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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 32 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Dos Sábios Famosos

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Dos Sábios Famosos

Ao povo servistes, e à superstição do povo, vós, sábios famosos

todos! - e não à verdade! E precisamente por isso vos prestaram

reverência.

E também por isso suportaram vossa descrença, porque ela era uma graça e um desvio até o

povo. Assim o senhor deixa seus escravos fazerem e ainda se diverte com sua

insolência.

Mas quem é odiado pelo povo como o lobo pelos cães: esse é o livre

espírito, inimigo dos grilhões, não-adorador, morador das florestas.

Caçá-lo para fora de seu esconderijo - isso sempre se chamou, para o povo, "senso do

direito": contra ele ainda atiça seus cães de dentes mais afiados.

"Pois a verdade está aí: afinal o povo está aí! Ai, ai dos

que buscam!" - assim soou desde sempre.

Ao vosso povo quisestes fazer justiça em sua veneração: a isso chamáveis

"vontade de verdade", ó sábios famosos!

E vosso coração sempre dizia a si mesmo: "do povo vim: de lá me veio

também a voz de Deus."

Teimosos e astutos, semelhantes ao asno, sempre fostes como advogados do

povo.

E alguns poderosos que queriam ir bem com o povo atrelavam diante de seus

cavalos ainda - um asninho, um sábio famoso.

E agora eu queria, ó sábios famosos, que finalmente lançásseis para longe de vós

inteiramente a pele do leão!

A pele da fera, a malhada, e as madeixas daquele que investiga,

busca, conquista!

Ah, para que eu aprendesse a crer em vossa "veracidade", primeiro teríeis de me

quebrar vossa vontade veneradora.

Veraz - assim chamo eu aquele que entra em desertos sem deuses e quebrou seu

coração venerador.

Na areia amarela e queimado pelo sol, talvez ele espreite sedento as

ilhas ricas em fontes, onde o vivo repousa sob árvores escuras.

Mas sua sede não o persuade a tornar-se igual a esses confortáveis: pois

onde há oásis, ali há também imagens de ídolos.

Faminto, violento, solitário, sem deus: assim quer a si mesma a vontade de leão.

Livre da felicidade dos servos, redimida de deuses e adorações, destemida

e temível, grande e solitária: assim é a vontade do veraz.

No deserto habitaram desde sempre os verazes, os espíritos livres, como senhores

do deserto; mas nas cidades moram os bem-alimentados, famosos

sábios - os animais de tração.

Pois sempre puxam, como asnos - a carroça do povo!

Não que por isso eu me zangue com eles: mas servidores permanecem para mim e

atrelados, ainda que reluzam com arreios de ouro.

E muitas vezes foram bons servidores e dignos de louvor. Pois assim fala a virtude:

se deves ser servidor, procura aquele a quem teu serviço mais aproveita!

"O espírito e a virtude de teu senhor devem crescer pelo fato de seres

seu servidor: assim tu mesmo cresces com seu espírito e sua virtude!"

E, em verdade, ó sábios famosos, vós servidores do povo! Vós mesmos crescestes

com o espírito e a virtude do povo - e o povo por meio de vós! Em vossa honra

digo isto!

Mas povo continuais sendo para mim, mesmo em vossas virtudes, povo de olhos

embotados - povo que não sabe o que é espírito!

Espírito é a vida que corta a própria vida: com a própria dor

aumenta o próprio saber - já sabíeis isso?

E a felicidade do espírito é esta: ser ungido e consagrado por lágrimas como

animal de sacrifício - já sabíeis isso?

E a cegueira do cego, e sua busca e seu tatear, ainda devem testemunhar a

potência do sol para o qual ele olhou - já sabíeis isso?

E com montanhas deve aquele que conhece aprender a construir! Pouco é que o

espírito desloque montanhas - já sabíeis isso?

Conheceis apenas a centelha do espírito: mas não vedes a bigorna que ele é,

nem a crueldade de seu martelo!

Em verdade, não conheceis o orgulho do espírito! Mas ainda menos suportaríeis a

modéstia do espírito, se ela um dia quisesse falar!

E nunca ainda ousastes lançar vosso espírito em uma cova de neve: não

sois quentes o bastante para isso! Assim tampouco conheceis os êxtases de sua frieza.

Em tudo, porém, tratais o espírito com familiaridade demais; e da sabedoria

muitas vezes fizestes uma casa de pobres e hospital para maus poetas.

Não sois águias: por isso também não experimentastes a felicidade no terror do espírito.

E quem não é pássaro não deve alojar-se sobre abismos.

Sois mornos para mim: mas fria corre toda profunda compreensão. Gelados são os

poços mais íntimos do espírito: alívio para mãos quentes e para os que agem.

Honrados estais aí diante de mim, rígidos e de costas retas, ó sábios famosos!

- nenhum vento forte e nenhuma vontade vos impele.

Nunca vistes uma vela andar sobre o mar, arredondada, inflada e trêmula

diante da impetuosidade do vento?

Semelhante à vela, trêmula diante da impetuosidade do espírito, minha sabedoria

vai sobre o mar - minha sabedoria selvagem!

Mas vós, servidores do povo, ó sábios famosos - como poderíeis

ir comigo! -

Assim falou Zaratustra.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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