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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 56 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Dos Três Males

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Dos Três Males

#### 1.

Em sonho, no último sonho da manhã, estive hoje sobre um promontório - para além do mundo, segurava uma balança e pesava o mundo.

Ó que cedo demais me veio a aurora: despertou-me em brasa, a ciumenta! Ciumenta é ela sempre de meus ardores de sonho matinal.

Mensurável para quem tem tempo, pesável para um bom pesador, alcançável em voo para asas fortes, adivinhável para divinos quebra-nozes: assim meu sonho encontrou o mundo: -

Meu sonho, um ousado navegador, meio navio, meio noiva do vento, silencioso como borboletas, impaciente como falcões nobres: como teve ele hoje paciência e vagar para pesar o mundo!

Teria minha sabedoria lhe falado secretamente, minha sabedoria diurna, ridente e desperta, que zomba de todos os "mundos infinitos"? Pois ela diz: "onde há força, também o número se torna senhora: ele tem mais força."

Quão seguro olhava meu sonho para este mundo finito, não curioso, não cobiçoso de velhice, não temeroso, não suplicante: -

- como se uma maçã cheia se oferecesse à minha mão, uma maçã de ouro madura, de casca fresca, suave e aveludada: - assim se me oferecia o mundo: -

- como se uma árvore me acenasse, de largos ramos, de forte vontade, curvada como encosto e ainda como apoio para os pés do caminhante cansado: assim estava o mundo sobre meu promontório: -

- como se mãos delicadas me trouxessem ao encontro um escrínio - um escrínio aberto para o encanto de olhos pudicos e veneradores: assim se me ofereceu hoje o mundo: -

- não enigma bastante para espantar dele o amor humano, não solução bastante para adormecer a sabedoria humana: - uma coisa humanamente boa era hoje para mim o mundo, de que tanto mal se fala!

Como agradeço ao meu sonho matinal por eu ter pesado assim o mundo, cedo hoje! Como uma coisa humanamente boa veio ele a mim, este sonho e consolador do coração!

E para fazer o mesmo que ele durante o dia, e aprender com ele o seu melhor, quero agora pôr na balança as três coisas mais más e pesá-las humanamente bem. -

Quem ensinou a abençoar ensinou também a amaldiçoar: quais são, no mundo, as três coisas mais bem amaldiçoadas? Estas quero pôr na balança.

Volúpia, sede de domínio, egoísmo: estas três foram até agora as mais bem amaldiçoadas e as piores em má fama e mentira - estas três quero pesar humanamente bem.

Pois bem! Aqui está meu promontório e ali o mar: ele rola para mim, hirsuto, lisonjeiro, o fiel e velho monstro canino de cem cabeças, que eu amo.

Pois bem! Aqui quero manter a balança sobre o mar revolto: e escolho também uma testemunha para ver - a ti, árvore eremita, tu, de forte perfume, de ampla abóbada, que eu amo! -

Por qual ponte o agora vai ao um-dia? Por qual coerção o alto se coage ao baixo? E que significa ainda o mais alto - crescer para cima? -

Agora a balança está igual e quieta: três perguntas pesadas lancei nela, três respostas pesadas carrega o outro prato da balança.

#### 2.

Volúpia: para todos os desprezadores do corpo vestidos de cilício, seu espinho e estaca; e amaldiçoada como "mundo" por todos os transmundanos: pois escarnece e ludibria todos os mestres de confusão e erro.

Volúpia: para a ralé, o fogo lento em que é queimada; para toda madeira carunchosa, para todos os trapos fedorentos, o forno pronto de cio e fervura.

Volúpia: para os corações livres, inocente e livre, a felicidade-jardim da terra, a superabundância agradecida de todo futuro ao agora.

Volúpia: só para o murcho, um veneno adocicado; para os de vontade leonina, porém, o grande fortalecimento do coração, e o vinho dos vinhos, poupado com reverência.

Volúpia: a grande felicidade-parábola para felicidade mais alta e esperança suprema. A muita coisa, com efeito, foi prometido casamento, e mais que casamento -

- a muita coisa que é mais estranha entre si do que homem e mulher: - e quem compreendeu inteiramente quão estranhos entre si são homem e mulher!

Volúpia: - mas quero ter cercas ao redor de meus pensamentos e também ao redor de minhas palavras, para que porcos e exaltados não invadam meus jardins! -

Sede de domínio: o açoite ardente dos mais duros duros-de-coração; o tormento horrível que se reserva ao mais cruel; a chama escura de piras vivas.

Sede de domínio: o freio malicioso posto nos povos mais vaidosos; a escarnecedora de toda virtude incerta; aquela que cavalga em todo cavalo e todo orgulho.

Sede de domínio: o terremoto que rompe e abre tudo o que está podre e oco; a quebradora rolante, rosnante e punitiva de sepulcros caiados; o reluzente ponto de interrogação ao lado de respostas prematuras.

Sede de domínio: diante de cujo olhar o humano rasteja, se encolhe, labuta e se torna mais baixo que serpente e porco: - até que enfim o grande desprezo grite dele -

Sede de domínio: a terrível mestra do grande desprezo, que prega no rosto de cidades e reinos: "fora contigo!" - até que deles mesmos grite: "fora comigo!"

Sede de domínio: que, porém, também sobe sedutora aos puros e solitários, e para o alto, a alturas autossuficientes, ardente como um amor que pinta sedutoramente bem-aventuranças púrpuras em céus terrestres.

Sede de domínio: mas quem a chamaria de vício quando o alto cobiça descer até o poder! Em verdade, nada há de doente e vicioso em tal cobiça e descida!

Que a altura solitária não se isole eternamente nem se baste a si mesma; que a montanha venha ao vale e os ventos da altura às baixadas: -

Ó quem encontraria o nome correto de batismo e virtude para tal anseio! "Virtude dadivosa" - assim chamou Zaratustra outrora o inominável.

E então também aconteceu - e, em verdade, aconteceu pela primeira vez! - que sua palavra bem-aventurou o egoísmo, o egoísmo íntegro, saudável, que brota de alma poderosa: -

- de alma poderosa, à qual pertence o corpo elevado, o belo, vitorioso, revigorante, em torno do qual toda coisa se torna espelho:

- o corpo flexível, persuasivo, o dançarino, cuja parábola e epítome é a alma que se compraz em si mesma. O prazer-de-si de tais corpos e almas chama a si mesmo: "virtude."

Com suas palavras de bom e mau, esse prazer-de-si se protege como com bosques sagrados; com os nomes de sua felicidade, bane de si tudo o que é desprezível.

Para longe de si bane tudo o que é covarde; ele fala: mau - isto é covarde! Desprezível lhe parece aquele que sempre se preocupa, suspira, se lamenta e recolhe até as menores vantagens.

Despreza também toda sabedoria dolorida: pois, em verdade, há também sabedoria que floresce no escuro, uma sabedoria de erva-moura, que sempre suspira: "tudo é vão!"

A desconfiança tímida vale-lhe pouco, e todo aquele que quer juramentos em vez de olhares e mãos: também toda sabedoria desconfiada demais - pois tal é a espécie de almas covardes.

Ainda menos lhe vale o prontamente complacente, o canino, que logo se deita de costas, o humilde; e também há sabedoria humilde, canina, piedosa e prontamente complacente.

Odioso lhe é, e nojo, quem nunca quer defender-se, quem engole saliva venenosa e maus olhares, o paciente-demais, o tudo-suportador, o que se satisfaz com tudo: pois essa é a espécie servil.

Se alguém é servil diante de deuses e pisadas divinas, ou diante de humanos e tolas opiniões humanas: toda espécie servil ele cospe, este bem-aventurado egoísmo!

Mau: assim chama, mordendo, tudo o que é dobrado e mesquinho-servil, olhos piscantes não livres, corações comprimidos, e aquela falsa espécie condescendente que beija com lábios largos e covardes.

E falsa-sabedoria: assim chama tudo o que escravos, velhos e cansados espirituosamente dizem; e especialmente toda a má, absurda, esperta-demais tolice sacerdotal!

Os falsos-sábios, porém, todos os sacerdotes, cansados do mundo, e aqueles cuja alma é de espécie feminina e servil - ó como seu jogo sempre jogou mal contra o egoísmo!

E justamente isso deveria ser virtude e chamar-se virtude: jogar mal contra o egoísmo! E "desinteressados" - assim, com bom motivo, desejavam a si mesmos todos esses covardes cansados do mundo e aranhas-cruz!

Mas para todos eles vem agora o dia, a transformação, a espada do juízo, o grande meio-dia: então muita coisa deverá tornar-se manifesta!

E quem proclama o Eu são e santo, e o egoísmo bem-aventurado, em verdade, esse também diz o que sabe, um adivinho: "Vede, ele vem, está próximo, o grande meio-dia!"

Assim falou Zaratustra.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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