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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 76 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

A Canção da Melancolia

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A Canção da Melancolia

1.

Quando Zaratustra proferiu esses discursos, estava perto da entrada de sua

caverna; com as últimas palavras, porém, escapuliu de seus hóspedes e fugiu

por breve tempo para o ar livre.

"Ó puros odores ao meu redor", exclamou ele, "ó bem-aventurado silêncio ao

meu redor! Mas onde estão meus animais? Para cá, para cá, minha águia e

minha serpente!

Dizei-me, pois, meus animais: esses homens superiores todos juntos - será que

talvez não cheiram bem? Ó puros odores ao meu redor! Só agora sei e sinto

como vos amo, meus animais."

- E Zaratustra falou mais uma vez: "eu vos amo, meus animais!" A águia,

porém, e a serpente se apertaram contra ele quando disse essas palavras, e

olharam para ele. Desse modo, os três ficaram juntos em silêncio e farejaram

e sorveram juntos o bom ar. Pois o ar aqui fora era melhor que junto dos

homens superiores.

2.

Mal Zaratustra havia deixado sua caverna, levantou-se o velho Feiticeiro,

olhou astutamente ao redor e falou: "Ele saiu!

E já, vós, homens superiores - para que eu vos faça cócegas com este nome

de louvor e lisonja, como ele mesmo - já me assalta meu mau espírito de

engano e magia, meu diabo melancólico,

- que é adversário desse Zaratustra desde o fundo: perdoai-lhe isso! Agora

quer enfeitiçar diante de vós, chegou justamente sua hora; em vão luto com

esse mau espírito.

A todos vós, quaisquer honras que vos deis com palavras, quer vos chameis

'os livres espíritos' ou 'os verazes' ou 'os penitentes do espírito' ou

'os desencadeados' ou 'os grandes saudosos' -

- a todos vós, que sofreis do grande nojo como eu, para quem o velho Deus

morreu e ainda nenhum novo Deus jaz em berços e cueiros - a todos vós é

afeiçoado meu mau espírito e diabo-feiticeiro.

Eu vos conheço, vós, homens superiores, eu o conheço - conheço também este

monstro, que amo contra a vontade, este Zaratustra: ele próprio me parece

muitas vezes igual a uma bela máscara de santo,

- igual a uma nova e estranha mascarada, na qual se compraz meu mau espírito,

o diabo melancólico: - amo Zaratustra, muitas vezes me parece, por causa de

meu mau espírito. -

Mas já me assalta e me obriga, este espírito da melancolia, este diabo do

crepúsculo vespertino: e, em verdade, vós, homens superiores, ele deseja -

- abri bem os olhos! - ele deseja vir nu, se masculino, se feminino, ainda

não sei: mas ele vem, ele me obriga, ai! abri vossos sentidos!

O dia declina, a todas as coisas chega agora o entardecer, também às melhores

coisas; ouvi agora e vede, vós, homens superiores, que diabo, se homem, se

mulher, é este espírito da melancolia vespertina!"

Assim falou o velho Feiticeiro, olhou astutamente ao redor e então tomou sua

harpa.

3.

Em ar aclarado,

Quando já o consolo do orvalho

Escorre para baixo, à terra,

Invisível, também inaudível:

- Pois calçado delicado usa

O consolador orvalho, como todos os brandos consoladores -:

Lembras-te então, lembras-te, coração ardente,

Como um dia tiveste sede,

De lágrimas celestes e gotejar de orvalho

Tiveste sede, abrasado e cansado,

Enquanto por sendas de grama amarela

Malignos olhares vespertinos de sol

Corriam ao teu redor por entre árvores negras,

Olhares ardentes de sol, cegantes, maliciosos.

"Pretendente da verdade? Tu? - assim zombavam

eles -

Não! Só poeta!

Um animal, astuto, predador, sorrateiro,

Que precisa mentir,

Que conscientemente, voluntariamente precisa mentir:

Ávido de presa,

Coloridamente mascarado,

Máscara para si mesmo,

Presa para si mesmo -

Isso - pretendente da verdade? Não!

Só louco! Só poeta!

Só falando coisas coloridas,

Gritando coloridamente de máscaras de louco,

Subindo por pontes mentirosas de palavras,

Por arco-íris coloridos,

Entre falsos céus

E falsas terras,

Vagueando, pairando em torno -

Só louco! Só poeta!...

Isso - pretendente da verdade?

Não quieto, rígido, liso, frio,

Tornado imagem,

Coluna de Deus,

Não colocado diante de templos,

Guarda da porta de um Deus:

Não! Hostil a tais estátuas da verdade,

Mais em casa em toda selva que diante de templos,

Cheio de travessura de gato,

Saltando por toda janela,

Zás! para dentro de todo acaso,

Farejando toda floresta virgem,

Farejando com vício e saudade,

Para que em florestas virgens

Entre animais de rapina malhados

Corresses pecaminosamente são, colorido e belo,

Com beiços lascivos,

Bem-aventuradamente zombeteiro, bem-aventuradamente infernal, bem-aventuradamente

sedento de sangue,

Correndo a roubar, rastejar, mentir:...

Ou, igual à águia, que longamente,

Longamente olha imóvel para abismos,

Para seus abismos:...

-- Oh, como aqui eles se enroscam para baixo,

Para baixo, para dentro,

Em profundezas sempre mais profundas! -

Então,

De súbito,

em linha reta,

Em voo disparado,

Lançar-se sobre cordeiros,

Brusco para baixo, faminto em brasa,

Ávido de cordeiros,

Ódio a todas as almas de cordeiro,

Ódio furioso a tudo o que olha

À maneira de ovelha, com olhos de cordeiro, lã crespa,

Cinzento, com benevolência de cordeiro e ovelha!

Assim,

À maneira de águia, à maneira de pantera,

São as saudades do poeta,

São tuas saudades sob mil máscaras,

Tu, louco! Tu, poeta!

Tu que viste o homem

Tanto como Deus quanto como ovelha -:

Despedaçar o Deus no homem

Como a ovelha no homem,

E rir despedaçando -

Isso, isso é tua bem-aventurança! De uma pantera

e de uma águia, bem-aventurança! De um poeta e louco, bem-aventurança!" -

Em ar aclarado,

Quando já a foice da lua

Verde entre rubores purpúreos

E invejosa se esgueira:

- inimiga do dia,

A cada passo secretamente

Ceifando redes de rosas,

Até que elas afundem,

Pálidas afundem, noite abaixo:

Assim eu mesmo afundei um dia

De minha loucura da verdade,

De minhas saudades do dia,

Cansado do dia, doente de luz,

- afundei para baixo, para a tarde, para as sombras:

Por Uma verdade

Queimado e sedento:

- ainda te lembras, lembras-te, coração ardente,

Como então tiveste sede? -

De que eu esteja banido

De toda verdade,

Só louco! Só poeta!

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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