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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 67 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

O Feiticeiro

67 de 82 ≈ 11 min de leitura

O Feiticeiro

#### 1.

Quando, porém, Zaratustra dobrou em torno de um rochedo, viu, não muito abaixo

de si, no mesmo caminho, um homem que lançava os membros como um

possesso e por fim caiu de bruços no chão. "Alto!", falou então

Zaratustra a seu coração, "aquele ali deve bem ser o homem superior, dele

veio aquele mau grito de socorro - quero ver se há ali ajuda."

Mas quando correu até o lugar onde o homem jazia no chão, encontrou

um velho trêmulo, de olhos fixos; e por mais que Zaratustra

se esforçasse para erguê-lo e pô-lo de novo sobre as pernas, foi em vão.

Também parecia que o infeliz não percebia que alguém estivesse ao seu redor; antes

olhava sempre em volta com gestos comoventes, como alguém abandonado por todo o mundo

e isolado. Por fim, porém, depois de muito tremer, contrair-se e

encurvar-se sobre si, começou a lamentar assim:

Quem me aquece, quem ainda me ama?

Dai mãos quentes!

Dai braseiros de coração!

Estendido, estremecendo,

como meio morto a quem aquecem os pés -

sacudido, ah! por febres desconhecidas,

tremendo diante de pontiagudas flechas geladas de frio,

por ti caçado, pensamento!

Inominável! Velado! Terrível!

Tu, caçador atrás de nuvens!

Fulminado por ti,

tu, olho zombeteiro, que me olha do escuro:

- assim jazo,

curvo-me, contorço-me, torturado

por todos os suplícios eternos,

atingido

por ti, caçador crudelíssimo,

tu, desconhecido - Deus!

Fere mais fundo,

fere mais uma vez!

Perfura, quebra este coração!

Para que este torturar

com flechas de dentes rombos?

Por que olhas de novo,

não cansado da aflição humana,

com olhos divinos de relâmpago e alegria maligna?

Não queres matar,

apenas torturar, torturar?

Para que - torturar-me,

tu, desconhecido Deus de alegria maligna? -

Haha! Tu te arrastas para perto?

Nesta meia-noite

que queres? Fala!

Tu me apertas, me comprimes -

ha! já perto demais!

Fora! Fora!

Tu me ouves respirar,

tu auscultas meu coração,

tu, ciumento -

de que, afinal, ciumento?

Fora! Fora! Para que a escada?

Queres entrar,

no coração,

subir para dentro, para meus mais secretos

pensamentos subir?

Sem-vergonha! Desconhecido - ladrão!

Que queres roubar para ti,

que queres escutar para ti,

que queres extorquir de mim pela tortura,

tu, torturador!

Tu - Deus-carrasco!

Ou devo eu, igual ao cão,

rolar diante de ti?

Entregue, extasiado-fora-de-mim,

abanar amor para ti?

Em vão!

Pica adiante,

aguilhão crudelíssimo! Não,

nenhum cão - apenas tua caça sou eu,

caçador crudelíssimo!

Teu prisioneiro mais orgulhoso,

tu, salteador atrás de nuvens...

Fala enfim,

que queres, assaltante, de mim?

Tu, velado de relâmpago! Desconhecido! Fala,

que queres, Deus desconhecido? -

Como?

Resgate?

Que queres de resgate?

Exige muito - assim aconselha meu orgulho!

E fala breve - assim aconselha meu outro orgulho!

Haha!

A mim - queres? A mim?

A mim - inteiro?

Haha!

E me torturas, tolo que és,

martirizas meu orgulho?

Dá-me amor - quem ainda me aquece?

Quem ainda me ama? - dá mãos quentes,

dá braseiros de coração,

dá a mim, o mais solitário,

a quem o gelo, ah! gelo sete vezes

ensina a ansiar até por inimigos,

por inimigos,

dá, sim, entrega,

inimigo crudelíssimo,

a mim - a ti!...

Fora!

Então fugiu ele mesmo,

meu último único companheiro,

meu grande inimigo,

meu desconhecido,

meu Deus-carrasco!...

- Não!

Volta,

com todos os teus suplícios!

Ao último de todos os solitários

ó volta!

Todos os meus riachos de lágrimas correm

para ti em seu curso!

E minha última chama de coração -

por ti se acende!

Ó volta,

meu Deus desconhecido! Minha dor!

Minha última felicidade!

#### 2.

- Aqui, porém, Zaratustra não conseguiu mais conter-se, tomou seu bastão

e golpeou com todas as forças o que se lamentava. "Para!", gritou-lhe

com riso furioso, "para, ator! Tu, falsário! Tu,

mentiroso desde o fundo! Eu bem te reconheço!

Eu hei de aquecer-te as pernas, mau feiticeiro; entendo-me

bem em aquecer gente como tu!"

- "Deixa disso", disse o velho e saltou do chão, "não batas

mais, ó Zaratustra! Eu fazia isso apenas por brincadeira!

Coisas assim pertencem à minha arte; a ti mesmo queria pôr à prova

quando te dei esta prova! E, em verdade, enxergaste-me bem!

Mas também tu - deste-me de ti uma prova nada pequena: és duro,

sábio Zaratustra! Bates duro com tuas 'verdades',

teu porrete arranca de mim - esta verdade!"

- "Não bajules", respondeu Zaratustra, ainda agitado e de olhar

sombrio, "ator desde o fundo! És falso: que falas tu

- de verdade!

Tu, pavão dos pavões, tu, mar de vaidade, que representaste diante de mim, mau

feiticeiro? Em quem deveria eu acreditar quando te lamentavas sob tal forma?"

"O penitente do espírito", disse o velho, "esse eu

representava: tu mesmo inventaste outrora esta palavra -

- o poeta e feiticeiro que por fim volta seu espírito

contra si mesmo, o transformado, que congela em seu mau saber e consciência.

E confessa apenas: durou muito, ó Zaratustra, até que chegasses por trás de minha

arte e mentira! Acreditaste em minha necessidade quando me seguravas a cabeça

com ambas as mãos -

- eu te ouvi lamentar: 'amaram-no pouco demais, pouco demais!'

Por eu ter-te enganado até esse ponto, jubilou interiormente minha

maldade."

"Podes ter enganado gente mais fina que eu", disse Zaratustra duramente. "Não estou

de guarda contra enganadores, devo ser sem cautela: assim o quer

minha sorte.

Tu, porém - deves enganar: até aí eu te conheço! Deves sempre

ser ambíguo, tríplice, quádruplo e quíntuplo! Mesmo o que agora confessaste não era para mim

verdadeiro nem falso o bastante!

Mau falsário, como poderias agir de outro modo! Ainda maquiarias tua doença

se te mostrasses nu a teu médico.

Assim acabaste de maquiar diante de mim tua mentira, quando disseste: 'fazia isso

apenas por brincadeira!' Havia também seriedade

nisso; és algo de um penitente do espírito!

Eu bem te adivinho: tornaste-te o encantador de todos, mas contra ti mesmo não tens

mais mentira nem astúcia alguma de sobra - tu mesmo estás desencantado para ti!

Colheste o nojo como tua única verdade. Nenhuma palavra em ti é mais

autêntica, mas tua boca o é: a saber, o nojo que gruda em tua boca." -

- "Quem és tu afinal!", gritou aqui o velho feiticeiro com voz desafiante,

"quem pode falar assim comigo, o maior que hoje

vive?" - e um relâmpago verde disparou de seu olho contra Zaratustra. Mas

logo depois transformou-se e disse tristemente:

"Ó Zaratustra, estou cansado disso, dá-me nojo de minhas artes, não sou

grande, por que me disfarço! Mas tu bem sabes - eu

buscava grandeza!

Quis representar um grande homem e persuadi muitos: mas essa

mentira ultrapassou minha força. Nela me quebro.

Ó Zaratustra, tudo é mentira em mim; mas que eu me quebre - este meu

quebrar é autêntico!" -

"Isso te honra", falou Zaratustra sombriamente e olhando para o lado, para baixo,

"honra-te que tenhas buscado grandeza, mas também te denuncia. Tu não és

grande.

Mau velho feiticeiro, isto é o teu melhor e mais reto, o que

em ti honro: que te cansaste de ti mesmo e disseste: 'não sou

grande.'

Nisso te honro como um penitente do espírito: e ainda que apenas por

um sopro e um lampejo, neste único instante foste - autêntico.

Mas fala, que procuras aqui em minhas florestas e rochedos? E se

te puseste no meu caminho, que prova querias de mim? -

- em que me tentaste?"

Assim falou Zaratustra, e seus olhos faiscaram. O velho feiticeiro calou-se

por um momento, depois disse: "Tentei-te? Eu - apenas procuro.

Ó Zaratustra, procuro um autêntico, reto, simples, unívoco, um

homem de toda retidão, um vaso da sabedoria, um santo do

conhecimento, um grande homem!

Não sabes então, ó Zaratustra? Procuro Zaratustra."

- E aqui surgiu um longo silêncio entre ambos; Zaratustra,

porém, mergulhou profundamente em si mesmo, de modo que fechou os olhos. Depois,

porém, retornando a seu interlocutor, tomou a mão do feiticeiro

e falou, cheio de cortesia e astúcia:

"Pois bem! Para lá em cima leva o caminho, ali fica a caverna de Zaratustra.

Nela podes procurar quem gostarias de encontrar.

E pede conselho a meus animais, minha águia e minha serpente: eles devem

ajudar-te a procurar. Minha caverna, porém, é grande.

Eu mesmo, decerto - ainda não vi nenhum grande homem. Para o que é grande,

o olho dos mais finos hoje é grosseiro. É o reino do populacho.

Já encontrei muitos que se esticavam e se inflavam, e o povo gritava:

'Vede ali um grande homem!' Mas de que servem todos os foles!

Por fim o vento sai.

Por fim estoura uma rã que se inflou por tempo demais: então o vento

sai. Picar no ventre um inchado, a isso chamo um valente

divertimento. Ouvi isso, rapazes!

Este Hoje é do populacho: quem sabe ainda o que é grande, o que é pequeno!

Quem buscaria com felicidade a grandeza! Somente um tolo: os tolos

têm sorte.

Procuras grandes homens, tu, tolo singular? Quem

te ensinou isso? É hoje tempo para tal? Ó mau buscador,

em que - me tentas?" -

Assim falou Zaratustra, de coração consolado, e seguiu seu caminho, rindo

avidamente.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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