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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 11 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Dos Pregadores da Morte

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Dos Pregadores da Morte

# Primeira Parte

Há pregadores da morte: e a terra está cheia daqueles a quem se deve pregar afastamento da vida.

A terra está cheia de supérfluos, a vida está corrompida pelos demasiados. Que sejam atraídos para fora desta vida com a “vida eterna”!

“Amarelos”, assim se chamam os pregadores da morte; ou “negros”. Mas quero mostrá-los ainda em outras cores.

Ali estão os terríveis, que carregam em si a fera predadora e não têm escolha senão volúpias ou autodilaceração. E mesmo suas volúpias ainda são autodilaceração.

Ainda nem se tornaram homens, esses terríveis: que preguem afastamento da vida e eles mesmos desapareçam!

Ali estão os tísicos da alma: mal nascem, já começam a morrer e anseiam por doutrinas de cansaço e renúncia.

Gostariam de estar mortos, e nós deveríamos aprovar sua vontade! Cuidemos de não despertar esses mortos e de não ferir esses caixões vivos!

Encontram um doente, ou um velho, ou um cadáver; e logo dizem: “a vida está refutada!”

Mas apenas eles estão refutados, e seu olho, que vê na existência apenas esse único rosto.

Envoltos em espessa melancolia e ávidos pelos pequenos acasos que trazem a morte: assim esperam e rangem os dentes uns contra os outros.

Ou então: agarram-se a guloseimas e zombam de sua criancice ao mesmo tempo; agarram-se ao canudo da vida e zombam de ainda estarem agarrados a um canudo.

Sua sabedoria soa assim: “tolo é quem continua vivo, mas tanto somos nós tolos! E isso é justamente o mais tolo na vida!”

“A vida é apenas sofrimento”, assim dizem outros, e não mentem: cuidai então de acabar! Cuidai então de que acabe a vida que é apenas sofrimento!

E assim soe a doutrina de vossa virtude: “deves matar-te a ti mesmo! Deves furtar-te para fora!”

“Volúpia é pecado”, assim dizem alguns que pregam a morte, “afastemo-nos e não geremos filhos!”

“Dar à luz é penoso”, dizem outros. “Para que ainda dar à luz? Só se dá à luz infelizes!” E também eles são pregadores da morte.

“Compaixão é necessária”, assim dizem os terceiros. “Tomai o que tenho! Tomai o que sou! Tanto menos a vida me prende!”

Se fossem compassivos desde o fundo, tornariam a vida insuportável para seus próximos. Ser maus seria sua verdadeira bondade.

Mas querem livrar-se da vida: que lhes importa que prendam os outros ainda mais firmemente com suas correntes e presentes!

E também vós, para quem a vida é trabalho selvagem e inquietação: não estais muito cansados da vida? Não estais muito maduros para a pregação da morte?

Vós todos, que amais o trabalho selvagem e o rápido, o novo, o estranho, vós vos suportais mal; vossa diligência é fuga e vontade de esquecer a si mesmo.

Se acreditásseis mais na vida, menos vos lançaríeis ao instante. Mas não tendes dentro de vós conteúdo suficiente para esperar, nem sequer para a preguiça!

Por toda parte ressoa a voz daqueles que pregam a morte: e a terra está cheia daqueles a quem a morte deve ser pregada.

Ou “a vida eterna”: para mim dá no mesmo, contanto que desapareçam depressa!

Assim falou Zaratustra.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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