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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 45 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Da Prudência Humana

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Da Prudência Humana

Não a altura: o declive é o terrível!

O declive, onde o olhar se precipita para baixo e a mão agarra para cima. Ali o coração sente vertigem diante de sua dupla vontade.

Ah, amigos, adivinhais também a dupla vontade de meu coração?

Isto, isto é meu declive e meu perigo: que meu olhar se precipite para a altura, e que minha mão queira segurar-se e apoiar-se - na profundeza!

Ao humano se agarra minha vontade, com correntes me prendo ao humano, porque sou arrebatado para cima, para o além-do-homem: pois para lá quer minha outra vontade.

E por isso vivo cego entre os homens; como se não os conhecesse: para que minha mão não perca inteiramente sua fé em algo firme.

Não vos conheço, ó homens: essa escuridão e esse consolo muitas vezes se estendem ao meu redor.

Sento-me junto ao portão para todo trapaceiro e pergunto: quem quer enganar-me?

Esta é minha primeira prudência humana: deixo-me enganar, para não ficar de guarda contra enganadores.

Ah, se eu estivesse de guarda contra o homem: como poderia o homem ser uma âncora para minha bola! Leve demais eu seria arrancado para cima e para longe!

Esta providência está sobre meu destino: que eu tenha de ser sem cautela.

E quem não quer definhar entre os homens deve aprender a beber de todos os copos; e quem quer permanecer puro entre os homens deve entender também como se lavar com água suja.

E assim muitas vezes falei para meu consolo: "Pois bem! Eia! Velho coração! Uma desgraça te saiu mal: desfruta disso como tua - sorte!"

Esta, porém, é minha segunda prudência humana: poupo mais os vaidosos do que os orgulhosos.

Não é a vaidade ferida a mãe de todas as tragédias? Mas onde o orgulho é ferido, ali talvez cresça ainda algo melhor que o orgulho.

Para que a vida seja boa de contemplar, é preciso que seu jogo seja bem representado: para isso, porém, são necessários bons atores.

Bons atores encontrei em todos os vaidosos: eles representam e querem que se goste de observá-los - todo o seu espírito está nessa vontade.

Eles se põem em cena, eles se inventam; perto deles amo contemplar a vida - isso cura da melancolia.

Por isso poupo os vaidosos, porque são médicos de minha melancolia e me mantêm preso ao humano como a um espetáculo.

E então: quem mede no vaidoso toda a profundidade de sua modéstia! Sou bom e compassivo para com ele por causa de sua modéstia.

De vós ele quer aprender sua fé em si mesmo; alimenta-se de vossos olhares, devora o louvor de vossas mãos.

Ele ainda acredita em vossas mentiras, quando mentis bem a respeito dele: pois no mais fundo suspira seu coração: "que sou eu!"

E se esta é a verdadeira virtude, a que nada sabe de si mesma: ora, o vaidoso nada sabe de sua modéstia! -

Esta, porém, é minha terceira prudência humana: não deixo que vossa timidez me estrague a visão dos maus.

Sou bem-aventurado por ver as maravilhas que o sol quente incuba: tigres e palmeiras e cascavéis.

Também entre os homens há bela ninhada do sol quente, e muito de maravilhoso nos maus.

É verdade: assim como vossos mais sábios não me pareceram tão sábios assim, também encontrei a maldade dos homens abaixo de sua reputação.

E muitas vezes perguntei, balançando a cabeça: Por que ainda chocalhais, ó cascavéis?

Em verdade, há ainda um futuro também para o mal! E o sul mais quente ainda não foi descoberto para o humano.

Quanta coisa já se chama agora a pior maldade, e no entanto tem apenas doze pés de largura e três meses de duração! Mas um dia dragões maiores virão ao mundo.

Pois, para que ao além-do-homem não falte seu dragão, o além-dragão digno dele, ainda muito sol quente deve arder sobre úmida floresta virgem!

De vossos gatos selvagens precisam primeiro nascer tigres, e de vossos sapos venenosos, crocodilos: pois o bom caçador deve ter uma boa caça!

E, em verdade, vós, bons e justos! Há muito em vós de que rir, e sobretudo vosso medo daquilo que até agora se chamou "diabo"!

Tão estranhos sois ao grande em vossa alma que o além-do-homem vos seria terrível em sua bondade!

E vós, sábios e conhecedores, fugiríeis do incêndio solar da sabedoria em que o além-do-homem banha com prazer sua nudez!

Vós, homens supremos, que meu olhar encontrou! esta é minha dúvida a vosso respeito e meu riso secreto: adivinho que chamaríeis meu além-do-homem - diabo!

Ah, cansei-me desses supremos e melhores: de sua "altura" desejei subir, sair, ir embora para o além-do-homem!

Um horror me tomou quando vi nus esses melhores: então cresceram-me asas para voar para futuros distantes.

Para futuros mais distantes, para regiões mais meridionais do que jamais sonhou um formador: para lá, onde os deuses se envergonham de todas as roupas!

Mas disfarçados quero ver-vos, vós próximos e semelhantes, e bem enfeitados, e vaidosos, e dignos, como "os bons e justos" -

E disfarçado quero eu mesmo sentar-me entre vós - para desconhecer a vós e a mim: pois esta é minha última prudência humana.

Assim falou Zaratustra.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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