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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 77 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Da Ciência

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Da Ciência

Assim cantou o Feiticeiro; e todos os que estavam reunidos entraram, como

pássaros, sem perceber, na rede de sua astuta e melancólica volúpia. Apenas o

consciencioso do espírito não foi capturado: arrancou depressa a harpa do

Feiticeiro e gritou: "Ar! Deixai entrar bom ar! Deixai Zaratustra entrar! Tu

tornas esta caverna abafada e venenosa, tu, mau velho Feiticeiro!

Tu conduzes, tu, falso e refinado, a desejos e selvas desconhecidos. E ai

quando tais como tu fazem conversa e pose de verdade!

Ai de todos os espíritos livres que não se mantêm em guarda contra tais

feiticeiros! Acabou-se sua liberdade: tu ensinas e atrais de volta para

prisões -

- tu, velho diabo melancólico, de teu lamento soa uma flauta-isca, tu te

assemelhas àqueles que, com seu louvor da castidade, convidam secretamente às

volúpias!"

Assim falou o consciencioso; o velho Feiticeiro, porém, olhou ao redor,

gozou sua vitória e engoliu, com isso, o desgosto que o consciencioso lhe

causava. "Silêncio!", disse ele com voz modesta, "boas canções querem bom

eco; depois de boas canções deve-se calar longamente.

Assim fazem todos estes, os homens superiores. Tu, porém, decerto entendeste

pouco de minha canção? Em ti há pouco de um espírito feiticeiro."

"Tu me louvas", respondeu o consciencioso, "ao me separares de ti, muito

bem! Mas vós outros, que vejo? Todos ainda estais aí sentados com olhos

lascivos -:

Vós, almas livres, para onde foi vossa liberdade! Quase me parece que sois

semelhantes àqueles que olharam por muito tempo más moças nuas dançando: vossas

almas mesmas dançam!

Em vós, homens superiores, deve haver mais daquilo que o Feiticeiro chama seu

mau espírito de magia e engano: - devemos ser bem diferentes.

E, em verdade, falamos e pensamos o bastante juntos, antes que Zaratustra

voltasse para casa, para sua caverna, para que eu não soubesse: somos

diferentes.

Também buscamos coisas diferentes aqui no alto, vós e eu. Eu, com efeito,

busco mais segurança; por isso vim a Zaratustra. Pois ele ainda é a torre e

a vontade mais firmes -

- hoje, quando tudo vacila, quando toda a terra treme. Vós, porém, quando vejo

os olhos que fazeis, quase me parece que buscais mais insegurança,

- mais calafrio, mais perigo, mais terremoto. Quase me parece - perdoai minha

presunção, vós, homens superiores -

- que tendes desejo da pior e mais perigosa vida, aquela que mais me causa

medo, da vida de animais selvagens, de florestas, cavernas, montanhas íngremes

e abismos de erro.

E não vos agradam mais os guias para fora do perigo, mas aqueles que vos

desviam de todos os caminhos, os sedutores. Mas, se tal desejo está realmente

em vós, ainda assim isso me parece impossível.

Pois medo - esse é o sentimento hereditário e fundamental do homem; pelo medo

se explica tudo, pecado hereditário e virtude hereditária. Do medo também

cresceu minha virtude, que se chama: ciência.

Pois o medo dos animais selvagens - esse foi cultivado no homem por mais

tempo, inclusive o animal que ele abriga em si mesmo e teme: - Zaratustra o

chama 'o animal interior'.

Esse longo, antigo medo, por fim tornado fino, espiritualizado, espiritual -

hoje, parece-me, chama-se: ciência." -

Assim falou o consciencioso; mas Zaratustra, que justamente voltava para dentro

de sua caverna e ouvira e adivinhara o último discurso, lançou ao consciencioso

um punhado de rosas e riu de suas "verdades". "Como!", exclamou, "que ouvi

eu agora? Em verdade, parece-me que és um louco, ou eu mesmo o sou: e tua

'verdade' eu ponho de súbito e depressa de cabeça para baixo.

Pois medo - é nossa exceção. Coragem, porém, e aventura e prazer no incerto,

no não-ousado - coragem me parece toda a pré-história do homem.

Aos animais mais selvagens e corajosos ele invejou e roubou todas as suas

virtudes: somente assim se tornou - homem.

Essa coragem, por fim tornada fina, espiritualizada, espiritual, essa coragem

humana com asas de águia e prudência de serpente: esta, parece-me, chama-se

hoje -"

"Zaratustra!", gritaram todos os que estavam sentados juntos, como de uma só

boca, e fizeram então uma grande gargalhada; dela se ergueu como uma nuvem

pesada. Também o Feiticeiro riu e falou com sagacidade: "Muito bem! Ele se foi,

meu mau espírito!

E eu mesmo não vos adverti contra ele, quando disse que ele era um enganador,

um espírito de mentira e engano?

Sobretudo quando se mostra nu. Mas que posso eu por suas astúcias! Criei eu a

ele e ao mundo?

Muito bem! Sejamos de novo bons e de bom ânimo! E embora Zaratustra já olhe

com maldade - vede-o! ele está zangado comigo -:

- antes que venha a noite, ele aprenderá de novo a me amar e louvar; não pode

viver muito tempo sem fazer tais tolices.

Ele - ama seus inimigos: esta arte ele entende melhor que todos os que vi. Mas

vinga-se disso - em seus amigos!"

Assim falou o velho Feiticeiro, e os homens superiores lhe renderam aplauso:

de modo que Zaratustra andou em volta e, com malícia e amor, apertou as mãos

de seus amigos - como alguém que tem algo a reparar e a pedir desculpas a

todos. Mas quando chegou, nesse andar, à porta de sua caverna, eis que já o

assaltava de novo o desejo do bom ar lá fora e de seus animais - e queria

escapulir para fora.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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