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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 41 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Dos Poetas

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Dos Poetas

"Desde que conheço melhor o corpo", disse Zaratustra a um de seus discípulos, "o espírito é para mim apenas, por assim dizer, espírito; e tudo o que é 'imperecível' - isso também é apenas uma parábola."

"Já te ouvi dizer isso uma vez", respondeu o discípulo; "e então acrescentaste: 'mas os poetas mentem demais.' Por que disseste, afinal, que os poetas mentem demais?"

"Por quê?", disse Zaratustra. "Tu perguntas por quê? Não pertenço àqueles a quem se pode perguntar por seu porquê.

Será minha experiência coisa de ontem? Faz muito tempo que vivi as razões de minhas opiniões.

Não teria eu de ser um tonel de memória, se também quisesse trazer comigo minhas razões?

Já é demais para mim conservar minhas próprias opiniões; e mais de um pássaro voa embora.

E às vezes também encontro em meu pombal um animal extraviado, que me é estranho, e que treme quando ponho a mão sobre ele.

Mas o que te disse outrora Zaratustra? Que os poetas mentem demais? - Mas também Zaratustra é um poeta.

Crês agora que ele falava aqui a verdade? Por que crês isso?"

O discípulo respondeu: "Eu creio em Zaratustra." Mas Zaratustra balançou a cabeça e sorriu.

A fé não me torna bem-aventurado, disse ele, muito menos a fé em mim.

Mas supondo que alguém dissesse com toda seriedade: os poetas mentem demais; então ele tem razão - nós mentimos demais.

Também sabemos pouco e somos maus aprendizes: por isso já temos de mentir.

E qual de nós, poetas, não adulterou seu vinho? Mais de uma mistura venenosa aconteceu em nossas adegas, mais de uma coisa indescritível ali se fez.

E porque sabemos pouco, agradam-nos de coração os pobres de espírito, especialmente quando são mulherzinhas jovens!

E até pelas coisas ainda temos cobiça que as velhas mulherzinhas contam à noite. A isso chamamos em nós mesmos o eterno-feminino.

E como se houvesse um acesso secreto particular ao saber, que se soterrasse para aqueles que aprendem alguma coisa: assim cremos no povo e em sua "sabedoria".

Mas todos os poetas creem isto: que quem, deitado na grama ou em encostas solitárias, aguça os ouvidos, fica sabendo algo das coisas que há entre céu e terra.

E quando lhes vêm ternas comoções, os poetas sempre pensam que a própria natureza está enamorada deles:

e que ela se esgueira até seus ouvidos para lhes dizer segredos e lisonjas apaixonadas: disso se orgulham e se inflam diante de todos os mortais!

Ah, há tantas coisas entre céu e terra das quais apenas os poetas deixaram-se sonhar alguma coisa!

E sobretudo acima do céu: pois todos os deuses são parábolas de poeta, contrabandos de poeta!

Em verdade, sempre somos puxados para cima - isto é, para o reino das nuvens: sobre elas colocamos nossas peles coloridas e então as chamamos de deuses e além-do-homem: -

pois são leves o bastante para essas cadeiras! - todos esses deuses e além-do-homem.

Ah, como estou cansado de todo insuficiente que quer a todo custo ser acontecimento! Ah, como estou cansado dos poetas!

Quando Zaratustra assim falou, seu discípulo se irritou com ele, mas calou-se. E também Zaratustra se calou; e seu olho se voltou para dentro, como se visse amplas lonjuras. Por fim suspirou e tomou fôlego.

Sou de hoje e de outrora, disse então; mas há algo em mim que é de amanhã e de depois de amanhã e de algum dia.

Cansei-me dos poetas, dos antigos e dos novos: todos me parecem superficiais e mares rasos.

Não pensaram bastante para dentro da profundeza: por isso seu sentimento não afundou até os fundamentos.

Alguma volúpia e algum tédio: isso foi até agora seu melhor pensar.

Sopro e deslizar de espectros me parece todo o tilintar de suas harpas; que souberam eles até agora do ardor dos sons! -

Também não são limpos o bastante para mim: todos turvam suas águas para que pareçam profundas.

E de bom grado se apresentam com isso como reconciliadores: mas mediadores e misturadores permanecem para mim, meios-termos, meio a meio e impuros! -

Ah, bem lancei minha rede em seus mares e quis apanhar bons peixes; mas sempre puxei para cima a cabeça de um velho deus.

Assim o mar deu uma pedra ao faminto. E eles mesmos talvez venham do mar.

Certamente, encontram-se pérolas neles: tanto mais semelhantes são eles mesmos a duros animais de concha. E, em vez de alma, muitas vezes encontrei neles lodo salgado.

Aprenderam do mar também sua vaidade: não é o mar o pavão dos pavões?

Até diante do mais feio de todos os búfalos ele abre sua cauda, nunca se cansa de seu leque rendado de prata e seda.

Desafiador, o búfalo olha para isso, próximo da areia em sua alma, mais próximo ainda do matagal, mas mais próximo de tudo do pântano.

Que lhe importa beleza, mar e ornamento de pavão! Esta parábola digo aos poetas.

Em verdade, seu próprio espírito é o pavão dos pavões e um mar de vaidade!

Espectadores quer o espírito do poeta: ainda que sejam búfalos! -

Mas cansei-me desse espírito: e vejo chegar o tempo em que ele se cansará de si mesmo.

Já vi os poetas transformados e o olhar voltado contra si mesmos.

Vi chegarem penitentes do espírito: cresceram deles.

Assim falou Zaratustra.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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