A Morgada de Romariz - Capítulo VIII Novelas do Minho · Capítulo 24 de 29
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A Morgada de Romariz - Capítulo VIII

Contava-se assim o caso em Famalicão.

Que o Bento de Araújo, receando os ladrões seus vizinhos, desenterrara as suas riquezas que tinha debaixo da lareira, e indo escondê-las nos montados de Vermuim, em uma noite de grande invernia, morrera tolhido pelo frio e traspassado da neve. Fundavam-se os desta versão em que a pedra da lareira estava deslocada, e no seu lugar uma cova funda; e debaixo dos bancos da cama outra escavação, e no entulho uns cacos de panela, onde com certeza estava porção do tesouro, e a outra porção debaixo da lareira.

Outro boato:

Que a malta da Terra-Negra assaltara o pedreiro, roubara-o, matara-o, e levara o cadáver ao Castelo de Vermuim. Não se dava a razão deste saimento a três quartos de légua; mas também não era necessária a lógica para explicar tal coisa.

A versão, porém, mais popular e que tinha o sufrágio das pessoas mais razoáveis, era que o Joaquim assassinara o pai na serra, quando o velho voltava do seu trabalho de brocar pedra; e, depois, deixando-o morto, viera a casa desenterrar o dinheiro. Em confirmação do boato, alegava-se o fato de ele ter aparecido em Famalicão a procurar o pai, e a indagar dos vizinhos se tinham dado conta do arrombamento da casa—isto no dia em que o pai já estava morto.

A voz pública forçou a autoridade a prender o Faísca; mas, na noite seguinte à da prisão, algumas dúzias de homens armados arrombaram a cadeia de Famalicão, e tiraram de ferros o inocente.

Esta fuga completou a ruína de Joaquim de Araújo. Acreditou-se geralmente no roubo e no parricídio. As aldeias do julgado de Vermuim, com Famalicão à frente, deram montaria à quadrilha da Terra-Negra, com o reforço militar de Guimarães e Braga. A malta dispersou, mortos alguns dos mais audazes; e os dispersos engrossaram, na Povoa de Lanhoso, a celebrada quadrilha que tem a sua história em um livro dignamente esquecido.[8]

O filho de Bento pedreiro morreu em 1809 no Carvalho-de Este, defendendo a pátria da invasão francesa comandada por Soult. Bateu se com o heroísmo do suicida, ao cabo de dezoito anos de salteador, arrostando a todos os perigos, mas fugindo a que o filassem vivo, por que tinha grande horror à forca. Afinal, inscreveram-no entre os valorosos defensores da nossa autonomia, e o seu cadáver foi mais acatado que o do general Bernardim Freire, assassinado por outros patriotas da laia do Faísca.

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