A Morgada de Romariz - Capítulo III Novelas do Minho · Capítulo 19 de 29
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A Morgada de Romariz - Capítulo III

Quando Vila Nova de Famalicão era um burgo de cem vizinhos com um juiz pedâneo, saiu de ali para a corte, em 1744, um rapaz de quinze anos, que principiara com seu pai ofício de pedreiro. Assinava-se Antônio da Costa Araújo, escrevia limpamente e era esperto. Chamara-o a Lisboa um tio, mercador de panos, estabelecido na Rua dos Escudeiros, que até ao terremoto de 1755 ocupava parte do terreno hoje compreendido na rua Augusta. Matias da Costa Araújo, irmão do pedreiro, engraçou tanto com o sobrinho que, apesar dos poucos meios, mandou-o às aulas dos jesuítas no pátio de Santo Antão, afim de o habilitar para clérigo, contra a propensão mercantil do moço. Matias havia sido infeliz no comércio, e dizia que era mau modo de vida aquele em que a prosperidade se desavinha da honra.

No 1.^o de novembro de 1755, o constrangido destino do estudante transtornou-lho a catástrofe em que seu tio pereceu debaixo da abobada da igreja de S. Julião, onde assistia às missas dos fieis defuntos. Os seus medianos haveres armazenados devorou-lhos todos o incêndio. Ficou portanto em desamparo grande o estudante, e cuidou de amanhar sua vida, deixando arder sem saudade a gramática latina do padre Álvares com os cartapácios correlativos.

Nicolau Jorge, mercador abastado, vizinho e amigo do defunto Matias, condoído do sobrinho, chamou-o, ouviu-o discorrer a respeito da espécie de mercadoria em que mais seguro negócio deveria tentar-se na crise do terremoto, e, aplaudindo o, emprestou-lhe duzentas moedas de ouro. Leiloavam-se então, nas ruas e praças, fazendas avariadas por água e fogo. Antônio da Costa Araújo arrematou por preço ínfimo fardos equivalentes ao seu avultado capital, pagando-os no mesmo ato com grande espanto do desembargador Torcilles, presidente das arrematações. Estabeleceu-se Costa Araújo no Campo de Santa Ana, e ganhou, no primeiro ano, com estas fazendas avariadas, doze mil cruzados.[6] Volvidos seis anos, era um dos mercadores mais opulentos da corte; morava no primeiro quarteirão da rua Augusta, à esquerda, indo do Rossio, e era geralmente conhecido pela alcunha de Joia. Tinha camarote efetivo na ópera, banqueteava personagens de alta condição, recebia nos seus armazéns a mais luzida sociedade de Lisboa com fidalga cortesia: chamava «joias» às damas, e daí lhe pegou a ele a alcunha desmaliciosa. Confluía ao seu balcão a flor da cidade, por que ninguém o excedia na fina escolha dos atavios, no primor do gosto e em probidade de contratos. «Ali vinham—diz o coronel Francisco de Figueiredo—comprar-se os enxovais para os grandes casamentos, o vestuário para todas as grandes funções, de que houve muitas, entrando neste número os casamentos dos nossos soberanos, nascimentos de príncipes, os dias de anos de toda a real família, e os três dias das funções da inauguração da estátua equestre do sr. rei D. José, o 1.^o de tão gloriosa memória.»

Costa Araújo não compelia os devedores a pagarem-lhe judicialmente; que o infortúnio dos que não podiam gozar a honra e o prazer da pontualidade fazia-lhe dó. Quis o marquês de Pombal nobilitá-lo como fizera a outros comerciantes, mais para abater a fidalguia histórica do que para levantar a burguesia industriosa. O Joia nunca pediu nem aceitou distinções. Foi toda a vida mercador, sempre ao balcão, ou encostado à hombreira da porta como hoje o não faria um caixeiro com a cabeça cheia de socialismo e óleo de amêndoas doces.

À volta dos sessenta anos, Antônio da Costa Araújo enfermou de paralisia. Era solteiro. Chamou para sua companhia um irmão que tinha na terra natal, pedreiro como seu pai, e que nunca deixara de trabalhar, posto que o irmão rico lhe desse boa mesada, sem todavia lhe aconselhar ofício menos grosseiro, por intender que são muitos os pedreiros felizes e pouquíssimos os grandes do mundo que a inveja dos pequenos não perturbe.

O paralítico fez testamento em que repartiu o seu capital por diversos amigos, e deixou a seu irmão Bento da Costa três mil peças de 7$500 réis.

Falecido o Joia, apareceu em Famalicão Bento pedreiro, envergando um tabardo velho de briche, que exibia com visagens consternadas, dizendo que não herdara outra coisa do irmão, o qual, tudo gastara e morrera pobre. O pedreiro, supondo que o acreditavam, era boçal à proporção de avarento; faltava-lhe a velhaca finura que hoje em dia ilustra os minhotos. Verdade é que não havia ainda gazetas que assoalhassem as verbas testamentarias; mas a notícia da herança de Bento chegara a Famalicão primeiro do que ele. Cinquenta e seis mil cruzados e tanto! Quem poderia herdar secretamente riqueza tamanha em um tempo em que bazofiava por Lisboa um argentário a quem chamavam O trezentos mil cruzados, por que ele, vindo do Brasil, manifestara aquela colossal e quase fabulosa quantia! Cem contos de réis, hoje em dia, é quase uma vergonha possui-los; e quem não fingir que tem essa soma quadruplicada, é um homem que, se souber governar-se com muito prumo, poderá talvez dispensar se de ser recolhido a um asilo de mendicidade.

O pedreiro era viúvo, vivia só, e tinha um filho soldado de artilheria do regimento do Porto, aquartelado em Valença. Quando a notícia chegou ao quartel, o rapaz, insano de alegria, desertou, confiado na herança. Entupiram-no, porém, o espanto e a consternação, quando encontrou o pai à orla da estrada a brocar uma penedia por conta de um lavrador. Recobrado do assombro, perguntou-lhe se não herdara três mil peças de ouro. O velho pôs os olhos espavoridos no céu, abanou a cabeça como os personagens da Ilíada, desfechou contra o filho um esgar desabrido, e bradou:

—Três mil peças!? três mil diabos que te levem a ti e mais a quem levantou essa aleivosia! O que eu herdei foi um reguingote de saragoça já no fio. Se o queres, vai buscá-lo, que ele lá está pendurado em um gancho… Com que então, Joaquim, vinhas ao cheiro das peças?

—Vinha pedir-lhe, senhor pai—respondeu o moço com tristeza e respeito—que me livre de soldado, porque já não posso com o serviço. Estou doente, e preciso mudar de vida.

—Trabalha, faze como eu, que também não posso, e estou aqui a furar este calhau. Quizeste ser soldado… lá tavém.

—Senhor pai, olhe que eu saí da praça sem licença… sou desertor…

—Não me digas isso segunda vez, que te rejeito esta broca à cabeça![7]

—Faz-me vossemecê uma esmola—replicou serenamente Joaquim—que eu antes quero a morte que as chibatadas… Sabe que mais, senhor pai?—prosseguiu o desertor limpando o suor e as lágrimas—ou vossemecê me livra, ou eu vou juntar-me à quadrilha que anda na Terra Negra.

—Capaz disso és tu, alma do diabo! Sai-me da vista dos olhos que eu já te não enxergo, ladrão!

E, arrojando a broca e o maço pelo respaldo do penedo, sentou-se com os cotovelos fincados nas pernas, e cismou alguns segundos com a cara tapada pelas mãos esfoliadas e negras de terra.

O filho esperava, indeciso entre o ódio e a compaixão. Se cogitava que o pai herdara as três mil peças, e o deixava optar ente a chibata e a malta de ladrões, Joaquim sentia-se tremer de raiva; se, porém, a herança era uma invenção, o ar aflito do velho sujo, roto e quebrado de trabalho, compungia-o.

Nesta vacilação, ergueu o pedreiro o rosto menos descomposto, e disse:

—Vai para casa que eu vou daqui falar com teu padrinho… Aí tens a chave; procura as peças e leva-as, que eu dou-tas…

Esta zombeteira liberalidade incutiu logo em Francisco dúvidas da herança. Entrou em casa e examinou toda aquela antiga e conhecida pobreza. Na lareira, entre cinzas, a panela de barro desbeiçada, e duas tigelas na trempe; o escabelo corroído de caruncho, e a espaços espumado de gorduras lustrosas: o catre de bancos, e a enxerga rota e arrepiada de palhiço: a candeia de ferro enganchada na parede; por baixo, pingada de sail, uma banca de pau santo com pés torneados, mas com as roscas esborcinadas, e gavetas de pinho em bruto com puxadores de corda. Sobre a miséria dos trastes, o lixo, a sordícia que o filho do pedreiro nunca assim vira, por que sua mãe ainda vivia, quando ele assentara praça. Aos pés da cama havia uma rima de cascabulho, grabatos de lenha, ferramentas quebradas, rodilhas e cacos. Em uma forquilha de quatro esgalhos pregada na trave mestra, pendia, coberto da fuligem da lareira, o albornoz poído que o irmão do Joia dizia ter herdado.

O desertor sentou-se na arca de pinho, contemplou aquela indigência, e pensou consigo:

—Acho que me mentiram… Meu pai não herdou nada… Dantes ainda nesta casa havia uns lenções lavados e pão à farta, quando recebíamos todos os meses a moeda que o tio nos dava… E agora que há de ser de mim?… Estou perdido!…

Neste comenos, assomou ao limiar da porta um vizinho, que vira entrar o soldado.

—Estás por aqui, Joaquim Faísca?!—perguntou o Luís Meirinho.

Convém saber que o filho de Bento ganhara alcunha de Faísca, desde que mostrou aos dezoito anos extraordinária destreza em ferir lume no fosforo dos ossos dos adversários. O outro chamava-se o Meirinho, porque o havia sido do corregedor de Barcelos, e na opinião pública passara de quadrilheiro da justiça a capitão da quadrilha que infestava a Terra Negra. Continuava o ofício, diziam alguns, ganhando na carreira dois postos de acesso.

—Vieste com licença?—perguntou o Luís Meirinho.

—Não, senhor. Pedi-a, e não ma deram—respondeu Joaquim, com o propósito de se acolher ao valimento do vizinho, se o pai lhe não acudisse.—Eu estou doente do peito, e não posso com esta vida de soldado. Ouvi lá dizer que meu pai estava muito rico com a herança de meu tio. Desertei, cuidando que ele me livraria com dinheiro; mas agora mesmo o topei no Vinhal a quebrar pedra, e ele me disse que herdara um albornoz velho que ali está.

—E tu acreditaste?—atalhou o outro velhacamente.

—À vista da miséria em que eu encontro esta casa…

—Pois fica sabendo que teu pai herdou três mil peças. Sabes quanto fazem três mil peças?… Cinquenta e seis mil e tantos cruzados. Sabe toda a gente da vila que teu pai está riquíssimo. Posso mostrar-te a cópia do testamento. Teu pai é um miserável, é a vergonha dos homens! Mata-se à fome, come duas tigelas de caldo por dia, e diz mal do irmão, porque lhe deixou um albornoz coçado, quando toda a gente sabe que o deixou rico…

—E o dinheiro?—acudiu Joaquim circunvagando os olhos pelos cantos da casa e da lareira.

—Dizem uns que o deixara em Lisboa a render, e outros querem que ele o tenha enterrado aí nesse chiqueiro; mas a minha opinião é que teu pai, se trouxe o dinheiro, não o tem em casa. Meteu-o debaixo de alguma fraga aí da serra por onde ele anda sempre a quebrar pedra.

—E que hei de eu fazer, se ele me não livrar?—perguntou Joaquim.

—Eu sei lá, rapaz! Se o teu livramento depende do dinheiro de teu pai, não quisera eu estar-te na pele! Levas as chibatadas da lei tão certo como eu quisera valer-te e não posso. Conheço-te desde rapazito, e nunca me há de esquecer que vai agora em dez anos, na romaria das Cruzes de Barcelos, me acudiste em um aperto, e quebraste três cabeças enquanto eu quebrei duas. Olha, Faísca, se te vires em apuros, procura-me; livrar-te de desertor, isso não posso eu; mas das chibatadas e da farda eu te livrarei…

—Como?

—Isso são contos largos… Aí vem teu pai ao fundo da rua. Vou-me embora, que não posso encarar aquele sórdido avarento! Se eu soubesse que ele tinha o dinheiro no bucho, tirava-lho pelas guelas, e dava-to, rapaz!

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