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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 21 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Da Mordida da Víbora

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Da Mordida da Víbora

Certo dia, Zaratustra adormecera sob uma figueira, pois fazia calor, e pusera os braços sobre o rosto. Então veio uma víbora e mordeu-o no pescoço, de modo que Zaratustra gritou de dor. Quando tirou o braço do rosto, fitou a serpente: então ela reconheceu os olhos de Zaratustra, contorceu-se desajeitada e quis ir embora. "Não, disse Zaratustra; ainda não aceitaste meu agradecimento! Despertaste-me a tempo, meu caminho ainda é longo." "Teu caminho já é curto, disse a víbora tristemente; meu veneno mata." Zaratustra sorriu. "Quando terá morrido um dragão pelo veneno de uma serpente? — disse ele. Mas toma de volta teu veneno! Não és rica o bastante para dá-lo a mim." Então a víbora caiu-lhe de novo ao redor do pescoço e lambeu-lhe a ferida.

Quando Zaratustra contou isso certa vez a seus discípulos, eles perguntaram: "E qual, ó Zaratustra, é a moral de tua história?" Zaratustra respondeu-lhes assim:

Destruidor da moral me chamam os bons e justos: minha história é imoral.

Mas, se tendes um inimigo, não lhe retribuais o mal com o bem: pois isso o envergonharia. Antes, provai que ele vos fez algum bem.

E antes irai-vos ainda, em vez de envergonhar! E quando vos amaldiçoarem, não me agrada que então queirais abençoar. Antes amaldiçoai um pouco junto!

E se vos aconteceu uma grande injustiça, fazei-me depressa cinco pequenas junto dela! Horrível é de se ver aquele que é oprimido apenas pela injustiça.

Já sabíeis disto? Injustiça compartilhada é meio direito. E deve tomar sobre si a injustiça aquele que pode carregá-la!

Uma pequena vingança é mais humana que nenhuma vingança. E se a punição não é também um direito e uma honra para o transgressor, então tampouco gosto de vossa punição.

Mais nobre é dar a si mesmo injustiça do que conservar o direito, sobretudo quando se tem razão. Apenas é preciso ser rico o bastante para isso.

Não gosto de vossa fria justiça; e do olho de vossos juízes sempre me olha o carrasco e seu ferro frio.

Dizei: onde se encontra a justiça que é amor com olhos que veem?

Inventai-me, pois, o amor que carrega não apenas toda punição, mas também toda culpa!

Inventai-me, pois, a justiça que absolve todos, exceto aquele que julga!

Quereis ouvir ainda isto? Naquele que quer ser justo desde o fundo, até a mentira se torna amizade aos humanos.

Mas como poderia eu ser justo desde o fundo! Como posso dar a cada um o que é seu! Que isto me baste: dou a cada um o que é meu.

Por fim, meus irmãos, guardai-vos de fazer injustiça a todos os ermitões! Como poderia um ermitão esquecer! Como poderia ele retribuir!

Como um poço profundo é um ermitão. Fácil é lançar nele uma pedra; mas, se ela afundou até o fundo, dizei, quem quererá tirá-la outra vez?

Guardai-vos de ofender o ermitão! Mas, se o fizestes, então, pois bem, matai-o ainda!

Assim falou Zaratustra.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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