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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 30 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Da Ralé

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Da Ralé

A vida é um manancial de prazer; mas onde a ralé bebe junto, ali todos os poços estão envenenados.

A tudo que é limpo sou afeiçoado; mas não suporto ver as bocas arreganhadas

e a sede dos impuros.

Eles lançaram seus olhos para dentro do poço: agora seu sorriso repugnante

brilha para mim, de baixo para cima, a partir do poço.

Envenenaram a água sagrada com sua lascívia; e, quando chamaram prazer a seus

sonhos sujos, envenenaram também as palavras.

A chama fica contrariada quando eles encostam seus corações úmidos ao fogo;

o próprio espírito borbulha e fumega quando a ralé se aproxima do fogo.

Doce demais e madura demais fica a fruta em sua mão: seu olhar torna a árvore frutífera

caída antes do tempo e seca no topo.

E alguns que se afastaram da vida afastaram-se apenas da ralé: não

queriam partilhar poço, chama e fruto com a ralé.

E alguns que foram ao deserto e sofreram sede com animais de rapina só

não queriam sentar-se à cisterna com camelteiros sujos.

E alguns que vieram como destruidores e como granizo sobre todos

os campos frutíferos só queriam pôr o pé na garganta da ralé e

assim tapar-lhe a goela.

E não é este o bocado com que mais me engasguei: saber que a

própria vida necessita de inimizade, morte e cruzes de martírio: -

mas perguntei certa vez, e quase sufoquei com minha pergunta: como? a vida

também necessita da ralé?

São necessários poços envenenados, fogos fedorentos, sonhos manchados e

vermes no pão da vida?

Não meu ódio, mas meu nojo roeu faminto minha vida! Ah, do espírito

muitas vezes me cansei, quando também achei a ralé espirituosa!

E voltei as costas aos dominadores quando vi o que agora

chamam dominar: barganhar e negociar por poder - com a ralé!

Habitei entre povos de língua estrangeira, com os ouvidos fechados: para que

a língua de seu barganhar me permanecesse estranha, e seu negociar por poder.

E, tapando o nariz, atravessei desgostoso todo ontem e hoje:

em verdade, todo ontem e hoje cheira mal por causa da ralé escrevente!

Como um aleijado que se tornou surdo, cego e mudo: assim vivi por muito tempo,

para não viver com a ralé do poder, da escrita e do prazer.

Penosa subia meu espírito as escadas, e cautelosamente; esmolas de prazer eram seu

alívio; apoiada no bastão, a vida rastejava para o cego.

Que me aconteceu, afinal? Como me redimi do nojo? Quem rejuveneceu meu olhar?

Como voei até a altura onde nenhuma ralé mais se senta junto ao poço?

Meu próprio nojo criou-me asas e forças pressentidoras de nascentes? Em verdade,

ao mais alto tive de voar para reencontrar o manancial do prazer!

Oh, eu o encontrei, meus irmãos! Aqui, no mais alto, jorra para mim o manancial do prazer!

E há uma vida da qual nenhuma ralé bebe junto!

Quase violento demais jorras para mim, fonte do prazer! E muitas vezes esvazias novamente o cálice

justamente por quereres enchê-lo!

E ainda preciso aprender a aproximar-me de ti com mais modéstia: violento demais corre

ainda meu coração ao teu encontro: -

meu coração, sobre o qual arde meu verão, o breve, quente, melancólico,

supra-ditoso: como meu coração de verão anseia por tua frescura!

Passou a tristeza hesitante de minha primavera! Passou a maldade de meus

flocos de neve em junho! Tornei-me verão inteiro e meio-dia de verão!

Um verão no mais alto, com fontes frias e silêncio bem-aventurado: oh, vinde, meus

amigos, para que o silêncio se torne ainda mais bem-aventurado! Pois esta é nossa altura

e nossa pátria: alto demais e íngreme demais moramos aqui para todos os impuros e sua

sede.

Lançai apenas vossos olhos puros no manancial de meu prazer, amigos! Como

poderia ele tornar-se turvo por isso! Há de rir para vós com sua

pureza.

Na árvore Futuro construímos nosso ninho; águias devem trazer alimento

para nós, os solitários, em seus bicos!

Em verdade, nenhum alimento do qual impuros pudessem comer junto! Julgariam comer

fogo e queimariam as bocas!

Em verdade, nenhuma morada mantemos aqui preparada para impuros! Caverna de gelo

se chamaria nossa felicidade para seus corpos e seus espíritos!

E como ventos fortes queremos viver acima deles, vizinhos das águias, vizinhos

da neve, vizinhos do sol: assim vivem ventos fortes.

E como um vento quero ainda um dia soprar entre eles, e com meu

espírito tirar o fôlego de seu espírito: assim quer meu futuro.

Em verdade, um vento forte é Zaratustra para todas as baixadas; e tal conselho

aconselha ele a seus inimigos e a tudo que cospe e escarra: guardai-vos de

cuspir contra o vento!

Assim falou Zaratustra.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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