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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 31 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Das Tarântulas

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Das Tarântulas

Vede, esta é a caverna da tarântula! Queres vê-la tu mesmo? Aqui pende sua

teia: toca-a, para que estremeça.

Lá vem ela de bom grado: bem-vinda, tarântula! Negro se assenta em teu dorso teu

triângulo e emblema; e sei também o que se assenta em tua alma.

Vingança se assenta em tua alma: onde mordes, ali cresce crosta negra; com

vingança teu veneno faz a alma girar!

Assim falo a vós em parábola, vós que fazeis as almas girar, vós

pregadores da igualdade! Tarântulas sois para mim e ocultos

vingativos!

Mas quero trazer vossos esconderijos à luz: por isso rio

em vosso rosto meu riso da altura.

Por isso puxo vossa teia, para que vossa fúria vos atraia para fora de vossa caverna de mentiras

e vossa vingança salte de trás de vossa palavra "justiça".

Pois que o humano seja redimido da vingança: isto é para mim a ponte para a

mais alta esperança e um arco-íris depois de longas tempestades.

Mas de outro modo o querem, decerto, as tarântulas. "Justamente isto se chame para nós

justiça: que o mundo se encha das tempestades de nossa

vingança" - assim falam umas com as outras.

"Vingança queremos exercer, e insulto contra todos os que não são iguais

a nós" - assim juram a si mesmos os corações de tarântula.

"E 'vontade de igualdade' - isto mesmo deverá doravante tornar-se o

nome da virtude; e contra tudo que tem poder queremos erguer nosso

grito!"

Ó pregadores da igualdade, assim grita de vós por "igualdade" o delírio tirânico

da impotência: vossos mais secretos apetites de tiranos disfarçam-se

assim em palavras de virtude!

Orgulho amargurado, inveja contida, talvez o orgulho e a inveja de vossos pais:

de vós isso irrompe como chama e delírio da vingança.

O que o pai calou, isso chega à fala no filho; e muitas vezes encontrei o filho

como o segredo desnudo do pai.

Parecem-se com os entusiasmados: mas não é o coração que os entusiasma,

- e sim a vingança. E quando se tornam finos e frios, não é o

espírito, mas a inveja, que os torna finos e frios.

Seu ciúme também os conduz pelas sendas dos pensadores; e este é o sinal

de seu ciúme - sempre vão longe demais: de modo que por fim seu cansaço

ainda precisa deitar-se para dormir sobre a neve.

De cada uma de suas queixas soa vingança; em cada um de seus louvores há um fazer-mal;

e ser juiz parece-lhes bem-aventurança.

Assim, porém, vos aconselho, meus amigos: desconfiai de todos em quem o impulso

de punir é poderoso!

Esse é povo de má espécie e procedência; de seus rostos olha o carrasco

e o cão farejador.

Desconfiai de todos aqueles que falam muito de sua justiça! Em verdade, a suas

almas não falta apenas mel.

E quando se chamam a si mesmos "os bons e justos", não esqueçais

que para serem fariseus nada lhes falta senão - poder!

Meus amigos, não quero ser misturado nem confundido.

Há aqueles que pregam minha doutrina da vida: e ao mesmo tempo são

pregadores da igualdade e tarântulas.

Que falem em favor da vida, embora estejam sentados em sua caverna, essas

aranhas venenosas, e afastadas da vida: isso se deve a quererem fazer mal com isso.

Querem com isso fazer mal àqueles que agora têm poder: pois entre estes

a pregação da morte ainda está mais em casa.

Se fosse diferente, as tarântulas ensinariam de outro modo: e precisamente elas foram

outrora as melhores caluniadoras do mundo e queimadoras de hereges.

Com esses pregadores da igualdade não quero ser misturado nem confundido.

Pois assim me fala a justiça: "os humanos não são

iguais."

E tampouco devem tornar-se iguais! Que seria então meu amor ao

além-do-homem, se eu falasse de outro modo?

Por mil pontes e passarelas devem eles acorrer ao futuro, e sempre

mais guerra e desigualdade deve ser posta entre eles: assim me deixa falar meu

grande amor!

Inventores de imagens e fantasmas devem tornar-se em suas inimizades,

e com suas imagens e fantasmas ainda devem travar uns contra os outros o

mais alto combate!

Bem e mal, e rico e pobre, e alto e baixo, e todos os nomes dos

valores: armas devem ser, e sinais tilintantes de que a vida

sempre deve superar-se a si mesma outra vez!

Para o alto quer construir-se com pilares e degraus, a própria vida: para

distâncias vastas quer olhar, e para fora, rumo a belezas

bem-aventuradas - por isso necessita de altura!

E porque necessita de altura, necessita de degraus e da oposição dos degraus e

dos que sobem! Subir quer a vida, e, subindo, superar-se.

E vede-me, meus amigos! Aqui, onde está a caverna da tarântula, erguem-se

para cima as ruínas de um velho templo - vede-as com olhos iluminados!

Em verdade, quem outrora aqui empilhou seus pensamentos em pedra rumo ao alto, esse

conhecia o segredo de toda vida como o mais sábio!

Que combate e desigualdade ainda existam mesmo na beleza, e guerra por poder e

superpoder: isto ele nos ensina aqui na parábola mais clara.

Como divinamente aqui abóbadas e arcos se quebram, em luta corpo a corpo: como com luz

e sombra se esforçam uns contra os outros, os divinamente-esforçados -

Assim, seguros e belos, deixai-nos também ser inimigos, meus amigos! Divinamente

queremos esforçar-nos uns contra os outros! -

Ai! Aí mordeu-me a própria tarântula, minha velha inimiga! Divinamente segura e

bela, mordeu-me no dedo!

"Castigo deve haver e justiça" - assim pensa ela: "não deve ser

em vão que ele canta aqui canções em honra da inimizade!"

Sim, ela se vingou! E ai! agora, com vingança, ainda fará minha

alma girar!

Mas, para que eu não gire, meus amigos, amarrai-me firmemente aqui a

esta coluna! Prefiro ainda ser santo de coluna a ser turbilhão da

vingança!

Em verdade, Zaratustra não é vento giratório nem redemoinho; e, se ele é dançarino,

nunca, porém, é dançarino de tarântula! -

Assim falou Zaratustra.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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