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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 14 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Das Moscas do Mercado

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Das Moscas do Mercado

# Primeira Parte

Foge, meu amigo, para tua solidão! Vejo-te atordoado pelo ruído dos grandes homens e picado pelos ferrões dos pequenos.

Bosque e rochedo sabem calar-se dignamente contigo. Torna a ser semelhante à árvore que amas, a de largos ramos: silenciosa e atenta, ela pende sobre o mar.

Onde acaba a solidão, começa o mercado; e onde começa o mercado, começa também o ruído dos grandes atores e o zumbido das moscas venenosas.

No mundo, as melhores coisas ainda de nada valem sem alguém que primeiro as encene: o povo chama esses encenadores de grandes homens.

Pouco compreende o povo o grande, isto é: o criador. Mas tem sentidos para todos os encenadores e atores de grandes coisas.

Em torno dos inventores de novos valores gira o mundo: invisivelmente gira. Mas em torno dos atores gira o povo e a fama: assim é o curso do mundo.

Espírito tem o ator, mas pouca consciência do espírito. Ele acredita sempre naquilo com que mais fortemente faz crer, faz crer em si mesmo!

Amanhã terá uma nova crença, e depois de amanhã uma ainda mais nova. Tem sentidos rápidos, como o povo, e humores mutáveis.

Derrubar: isso se chama para ele provar. Enlouquecer: isso se chama para ele convencer. E sangue vale para ele como o melhor de todos os argumentos.

Uma verdade que apenas se insinua em ouvidos finos ele chama mentira e nada. Na verdade, só acredita em deuses que fazem grande ruído no mundo!

Cheio de bufões solenes está o mercado, e o povo se gaba de seus grandes homens! Esses são para ele os senhores da hora.

Mas a hora os pressiona: assim eles te pressionam. E também de ti querem Sim ou Não. Ai de ti, se queres pôr tua cadeira entre o a favor e o contra!

Por causa desses incondicionais e pressionadores, sê sem ciúme, tu, amante da verdade! Jamais a verdade se pendurou no braço de um incondicional.

Por causa desses repentinos, volta para tua segurança: só no mercado somos assaltados com “Sim?” ou “Não?”

Lenta é a experiência de todos os poços profundos: muito tempo precisam esperar até saberem o que caiu em sua profundeza.

Longe do mercado e da fama acontece tudo o que é grande: longe do mercado e da fama habitaram desde sempre os inventores de novos valores.

Foge, meu amigo, para tua solidão: vejo-te picado por moscas venenosas. Foge para onde sopra um ar rude e forte!

Foge para tua solidão! Viveste perto demais dos pequenos e miseráveis. Foge de sua vingança invisível! Contra ti eles nada são senão vingança.

Não ergas mais o braço contra eles! São incontáveis, e não é teu destino ser espanta-moscas.

Incontáveis são esses pequenos e miseráveis; e a muitas construções orgulhosas já bastaram gotas de chuva e ervas daninhas para o ocaso.

Não és pedra, mas já ficaste oco por causa de muitas gotas. Ainda irás quebrar e estalar por causa de muitas gotas.

Vejo-te cansado pelas moscas venenosas, vejo-te riscado de sangue em cem lugares; e teu orgulho nem sequer quer enfurecer-se.

Querem sangue de ti com toda inocência; sangue desejam suas almas sem sangue, e por isso picam com toda inocência.

Mas tu, profundo, sofres fundo demais até com pequenas feridas; e antes mesmo de te curares, o mesmo verme venenoso rastejou por tua mão.

És orgulhoso demais, para mim, para matar esses gulosos. Mas cuida para que não se torne teu destino carregar toda a venenosa injustiça deles!

Eles zumbem ao teu redor também com seu louvor: importunação é seu louvar. Querem a proximidade de tua pele e de teu sangue.

Adulam-te como a um Deus ou a um diabo; choramingam diante de ti como diante de um Deus ou de um diabo. Que importa! São aduladores e choramingadores, e nada mais.

Muitas vezes também se apresentam a ti como amáveis. Mas essa sempre foi a esperteza dos covardes. Sim, os covardes são espertos!

Pensam muito sobre ti com sua alma estreita; sempre és suspeito para eles! Tudo aquilo sobre o que muito se pensa torna-se suspeito.

Eles te castigam por todas as tuas virtudes. Perdoam-te desde o fundo apenas teus deslizes.

Porque és brando e de senso justo, dizes: “inocentes são eles de sua pequena existência.” Mas sua alma estreita pensa: “culpada é toda grande existência.”

Mesmo quando és brando com eles, ainda se sentem desprezados por ti; e devolvem teu benefício com malefícios escondidos.

Teu orgulho sem palavras vai sempre contra o gosto deles; rejubilam quando uma vez és modesto o bastante para ser vaidoso.

Aquilo que reconhecemos num homem, também nele acendemos. Portanto, guarda-te dos pequenos!

Diante de ti eles se sentem pequenos, e sua baixeza arde e brilha contra ti em vingança invisível.

Não notaste quantas vezes ficaram mudos quando te aproximaste deles, e como sua força os deixou como a fumaça de um fogo que se apaga?

Sim, meu amigo, tu és a má consciência de teus próximos: pois eles são indignos de ti. Por isso te odeiam e gostariam de sugar teu sangue.

Teus próximos serão sempre moscas venenosas; aquilo que há de grande em ti é o que deve torná-las mais venenosas e cada vez mais moscas.

Foge, meu amigo, para tua solidão e para onde sopra um ar rude e forte. Não é teu destino ser espanta-moscas.

Assim falou Zaratustra.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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