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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 33 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

A Canção da Noite

33 de 82 ≈ 4 min de leitura

A Canção da Noite

Noite é: agora falam mais alto todos os poços saltantes. E também minha alma

é um poço saltante.

Noite é: agora despertam primeiro todos os cantos dos amantes. E também minha alma

é o canto de um amante.

Algo não apaziguado, inapaziguável, há em mim; isso quer fazer-se alto. Um desejo

de amor há em mim, que fala ele próprio a língua do amor.

Luz sou eu: ah, se eu fosse noite! Mas esta é minha solidão: estar

circundado de luz.

Ah, se eu fosse escuro e noturno! Como quereria sugar nos seios da luz!

E a vós mesmos ainda abençoaria, pequenas estrelas cintilantes e

vaga-lumes lá em cima! - e seria bem-aventurado por vossas dádivas de luz.

Mas vivo em minha própria luz, bebo de volta para dentro de mim as chamas

que irrompem de mim.

Não conheço a felicidade de quem recebe; e muitas vezes sonhei que

roubar devia ser ainda mais bem-aventurado que receber.

Esta é minha pobreza: que minha mão nunca descansa de dar; esta é

minha inveja: que vejo olhos à espera e as noites iluminadas do anseio.

Oh infelicidade de todos os que dão! Oh escurecimento de meu sol! Oh desejo

de desejar! Oh fome ardente na saciedade!

Eles recebem de mim: mas ainda toco eu sua alma? Há um abismo entre

dar e receber; e o menor abismo é o último a ser transposto.

Uma fome nasce de minha beleza: fazer mal eu gostaria àqueles a quem

ilumino, roubar eu gostaria meus presenteados: - assim tenho fome de

maldade.

Retirar a mão quando já se estende a ela outra mão; hesitar como

a queda-d'água que ainda hesita na queda: - assim tenho fome

de maldade.

Tal vingança inventa minha plenitude; tal astúcia brota de minha solidão.

Minha felicidade em dar morreu no dar; minha virtude cansou-se de si mesma

em sua superabundância!

Quem sempre dá corre o perigo de perder a vergonha; quem sempre

distribui, sua mão e seu coração criam calos de tanto distribuir.

Meu olho já não transborda diante da vergonha dos suplicantes; minha mão tornou-se

dura demais para o tremor de mãos preenchidas.

Para onde foi a lágrima de meu olho e a penugem de meu coração? Oh solidão

de todos os que dão! Oh silêncio de todos os que brilham!

Muitos sóis giram no espaço deserto: a tudo que é escuro falam com

sua luz - para mim, calam.

Oh, esta é a inimizade da luz contra o que brilha: impiedosamente

percorre suas órbitas.

Injusta contra o que brilha no mais fundo coração: fria contra sóis - assim

percorre cada sol.

Como uma tempestade voam os sóis por suas órbitas, este é seu percurso. À sua

vontade inexorável seguem, esta é sua frieza.

Oh, vós é que sois, vós escuros, vós noturnos, que criais calor a partir

do que brilha! Oh, vós é que bebeis leite e alívio dos úberes da luz!

Ah, há gelo ao meu redor, minha mão queima-se no gelado! Ah, há sede em

mim, que definha por vossa sede!

Noite é: ah, que eu tenha de ser luz! E sede pelo noturno! E

solidão!

Noite é: agora irrompe de mim, como um manancial, meu desejo - por fala

anseio.

Noite é: agora falam mais alto todos os poços saltantes. E também minha alma

é um poço saltante.

Noite é: agora despertam primeiro todos os cantos dos amantes. E também minha alma

é o canto de um amante. -

Assim cantou Zaratustra.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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