Universo da obra
Universo da obra
# Primeira Parte
Em algum lugar ainda há povos e rebanhos, mas não entre nós, meus irmãos: aqui há Estados.
Estado? Que é isso? Pois bem! Agora abri-me os ouvidos, pois agora vos digo minha palavra sobre a morte dos povos.
Estado se chama o mais frio de todos os monstros frios. Friamente ele também mente; e esta mentira rasteja de sua boca: “Eu, o Estado, sou o povo.”
É mentira! Criadores foram aqueles que criaram os povos e suspenderam sobre eles uma fé e um amor: assim serviram à vida.
Destruidores são aqueles que armam ciladas para muitos e as chamam Estado: suspendem sobre eles uma espada e cem cobiças.
Onde ainda há povo, ele não compreende o Estado e o odeia como mau-olhado e pecado contra costumes e direitos.
Este sinal vos dou: cada povo fala sua língua do bem e do mal, que o vizinho não compreende. Sua linguagem inventou para si em costumes e direitos.
Mas o Estado mente em todas as línguas do bem e do mal; e o que quer que diga, mente; e o que quer que possua, roubou.
Falso é tudo nele; com dentes roubados ele morde, o mordaz. Falsas são até suas entranhas.
Confusão das línguas do bem e do mal: este sinal vos dou como sinal do Estado. Na verdade, a vontade de morte indica esse sinal! Na verdade, ele acena aos pregadores da morte!
Demasiados são os que nascem: para os supérfluos foi inventado o Estado!
Vede como ele os atrai para si, os demasiados! Como os engole e mastiga e rumina!
“Na terra nada é maior que eu: sou o dedo ordenador de Deus”, assim berra o monstro. E não apenas os de orelhas compridas e olhos curtos caem de joelhos!
Ah, também em vós, grandes almas, ele sussurra suas sombrias mentiras! Ah, ele adivinha os corações ricos, que gostam de se desperdiçar!
Sim, também vos adivinha, vós vencedores do velho Deus! Cansastes no combate, e agora vosso cansaço ainda serve ao novo ídolo!
Heróis e honrados gostaria ele de colocar ao seu redor, o novo ídolo! De bom grado se aquece ao sol das boas consciências, o monstro frio!
Tudo ele quer vos dar, se o adorardes, o novo ídolo: assim compra para si o brilho de vossa virtude e o olhar de vossos olhos orgulhosos.
Com vós quer iscar os demasiados! Sim, inventou-se ali uma artimanha infernal, um cavalo da morte, tilintando nos adornos de honras divinas!
Sim, inventou-se ali um morrer para muitos, que se louva a si mesmo como vida: na verdade, um serviço de coração a todos os pregadores da morte!
Estado chamo eu onde todos são bebedores de veneno, bons e maus; Estado, onde todos se perdem a si mesmos, bons e maus; Estado, onde o lento suicídio de todos se chama “a vida”.
Vede estes supérfluos! Roubam para si as obras dos inventores e os tesouros dos sábios: cultura chamam seu roubo, e tudo se lhes torna doença e incômodo!
Vede estes supérfluos! Estão sempre doentes, vomitam sua bílis e chamam isso jornal. Devoram-se uns aos outros e nem sequer conseguem digerir-se.
Vede estes supérfluos! Adquirem riquezas e ficam mais pobres com isso. Querem poder e, antes de tudo, a alavanca do poder, muito dinheiro, esses impotentes!
Vede-os trepar, esses macacos velozes! Trepam uns por cima dos outros e assim se arrastam para o lodo e para a profundeza.
Todos querem chegar ao trono: esta é sua loucura, como se a felicidade estivesse sentada no trono! Muitas vezes o lodo está sentado no trono, e muitas vezes também o trono está sentado no lodo.
Loucos são todos para mim, macacos trepadores e febris. Mal me cheira seu ídolo, o monstro frio; mal me cheiram todos juntos, esses idólatras.
Meus irmãos, quereis sufocar no vapor de suas bocas e cobiças? Melhor quebrardes as janelas e saltardes para o ar livre!
Saí do caminho do mau cheiro! Afastai-vos da idolatria dos supérfluos!
Saí do caminho do mau cheiro! Afastai-vos do vapor desses sacrifícios humanos!
Livre ainda está a terra para grandes almas. Vazios ainda há muitos lugares para solitários e pares de solitários, em torno dos quais sopra o cheiro de mares silenciosos.
Livre ainda está, para grandes almas, uma vida livre. Na verdade, quem pouco possui tanto menos é possuído: louvada seja a pequena pobreza!
Ali onde o Estado acaba, ali começa apenas o homem que não é supérfluo: ali começa a canção do necessário, a melodia única e insubstituível.
Ali onde o Estado acaba, vede para lá, meus irmãos!
Não o vedes, o arco-íris e as pontes do além-do-homem?
Assim falou Zaratustra.
Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.
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