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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 23 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Da Morte Livre

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Da Morte Livre

Muitos morrem tarde demais, e alguns morrem cedo demais. Ainda soa estranha a doutrina: "morre no tempo certo!"

Morre no tempo certo: assim ensina Zaratustra.

É claro: quem nunca vive no tempo certo, como poderia um dia morrer no tempo certo? Oxalá jamais tivesse nascido! — Assim aconselho os supérfluos.

Mas também os supérfluos ainda fazem importância com seu morrer, e até a noz mais oca quer ainda ser quebrada.

Todos tomam o morrer como importante: mas a morte ainda não é uma festa. Ainda não aprenderam os humanos como se consagram as festas mais belas.

Mostro-vos a morte consumadora, que se torna para os vivos um aguilhão e um voto.

Sua morte morre o consumador, vitorioso, rodeado de esperançosos e de celebradores.

Assim se deveria aprender a morrer; e não deveria haver festa em que tal moribundo não consagrasse os juramentos dos vivos!

Morrer assim é o melhor; o segundo melhor, porém, é: morrer em combate e desperdiçar uma grande alma.

Mas, tanto ao combatente quanto ao vencedor, é igualmente odiosa vossa morte sorridente, que se aproxima de mansinho como um ladrão — e, contudo, vem como senhor.

Minha morte vos louvo, a morte livre, que vem a mim porque eu quero.

E quando quererei eu? — Quem tem uma meta e um herdeiro, esse quer a morte no tempo certo para a meta e o herdeiro.

E por reverência à meta e ao herdeiro, ele já não pendurará coroas secas no santuário da vida.

Em verdade, não quero assemelhar-me aos fabricantes de cordas: puxam seu fio para o comprimento e, nisso, eles mesmos andam sempre para trás.

Muitos também ficam velhos demais para suas verdades e vitórias; uma boca sem dentes já não tem direito a toda verdade.

E todo aquele que quer ter glória deve despedir-se da honra a tempo e exercitar a difícil arte de ir-se no tempo certo.

É preciso deixar de se deixar comer quando se tem o melhor sabor: sabem disso aqueles que querem ser amados por muito tempo.

Há, decerto, maçãs azedas cujo destino quer que esperem até o último dia do outono: e ao mesmo tempo se tornam maduras, amarelas e enrugadas.

Em alguns envelhece primeiro o coração; em outros, o espírito. E alguns são velhos na juventude: mas ser jovem tarde conserva jovem por muito tempo.

A muitos a vida fracassa: um verme venenoso rói-lhes o coração. Que cuidem, então, para que o morrer lhes dê tanto mais certo.

Muitos jamais se tornam doces; já apodrecem no verão. É a covardia que os mantém presos ao seu galho.

Muitos-demais vivem, e por tempo demais ficam pendurados em seus galhos. Que viesse uma tempestade que sacudisse da árvore tudo isso que é podre e roído de vermes!

Que viessem pregadores da morte rápida! Esses seriam, para mim, as tempestades certas e os sacudidores das árvores da vida. Mas ouço apenas pregar a morte lenta e a paciência com tudo que é "terreno".

Ah, pregais paciência com o terreno? É este terreno que tem paciência demais convosco, vós, bocas blasfemas!

Em verdade, cedo demais morreu aquele hebreu a quem honram os pregadores da morte lenta: e para muitos, desde então, tornou-se fatal que ele morresse cedo demais.

Ele ainda conhecia apenas lágrimas e a melancolia do hebreu, junto com o ódio dos bons e justos — o hebreu Jesus: então o assaltou o anseio pela morte.

Oxalá tivesse permanecido no deserto e longe dos bons e justos! Talvez tivesse aprendido a viver e aprendido a amar a terra — e também o riso!

Acreditai-me, meus irmãos! Ele morreu cedo demais; ele próprio teria revogado sua doutrina, se tivesse chegado à minha idade! Nobre o bastante era ele para revogar!

Mas ainda estava imaduro. Imaturo ama o jovem, e imaturo também odeia humano e terra. Preso e pesado ainda lhe é o ânimo e as asas do espírito.

Mas no homem há mais criança que no jovem, e menos melancolia: melhor ele entende de morte e de vida.

Livre para a morte e livre na morte, um santo negador quando já não é tempo para o Sim: assim ele entende de morte e de vida.

Que vosso morrer não seja uma blasfêmia contra humano e terra, meus amigos: isto peço ao mel de vossa alma.

Em vosso morrer ainda devem arder vosso espírito e vossa virtude, como um crepúsculo vespertino ao redor da terra: ou então o morrer vos saiu mal.

Assim quero eu mesmo morrer, para que vós, amigos, por minha causa ameis mais a terra; e à terra quero voltar, para ter repouso naquela que me gerou.

Em verdade, uma meta tinha Zaratustra, ele lançou sua bola: agora vós, amigos, sois herdeiros de minha meta; a vós lanço a bola dourada.

Mais que tudo gosto de ver-vos, meus amigos, lançar a bola dourada! E assim me demoro ainda um pouco na terra: perdoai-me!

Assim falou Zaratustra.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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