me ouvir de confissão…
—Com muito contentamento, sr. comendador. Quando quer v. ex.^a?
—Agora. Desejo receber a comunhão juntamente com a sua confessada.
—Pois seja agora.
E dizia entre si o padre: «Este homem foi alumiado pela graça divina, e Deus nosso Senhor escolheu o mais pecador dos seus servos para instrumento da sua misericórdia com outro pecador!»
Entravam no arco da igreja de passagem para a sacristia. O abade curvou-se ao ouvido de Maria que fazia oração no altar do Santíssimo, e disse-lhe:
—Demora te um pouquinho que eu vou confessar uma pessoa:—E, chamando Belchior:—Vai a casa, abre o segundo gavetão da cômoda, e traze a toalha grande de rendas que está engomada, para ministrar a comunhão àquele senhor que vou confessar.
* * * * *
O Comendador saiu da sacristia meia hora depois, e foi ajoelhar no primeiro degrau do altar-mor. Maria, como visse sair o abade e acenar-lhe para o confessionário, ergueu-se, passou rente do desconhecido, com os olhos no chão, e a gola do capote apanhada nas faces.
Belchior tinha vindo com a toalha de folhos encanudados que desdobrava e ajeitava para o sagrado ministério. Depois, entrou na sacristia com o galheteiro, renovou a água e o vinho, dobrou e sacudiu a toalhinha de modo que a porção ainda não maculada servisse ao lavatório. De vez em quando, saía ao limiar da sacristia, e quedava-se a olhar para o comendador, que se conservava de joelhos, com a cabeça abaixada, amparando a fronte nas mãos erguidas.
O abade saiu do confessionário a manquejar trôpego, amparando-se à teia gradeada de um altar. O filho de Maria Ruiva foi dar-lhe o braço, e o ancião queixava-se de dores reumáticas nos joelhos e nos rins. A confessada subiu até à capela-mór, e ajoelhou atrás do brasileiro, lendo atos de contrição e a ladainha.
O abade começara a revestir-se para ir celebrar, quando o comendador se levantou, e de passagem para a sacristia, relançando os olhos a Maria, pôde ver-lhe o rosto alumiado pela restea refracta do sol que lampejava palpitante através da fresta, na superfície metálica de uns tocheiros doirados. Não a conheceria, se a encontrasse. Aquele rosto havia sido purpurino, assetinado como as pétalas das rosas úmidas pelo rosciar das formosas madrugadas. Tivera as curvas boleadas e lizas da saúde, da força, dos atritos do ar forte e do sol que enrubesce a epiderme e colora o sangue.
Estava magra, angulosa e livida como as santas esculturadas sob a inspiração do martírio; mas esta maceração era a formosura divinal da alma, era a santificação da mulher aos olhos daquele homem.
Entrou na sacristia, e com trêmula voz disse ao padre:
—Sr. abade, peço-lhe que antes de subir ao altar, chame aqui a sua confessada.
—Aqui?!—perguntou o abade com espanto—Ela é muito acanhada…
Presumia que o comendador desejava simplesmente ver de perto a mulher cuja desgraçada história o comovera.
—Não importa—volveu o brasileiro—é urgente que ela aqui venha antes que o sr. abade nos dê a comunhão.
—Sim?!—volveu o padre—Pois bem…
E, saindo ao umbral da sacristia, chamou a filha de Silvestre.
Ela entrou com timidez e assombro. O filho, que suspendia ainda nas mãos as dobras da alva que o padre estava vestindo, largou-as, deixou pender os braços, e empedrou na expressão imóvel da curiosidade.
Neste lance, o comendador apresentou ao abade meia folha de papel selado, e pediu-lhe que a lesse. O padre pediu a Belchior que lhe chegasse os óculos, pôl-os tremulamente, acercou-se de uma fresta, e, lendo primeiro a assinatura, disse:
—É a assinatura de sua eminencia o sr. arcebispo de Braga?…
Conheço-a…
Ergueu a vista ao alto da folha, e leu:
Concedemos ao abade de Santa Maria desta nossa diocese, no concelho de Vila Nova de Famalicão, que possa, sem previa leitura de banhos, celebrar o sacramento do matrimônio entre os contraentes de maior idade…
Aqui, o abade estacou, abriu demasiadamente os olhos, acertou os óculos na bazé do nariz, premiu as pálpebras com o dedo polegar, repôs de novo os óculos, e disse ao filho de Maria:
—Ó rapaz, que nomes são estes que estão neste papel?
O carpinteiro leu: entre os contraentes de maior idade Belchior
Bernabé, filho de pais incógnitos, e Maria Lopes, filha legítima de
Silvestre Lopes e…
—Que é isto?—exclamou o abade—Santo Deus! que é isto?
—Belchior Bernabé—disse o rapaz com o mais cândido assombro—sou eu!…
—Belchior Bernabé é teu pai, meu filho!—exclamou o comendador, abraçando-o; e, ao mesmo tempo, encurvando o braço pelo colo de Maria, puxou-a para o peito, tocou-lhe com os lábios ardentes como as lágrimas na face, e murmurou-lhe soluçante:—Aqui me tens, minha desgraçada Maria! aqui está o pobre enjeitado!…
Ela expediu um grito estridente como o da alegria dos encarcerados, dos condenados à eterna desonra que viram inopinadamente golfar-lhes na treva a luz do céu e a reabilitação da honra. Queria reconhecê-lo, tateando-lhe as faces; mas faltou-lhe a claridade dos olhos e a lucidez da razão. Ela pedia luz, pedia a Deus que a não deixasse morrer, e desfalecia pendente do pescoço de Belchior.
* * * * *
A felicidade de Maria era santa: custara vinte anos de afrontas sofridas com paciência, sem revolta contra a implacável barbaridade do pai, nem contra a imobilidade das forças divinas. Esperara em Deus, esperara sempre. Dizia ela que sonhara aquilo mesmo—a vinda de Belchior, e a restauração da sua honra.
Contava-o ela ao abade, e ao esposo, e ao filho, à porta do templo: e ele, o ancião, com as rugas da face luzentes de lágrimas, dizia:
—Fui eu quem vos batizou, e quem vos casou, meus filhos. Agora, enterrai-me vós que eu não tenho ninguém.
* * * * *
Belchior Bernabé exigiu como dote de sua mulher o estabulo dos bois edificado sobre os alicerces da casa onde fora recolhido e aquecido ao seio da tecedeira. Ali, onde foi cabana de candura e oração, está hoje um palacete com as mesmas coisas divinas, acrescentadas pela felicidade do amor. Vê-se de longe o palácio do comendador Belchior; e lá ao pé, no interior do palácio, as pompas da arquitetura e das decorações desaparecem deslumbradas pelo que há de imortal nas obras humanas: a virtude. Lá está o abade resignatário de Santa Maria entrevado: mas todas as manhãs é transferido da cama para a cadeira que lhe fez o seu Belchior Júnior, aquele rapaz, que não resiste à vocação de carpintejar, e está fabricando uma nova cadeira de rodas e molas para o seu velhinho.