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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 72 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Ao Meio-Dia

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Ao Meio-Dia

- E Zaratustra correu e correu, e não encontrou mais ninguém, e estava só, e

sempre se encontrava de novo consigo, e gozava e sorvia sua solidão e pensava em

boas coisas - durante horas. Por volta da hora do meio-dia, porém, quando o sol

estava justamente sobre a cabeça de Zaratustra, passou ele por uma velha árvore torta e

nodosa, que estava toda abraçada pelo rico amor de uma videira e

escondida de si mesma: dela pendiam cachos amarelos em abundância

ao encontro do andarilho. Então lhe deu vontade de apagar uma pequena sede

e arrancar para si um cacho; mas quando já estendia o braço para isso,

deu-lhe vontade de outra coisa ainda mais: a saber, de deitar-se junto à árvore,

na hora do perfeito meio-dia, e dormir.

Isso fez Zaratustra; e assim que jazia no chão, no silêncio e

segredo da relva colorida, já esquecera também sua pequena sede

e adormeceu. Pois, como diz o provérbio de Zaratustra:

uma coisa é mais necessária que outra. Só que seus olhos permaneceram abertos: -

pois não se saciavam de ver e louvar a árvore e o amor da

videira. Adormecendo, porém, Zaratustra falou assim a seu

coração:

Silêncio! Silêncio! O mundo não acabou de tornar-se perfeito? Que me acontece?

Como um vento gracioso, invisível, dança sobre mar pavimentado, leve,

leve como pluma: assim - dança o sono sobre mim.

Ele não me fecha nenhum olho, deixa-me a alma desperta. Leve é ele,

em verdade! leve como pluma.

Ele me persuade, não sei como?, toca-me por dentro com

mão lisonjeira, ele me força. Sim, força-me a que minha alma se

estenda: -

- como ela se torna longa e cansada, minha alma singular! Veio a ela uma

tarde de sétimo dia bem ao meio-dia? Teria ela já caminhado por tempo demais, bem-aventurada,

entre coisas boas e maduras?

Ela se estende longamente, longa - mais longa! jaz quieta, minha

alma singular. Coisa boa demais ela já provou; essa tristeza

dourada a oprime, ela torce a boca.

- Como um navio que entrou em sua baía mais quieta: - agora se inclina

contra a terra, cansado de longas viagens e de mares incertos. A terra

não é mais fiel?

Como tal navio se deita junto à terra, se aconchega: - ali

basta que uma aranha, vinda da terra, teça até ele seu fio.

De cabos mais fortes não se precisa ali.

Como tal navio cansado na baía mais quieta: assim repouso eu agora perto da

terra, fiel, confiando, esperando, ligado a ela pelos fios mais leves.

Ó felicidade! Ó felicidade! Queres acaso cantar, ó minha alma? Tu jazes na relva.

Mas esta é a hora secreta e solene em que nenhum pastor toca sua flauta.

Acautela-te! O meio-dia quente dorme sobre os campos. Não cantes. Silêncio! O

mundo é perfeito.

Não cantes, tu, alada da relva, ó minha alma! Nem sequer sussurres! Vê,

pois - silêncio! o velho meio-dia dorme, move a boca: não bebe ele justamente

uma gota de felicidade -

- uma velha gota marrom de felicidade dourada, de vinho dourado? Ela passa

ligeira sobre ele, sua felicidade ri. Assim - ri um Deus. Silêncio! -

- "Para a felicidade, quão pouco já basta para a felicidade!" Assim falei outrora, e

julguei-me sábio. Mas era uma blasfêmia: isso aprendi agora. Tolos

sábios falam melhor.

Justamente o mínimo, o mais suave, o mais leve, um farfalhar de lagarto, um

sopro, um lampejo, um piscar de olhos - pouco faz a espécie da

melhor felicidade. Silêncio!

- Que me aconteceu? Escuta! Teria o tempo voado embora? Não caio eu? Não caí

eu - escuta! no poço da eternidade?

- Que me acontece? Silêncio! Algo me pica - ai - no

coração? No coração! Ó quebra, quebra, coração, depois de tal felicidade, depois de

tal picada!

- Como? O mundo não acabou de tornar-se perfeito? Redondo e maduro? Ó do dourado

arco redondo - para onde voa ele? Corro atrás dele! Rápido!

Silêncio - (e aqui Zaratustra se estendeu e sentiu que

dormia.) -

De pé!, falou a si mesmo, tu, dorminhoco! Tu, dorminhoco do meio-dia! Pois bem,

ânimo, velhas pernas! É tempo e sobretempo, ainda vos resta um bom pedaço de

caminho -

Agora dormistes o bastante, por quanto tempo? Meia eternidade! Pois bem, coragem

agora, meu velho coração! Quanto tempo ainda te será permitido, depois de tal sono -

despertar-te?

(Mas aí já adormeceu de novo, e sua alma falou contra ele, defendeu-se

e tornou a deitar-se) - "Deixa-me, pois! Silêncio! O mundo não

acabou de tornar-se perfeito? Ó da bola dourada e redonda!" -

"Levanta-te", falou Zaratustra, "tu, pequena ladra, ladra de dias! Como? Sempre ainda

esticar-se, bocejar, suspirar, cair em poços profundos?

Quem és tu afinal! Ó minha alma!" (e aqui ele se assustou, pois um raio de sol

caiu do céu sobre seu rosto)

"Ó céu sobre mim", falou ele suspirando e sentou-se ereto, "tu me

olhas? Escutas minha alma singular?

Quando beberás esta gota de orvalho que caiu sobre todas as coisas da terra -

quando beberás esta alma singular -

- quando, poço da eternidade! tu, sereno e terrível abismo do meio-dia!

quando beberás minha alma de volta para dentro de ti?"

Assim falou Zaratustra e levantou-se de seu leito junto à árvore como de uma

estranha embriaguez: e vede, o sol ainda estava exatamente sobre

sua cabeça. Poder-se-ia, porém, concluir disso, com razão, que Zaratustra

naquela ocasião não dormira por muito tempo.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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