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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 65 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Conversa com os Reis

65 de 82 ≈ 8 min de leitura

Conversa com os Reis

#### 1.

Zaratustra ainda não havia caminhado uma hora por suas montanhas e florestas quando

viu de repente um estranho cortejo. Justamente pelo caminho que ele

queria descer, vinham andando dois reis, ornados com coroas e cintos de púrpura

e coloridos como flamingos: conduziam diante de si um burro carregado.

"Que querem estes reis em meu reino?", falou Zaratustra

espantado a seu coração, e escondeu-se depressa atrás de um arbusto.

Quando, porém, os reis chegaram perto dele, disse ele, a meia voz, como alguém que

fala apenas consigo: "Estranho! Estranho! Como isso rima junto? Vejo dois

reis - e apenas um burro!"

Então os dois reis pararam, sorriram, olharam para o lugar de onde

viera a voz, e depois olharam um para o rosto do outro. "Coisas assim

também se pensa entre nós", disse o rei da direita, "mas não se

diz em voz alta."

O rei da esquerda, porém, encolheu os ombros e respondeu: "Isso bem pode

ser um cabreiro. Ou um eremita que viveu tempo demais entre rochas e árvores.

Pois nenhuma companhia também estraga os bons costumes."

"Os bons costumes?", replicou, contrariado e amargo, o outro rei: "de quem

estamos fugindo então? Não é dos 'bons costumes'? De nossa

'boa sociedade'?

Antes, em verdade, viver entre eremitas e cabreiros do que com nosso populacho

dourado, falso e coberto de maquiagem - ainda que se chame 'boa

sociedade',

- ainda que se chame 'nobreza'. Mas ali tudo é falso e

podre, antes de tudo o sangue, graças a antigas doenças ruins e a piores

médicos-curadores.

O melhor e mais querido para mim hoje ainda é um camponês saudável, rude, astuto,

teimoso, resistente: essa é hoje a espécie mais nobre.

O camponês é hoje o melhor; e a espécie camponesa deveria ser senhora! Mas este é o

reino do populacho - já não me deixo enganar. Populacho, porém, quer

dizer: mistura.

Mistura de populacho: nela tudo está misturado em tudo, santo e patife

e fidalgote e judeu e todo animal da arca de Noé.

Bons costumes! Tudo entre nós é falso e podre. Ninguém mais sabe venerar:

disso justamente fugimos. São cães adocicados e intrometidos; douram

folhas de palmeira.

Este nojo me estrangula: que nós, reis, nos tenhamos tornado falsos, cobertos e

disfarçados por velho fausto amarelado de avós, medalhas de exibição para os

mais tolos e os mais espertos, e para todos os que hoje regateiam com o poder!

Não somos os primeiros - e contudo temos de significá-lo:

dessa fraude estamos enfim fartos e enjoados.

Da ralé fugimos, de todos esses berradores e moscas-de-escrever,

do fedor de mercador, do tremelicar da ambição, do mau

hálito - pfui, viver entre a ralé,

- pfui, significar os primeiros entre a ralé! Ah, nojo! Nojo! Nojo!

Que importa ainda nós, reis!" -

"Tua velha doença te assalta", disse aqui o rei da esquerda, "o nojo

te assalta, meu pobre irmão. Mas sabes, contudo, que alguém nos

ouve."

Imediatamente Zaratustra, que havia arregalado ouvidos e olhos para esses discursos,

ergueu-se de seu esconderijo, aproximou-se dos reis e começou:

"Aquele que vos ouve, aquele que vos ouve com prazer, ó reis, chama-se Zaratustra.

Eu sou Zaratustra, que outrora falou: 'Que importa ainda os reis!'

Perdoai-me, alegrei-me quando dissestes um ao outro: 'Que importam

nós, reis!'

Aqui, porém, está meu reino e meu domínio: que poderíeis vós procurar em

meu reino? Talvez, porém, tenhais encontrado pelo caminho aquilo que

eu procuro: a saber, o homem superior."

Quando os reis ouviram isso, bateram no peito e falaram com

uma só boca: "Fomos reconhecidos!

Com a espada desta palavra rasgas a mais espessa escuridão de nosso coração.

Descobriste nossa necessidade, pois vê! Estamos a caminho para encontrar o homem

superior -

- o homem que é mais alto que nós, embora sejamos reis. A ele

conduzimos este burro. Pois o homem mais alto deve ser também, sobre a terra,

o senhor mais alto.

Não há desgraça mais dura em todo destino humano do que quando os

poderosos da terra não são também os primeiros homens. Então tudo se torna falso

e torto e monstruoso.

E quando são até os últimos, e mais animal que homem: então sobe e

sobe o preço do populacho, e por fim fala até a virtude do populacho:

'vede, eu somente sou virtude!'" -

"Que ouvi agora?", respondeu Zaratustra; "que sabedoria entre reis! Estou

encantado, e, em verdade, já me dá vontade de fazer uma rima sobre isso: -

- ainda que se torne uma rima que não serve para todos os ouvidos. Há muito

desaprendi já a consideração por longas orelhas. Pois bem! Ânimo!

(Aqui, porém, aconteceu que também o burro tomou a palavra: mas disse claramente

e com má vontade: I-A.)

Outrora - creio, no ano da salvação Um -

Falou a Sibila, ébria sem vinho algum:

'Ai, agora tudo entorta!

Declínio! Declínio! Nunca o mundo caiu tão fundo!

Roma caiu em meretriz e bordel,

O César de Roma caiu em animal, Deus mesmo - fez-se judeu!'"

#### 2.

Com essas rimas de Zaratustra regalaram-se os reis; o rei da

direita, porém, falou: "Ó Zaratustra, quão bem fizemos em sair

para ver-te!

Teus inimigos, a saber, mostraram-nos tua imagem em seu espelho: ali olhavas

com a carranca de um diabo e rindo com escárnio, de modo que tivemos

medo de ti.

Mas de que adiantou! Sempre de novo nos ferias ouvido e coração com tuas

sentenças. Então finalmente dissemos: que importa como ele parece!

Precisamos ouvi-lo, ele, que ensina: 'deveis amar a paz

como meio para novas guerras, e a paz curta mais do que a longa!'

Ninguém jamais falou palavras tão guerreiras: 'Que é bom? Ser valente é

bom. A boa guerra é que santifica toda causa.'

Ó Zaratustra, o sangue de nossos pais se mexia com tais palavras em nosso

corpo: era como a fala da primavera para velhos tonéis de vinho.

Quando as espadas corriam umas contra as outras como serpentes manchadas de vermelho, então

nossos pais ficavam de bem com a vida; todo sol da paz lhes parecia frouxo e morno,

e a longa paz, porém, causava vergonha.

Como suspiravam nossos pais quando viam na parede espadas reluzentes e ressequidas!

Como elas, tinham sede de guerra. Pois uma espada

quer beber sangue e cintila de desejo." -

- Enquanto os reis assim falavam e tagarelavam com zelo sobre a felicidade de seus pais,

Zaratustra não sentiu pequena vontade de zombar desse zelo:

pois visivelmente eram reis muito pacíficos aqueles que via diante de si,

tais com rostos velhos e finos. Mas dominou-se. "Pois bem!", falou

ele, "para lá leva o caminho, ali fica a caverna de Zaratustra; e este

dia deve ter uma longa noite! Agora, porém, um grito de socorro me chama

de vós às pressas.

Honra minha caverna se reis quiserem sentar-se nela e esperar: mas,

certamente, tereis de esperar muito tempo!

Ora! Que importa! Onde hoje se aprende melhor a esperar do que nas cortes? E

toda a virtude dos reis que lhes restou - não se chama hoje:

saber-esperar?"

Assim falou Zaratustra.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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