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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 34 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

A Canção da Dança

34 de 82 ≈ 5 min de leitura

A Canção da Dança

Certa tarde, Zaratustra caminhava com seus discípulos pela floresta; e, ao procurar

um poço, vede, chegou a uma campina verde, silenciosamente rodeada por

árvores e arbustos: nela dançavam moças umas com as outras.

Assim que as moças reconheceram Zaratustra, deixaram a dança; Zaratustra,

porém, aproximou-se delas com gesto amigável e falou estas palavras:

"Não deixeis a dança, ó amáveis moças! Nenhum estraga-prazer veio até

vós com mau olhar, nenhum inimigo das moças.

Sou advogado de Deus diante do diabo: este, porém, é o espírito de gravidade.

Como poderia eu, ó leves, ser inimigo de danças divinas? Ou de pés de moça

com belos tornozelos?

Bem sou eu uma floresta e uma noite de árvores escuras: mas quem não teme minha

escuridão encontrará também encostas de rosas sob meus ciprestes.

E encontrará também o pequeno deus, que é o mais querido das moças:

junto ao poço está deitado, quieto, de olhos fechados.

Em verdade, em pleno dia ele adormeceu para mim, o ladrão do dia! Teria ele caçado

borboletas demais?

Não vos zangueis comigo, belas dançarinas, se castigo um pouco o pequeno deus!

Bem há de gritar e chorar - mas é digno de riso até

em seu pranto!

E com lágrimas nos olhos ele deverá pedir-vos uma dança; e eu mesmo quero

cantar uma canção para sua dança:

uma canção de dança e escárnio contra o espírito de gravidade, meu supremo

e poderosíssimo diabo, de quem dizem que é 'o senhor do

mundo'." -

E esta é a canção que Zaratustra cantou quando Cupido e as moças

dançaram juntos.

Olhei há pouco em teu olho, ó Vida! E no insondável pareceu-me

então afundar.

Mas tu me puxaste para fora com anzol de ouro; zombeteira riste quando eu

te chamei insondável.

"Assim fala todo peixe", disseste; "aquilo que ele não sonda

é insondável.

Mas mutável sou apenas, e selvagem, e em tudo uma mulher, e nada

virtuosa:

ainda que vós, homens, me chameis 'a Profunda' ou 'a

Fiel', 'a Eterna', 'a

Misteriosa'." -

Mas vós, homens, sempre nos presenteais com vossas próprias virtudes - ah, vós

virtuosos!

Assim ria ela, a inacreditável; mas nunca acredito nela nem em seu

riso quando fala mal de si mesma.

E quando falei a sós com minha selvagem sabedoria, ela me disse

zangada: "Tu queres, tu desejas, tu amas; só por isso louvas a

Vida!"

Quase respondi então maldosamente e disse à zangada a verdade; e não

se pode responder de modo mais maldoso do que quando se "diz a verdade" à própria sabedoria.

Pois assim estão as coisas entre nós três. No fundo, amo apenas a Vida

- e, em verdade, mais ainda quando a odeio!

Mas que eu seja bom para a sabedoria, e muitas vezes bom demais: isso acontece porque ela me lembra

muitíssimo a Vida!

Ela tem seu olho, seu riso e até sua pequena vara de pescar dourada: que posso eu

fazer se ambas se parecem tanto?

E quando, certa vez, a Vida me perguntou: Quem é, afinal, essa Sabedoria? - então

eu disse com ardor: "Ah, sim! a Sabedoria!

Tem-se sede dela e nunca se fica saciado; olha-se através de véus, agarra-se

através de redes.

É ela bela? Que sei eu! Mas as carpas mais velhas ainda são

iscadas com ela.

Mutável é ela e teimosa; muitas vezes a vi morder o lábio e

passar o pente contra o sentido de seus cabelos.

Talvez seja má e falsa, e em tudo uma mulherzinha; mas quando

fala mal de si mesma, justamente então seduz mais."

Quando eu disse isso à Vida, ela riu maliciosamente e fechou os olhos.

"De quem falas, afinal?", disse ela, "talvez de mim?

E se tivesses razão - diz-se isso assim, na minha cara!

Mas agora fala também de tua Sabedoria!"

Ah, e então abriste de novo teu olho, ó amada Vida! E

no insondável pareceu-me outra vez afundar. -

Assim cantou Zaratustra. Mas, quando a dança terminou e as moças se foram,

ele ficou triste.

"O sol já se pôs há muito", disse ele por fim; "a campina está úmida,

das florestas vem frescor.

Algo desconhecido está ao meu redor e olha pensativo. Como! Tu ainda vives,

Zaratustra?

Por quê? Para quê? Por meio de quê? Para onde? Onde? Como? Não é loucura ainda

viver? -

Ah, meus amigos, é a tarde que assim pergunta de dentro de mim. Perdoai-me minha

tristeza!

Tarde se fez: perdoai-me que tarde se tenha feito!"

Assim falou Zaratustra.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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