O Cego de Landim - Capítulo VIII Novelas do Minho · Capítulo 12 de 29
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O Cego de Landim - Capítulo VIII

Em 1858 o cego, escasso de posses, escorregava na ladeira da pobreza. Havia vendido ou hipotecado as terras. Perdera demandas valiosas: parece que em quase todas influiu a sua má nota a desculpar a injustiça. Duas quintas lhe foram extorquidas com tão estranho desaforo, que é mister aceitar-se intervenção de jurisprudência divina para que o homem as perdesse, pois é de crer que as adquirisse com dinheiro desonrado. Dizia ele que viera encontrar em Portugal especies de ladrões fleugmáticos e frios, que não topara nos climas quentes; e que o larapio luso-brasileiro era francamente analfabeto e lerdo, ao passo que o ladrão, extreme e puramente luso, era, por via de regra, além perverso, bacharel formado. Aludia a dois adversários jurisconsultos que eu escondo à curiosidade do leitor, por que me sustém o pulso um quase religioso respeito à memória honesta de Paiva e Pona, e também de Pêgas.

Com as últimas moedas, abriu Pinto Monteiro um botequim em Famalicão, faz hoje dezessete anos. A vila, nesse tempo, estava na apojadura das suas prosperidades. Choviam ali brasileiros que nem maná nos areais da Mesopotâmia. Dos paúes alagadiços irrompiam casas de azulejos variegados. Vila Nova era o centro da locomoção do Minho, da mercancia agrícola, da vilegiatura dos portuenses; mas não tinha o «café»—a prova real da civilização.

Pinto Monteiro contava com as leis do progresso; porém, Vila Nova que hoje, na extrema decadência, tem três «cafés» com dois limões sorvados e três garrafas de licor de canela, em tempos florentíssimos não sustentou o botequim do cego em que havia cognac, coração, chartreuse, kermann e absinto. É porque, há dezessete anos, o progresso material desconhecia a precisão dos «cafés», paragens de uns ociosos que se putrificam, raça amolentada no sibaritismo da cerveja de quartola, com grandes orgias de cigarros de Xabregas.

O cego apenas vendia algum capilé aos vigários encatarroados e orchatas aos adiposos. A ruína ia consumar-se e o botiquim fechar-se, quando chegou à vila, e se hospedou no hotel um brasileiro doente vindo do Rio com sua esposa. Pinto Monteiro conhecia de nome o enfermo.

Visitou-o e acompanhou-o nos desalentos da cachexia, animando-o ou distraindo-o com a sua variada e jovial conversação. Alvino Azevedo afeiçoou-se-lhe a ponto de, chegado ao termo dos sofrimentos, lhe confiar sua mulher, pedindo-lhe que a protegesse e guiasse na administração dos seus haveres. A esposa do enfermo estava um pouco longe da idade em que as viúvas correm perigo, se as não vigiam: tinha setenta anos feitos, e já não conservava toda a frescura das suas dezoito primaveras nem os dentes completos. Os dons do espírito não eram transcendentes nem talvez bastantes para seduzirem outro marido: D. Joana Tecla era idiota.

O caquético expirou nos braços do cego, despedindo-se da esposa com uma olhadela cheia de saudades, e talvez de esperanças no paraíso de Mafoma; em que as mulheres velhas remoçam. Ela chorou copiosamente, e declarou que aquele morto era o terceiro marido que lhe fugia para o céu. Eles tinham tido razão em fugir todos.

D. Tecla passou para casa do cego com todo o resguardo da sua pudicícia, acompanhada pela mana Neves.

Passados os três dias de nojo, perguntou-lhe Pinto Monteiro se queria voltar ao Brasil, sua pátria, ou ficar em Portugal, recebendo os rendimentos dos seus prédios no Rio. A viúva respondeu que a sua posição era muito melindrosa; que uma senhora não podia ir sozinha para tão longe; que o mundo estava cheio de homens mal criados que mediam tudo pela mesma raza; que não queria sujeitar-se a algum desaguisado por essas terras de Cristo; que em fim, não ia para o Brasil sem ter família muito honesta com quem fosse.

—Mas então, minha senhora;—redarguiu o cego—quer, entretanto que não vai, viver sozinha em Vila Nova, ou dá nos o prazer da sua companhia? Seu defunto esposo encarregou-me de a dirigir; eu, porém, o que farei é conformar-me com a vontade da senhora, que já tem suficiente idade para saber o que lhe convém.

—Não sei nada do mundo—acudiu Tecla—Estou muito verde. O senhor é que há de guiar-me.

—Deus lhe dê melhor guia do que um cego, minha senhora;… mas aí tem a minha mana que lhe será companheira e irmã.

No dia seguinte, Monteiro fechou o botiquim com um sorriso sarcástico, e o ar solene e vingativo de quem fechava a porta que franqueara à civilização de Vila Nova. Ele vociferou que os habitantes de Famalicão eram indignos do «Café», deu volta à chave, e foi caminho de Landim com a hospeda e a irmã.

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