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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 54 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Dos Apóstatas

54 de 82 ≈ 8 min de leitura

Dos Apóstatas

#### 1.

Ah, já está tudo murcho e cinzento, o que ainda há pouco, neste prado, estava verde e colorido? E quanto mel de esperança levei daqui para minhas colmeias!

Todos esses jovens corações já envelheceram - e nem sequer envelheceram! apenas se tornaram cansados, comuns, cômodos: - chamam a isso "tornamo-nos novamente piedosos".

Ainda há pouco eu os via, de manhã, correr para fora sobre pés valentes: mas seus pés do conhecimento se cansaram, e agora ainda caluniam sua coragem matinal!

Em verdade, muitos deles erguiam outrora as pernas como dançarinos, acenava-lhes o riso em minha sabedoria: - então caíram em si. Acabo de vê-los curvados - rastejando até a cruz.

Em torno de luz e liberdade esvoaçavam outrora como mosquitos e jovens poetas. Um pouco mais velhos, um pouco mais frios: e já são sombrios, murmuradores e aquentadores de fogão.

Terá seu coração desanimado porque a solidão me engoliu como uma baleia? Terá seu ouvido escutado por mim, desejoso por longo tempo e em vão, por meus chamados de trombeta e arauto?

- Ah! Sempre são poucos aqueles cujo coração tem longa coragem e arrogância; e neles também o espírito permanece paciente. O resto, porém, é covarde.

O resto: são sempre os muitíssimos, o cotidiano, o excesso, os muitos-demais - todos esses são covardes! -

Quem é de minha espécie terá também vivências de minha espécie cruzando seu caminho: de modo que seus primeiros companheiros devem ser cadáveres e bufões.

Seus segundos companheiros, porém - esses se chamarão seus crentes: um enxame vivo, muito amor, muita tolice, muita veneração imberbe.

A esses crentes não deve prender o coração aquele que é de minha espécie entre os humanos; nessas primaveras e prados coloridos não deve acreditar aquele que conhece a espécie humana, fugaz e covarde!

Se pudessem de outro modo, também quereriam de outro modo. Os meios-e-meios estragam todo inteiro. Que as folhas murchem - que há nisso de lamentar?

Deixa-as ir e cair, ó Zaratustra, e não te lamentes! Antes sopra ainda entre elas com ventos farfalhantes -

- sopra entre essas folhas, ó Zaratustra: para que tudo o que está murcho fuja ainda mais depressa de ti! -

#### 2.

"Tornamo-nos novamente piedosos" - assim confessam esses apóstatas; e alguns deles ainda são covardes demais para confessá-lo assim.

Olho-os nos olhos - digo-lhes na face e no rubor de suas faces: sois tais que voltaram a rezar!

Mas é uma vergonha rezar! Não para todos, mas para ti e para mim e para quem também tem sua consciência na cabeça. Para ti é uma vergonha rezar!

Tu o sabes muito bem: teu demônio covarde dentro de ti, que gostaria de cruzar as mãos, pôr as mãos no colo e ter as coisas mais cômodas: - esse demônio covarde te persuade: "há um Deus!"

Com isso, porém, pertences à espécie que teme a luz, à qual a luz nunca mais deixa em paz; agora precisas enfiar diariamente tua cabeça mais fundo em noite e bruma!

E, em verdade, escolheste bem a hora: pois justamente agora voltam a voar as aves noturnas. Chegou a hora de todo povo que teme a luz, a hora vespertina e festiva, em que ele não - "festeja".

Eu o ouço e cheiro: chegou sua hora de caça e procissão, não certamente de uma caça selvagem, mas de uma caça mansa, manca, farejante, de pisadores leves e rezadores baixos -

- de uma caça a hipócritas cheios de alma: todas as ratoeiras do coração estão agora novamente armadas! E onde levanto uma cortina, dali despenca uma mariposinha noturna.

Estaria ela ali agachada junto de outra mariposinha noturna? Pois em toda parte sinto o cheiro de pequenas comunidades escondidas; e onde há quartinhos, há ali novos irmãos de oração e o vapor dos irmãos de oração.

Passam longas noites sentados juntos e dizem: tornemo-nos novamente como criancinhas e digamos "bom Deus"! - corrompidos na boca e no estômago pelos confeiteiros piedosos.

Ou passam longas noites olhando para uma astuta aranha-cruz à espreita, que prega sabedoria às próprias aranhas e assim ensina: "sob cruzes é bom tecer!"

Ou ficam sentados de dia com varas de pescar junto a pântanos e com isso se creem profundos; mas quem pesca onde não há peixes, eu nem sequer chamo de superficial!

Ou aprendem, piedosa e alegremente, a dedilhar a harpa com um poeta de canções que gostaria de tocar-se, com harpa, para dentro do coração de jovens mulherzinhas: - pois se cansou das velhas mulherzinhas e de seus louvores.

Ou aprendem a arrepiar-se com um erudito meio-doido, que espera em quartos escuros que os espíritos venham a ele - e de quem o espírito foge inteiramente!

Ou escutam um velho assobiador de histórias e resmungos, arrastado de um lado para outro, que aprendeu com ventos turvos a tristeza dos tons; agora assobia conforme o vento e prega tristeza em tons turvos.

E alguns deles até se tornaram vigias noturnos: agora entendem de soprar cornetas e rondar à noite e despertar velhas coisas que há muito já adormeceram.

Cinco palavras sobre velhas coisas ouvi ontem à noite junto ao muro do jardim: vinham desses velhos vigias noturnos, entristecidos e secos.

"Como pai, ele não se preocupa o bastante com seus filhos: pais humanos fazem isso melhor!" -

"Ele é velho demais! Já não se preocupa de modo algum com seus filhos" - respondeu assim o outro vigia noturno.

"Mas ele tem filhos? Ninguém pode prová-lo, se ele próprio não o prova! Há muito eu queria que ele o provasse uma vez de modo completo."

"Provar? Como se Ele alguma vez tivesse provado algo! Provar é difícil para ele; dá grande valor a que acreditem nele."

"Sim! Sim! A fé o torna bem-aventurado, a fé nele. Assim é a espécie dos velhos! Assim acontece conosco também!" -

- Assim falaram entre si os dois velhos vigias noturnos e espanta-luzes, e depois sopraram tristemente suas cornetas: assim aconteceu ontem à noite junto ao muro do jardim.

A mim, porém, o coração se retorcia de riso, e queria partir-se, e não sabia para onde ir; e afundou no diafragma.

Em verdade, ainda será minha morte eu me sufocar de riso quando vir bêbados e ouvir vigias noturnos assim duvidarem de Deus.

Não passou há muito o tempo também para todas essas dúvidas? Quem pode ainda despertar tais velhas coisas adormecidas e temerosas da luz!

Com os velhos deuses, tudo terminou há muito: - e, em verdade, tiveram um bom e alegre fim de deuses!

Eles não se "crepuscularam" até a morte - isso é mentira que se conta! Ao contrário: um dia eles mesmos se riram - até morrer!

Isso aconteceu quando a palavra mais sem-deus partiu de um próprio deus - a palavra: "Há um só Deus! Não terás outros deuses além de mim!" -

- um velho deus de barba raivosa, um ciumento, esqueceu-se assim:

E todos os deuses riram então, balançaram-se em suas cadeiras e gritaram: "Não é justamente divindade que haja deuses, mas nenhum Deus?"

Quem tem ouvidos, ouça. -

Assim falou Zaratustra na cidade que amava e que é chamada a Vaca Malhada. Dali, com efeito, faltavam-lhe apenas dois dias de caminho para retornar à sua caverna e a seus animais; sua alma, porém, jubilava continuamente pela proximidade de seu retorno. -

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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