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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 47 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

O Andarilho

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O Andarilho

Era meia-noite quando Zaratustra tomou seu caminho pelo dorso da ilha, para que chegasse, com a manhã cedo, à outra margem: pois ali queria embarcar. Havia, com efeito, naquele lugar, um bom ancoradouro, onde também navios estrangeiros gostavam de lançar âncora; estes levavam consigo alguns que queriam ir das ilhas bem-aventuradas pelo mar. Enquanto Zaratustra subia assim a montanha, lembrou-se no caminho de seu muito caminhar solitário desde a juventude, e de quantas montanhas, dorsos e cumes já havia escalado.

Sou um andarilho e um escalador de montanhas, disse ele a seu coração; não amo as planícies e parece que não posso ficar muito tempo sentado em silêncio.

E o que quer que ainda me venha como destino e vivência - haverá nisso um caminhar e um escalar montanhas: afinal, vive-se por fim apenas a si mesmo.

Passou o tempo em que ainda me podiam acontecer acasos; e que poderia agora cair sobre mim que já não fosse meu próprio?

Retorna apenas, vem enfim para casa - meu próprio si-mesmo, e aquilo que dele por muito tempo esteve em terra estrangeira e disperso entre todas as coisas e acasos.

E ainda sei uma coisa: estou agora diante de meu último cume e diante daquilo que por mais tempo me foi reservado. Ah, meu caminho mais duro devo subir! Ah, comecei minha caminhada mais solitária!

Mas quem é de minha espécie não escapa de tal hora: a hora que lhe fala: "Só agora segues teu caminho de grandeza! Cume e abismo - agora estão reunidos em um só!

Segues teu caminho de grandeza: agora se tornou teu último refúgio aquilo que até aqui se chamava teu último perigo!

Segues teu caminho de grandeza: agora deve ser tua melhor coragem que atrás de ti não haja mais caminho!

Segues teu caminho de grandeza; aqui ninguém deve rastejar atrás de ti! Teu próprio pé apagou atrás de ti o caminho, e sobre ele está escrito: Impossibilidade.

E se agora te faltam todas as escadas, então deves entender como subir ainda sobre tua própria cabeça: de que outro modo quererias subir?

Sobre tua própria cabeça e para além de teu próprio coração! Agora o mais brando em ti deve ainda tornar-se o mais duro.

Quem sempre se poupou muito adoece por fim de seu muito poupar-se. Louvado seja o que endurece! Não louvo a terra onde corre manteiga e mel!

Aprender a desviar o olhar de si é necessário para ver muito: - essa dureza é necessária a todo escalador de montanhas.

Mas quem é importuno com os olhos como conhecedor, como haveria de ver de todas as coisas mais que suas razões dianteiras!

Tu, porém, ó Zaratustra, quiseste contemplar o fundamento e o fundo por trás de todas as coisas: então deves subir para além de ti mesmo - para cima, cada vez mais alto, até teres também tuas estrelas ainda abaixo de ti!

Sim! Olhar para baixo sobre mim mesmo e ainda sobre minhas estrelas: só isso se chamaria para mim meu cume, isso ainda me restou como meu último cume!" -

Assim falava Zaratustra a si mesmo enquanto subia, consolando seu coração com duras sentenças: pois estava ferido no coração como nunca estivera antes. E quando chegou à altura do dorso da montanha, vede, ali jazia o outro mar estendido diante dele: e ele ficou parado e calou-se por longo tempo. A noite, porém, era fria naquela altura, e clara e cheia de estrelas.

Reconheço minha sorte, disse ele enfim com tristeza. Pois bem! Estou pronto. Começou agora minha última solidão.

Ah, este negro e triste mar abaixo de mim! Ah, este enfado noturno e grávido! Ah, destino e mar! A vós devo agora descer!

Diante de minha montanha mais alta estou e diante de minha mais longa caminhada: por isso devo primeiro descer mais fundo do que jamais desci:

- mais fundo na dor do que jamais desci, até dentro de sua mais negra maré! Assim o quer meu destino: Pois bem! Estou pronto.

De onde vêm as montanhas mais altas? Assim perguntei outrora. Então aprendi que elas vêm do mar.

Esse testemunho está escrito em sua rocha e nas paredes de seus cumes. Do mais profundo deve vir o mais alto à sua altura. -

Assim falou Zaratustra no alto da montanha, onde fazia frio; mas, quando chegou perto do mar e por fim ficou sozinho entre os penhascos, havia se cansado no caminho e estava mais saudoso do que antes.

Agora tudo ainda dorme, falou ele; também o mar dorme. Embriagado de sono e estranho, seu olho olha para mim.

Mas ele respira quente, eu o sinto. E sinto também que sonha. Torce-se sonhando sobre duros travesseiros.

Escuta! Escuta! Como geme de más lembranças! Ou de más expectativas?

Ah, estou triste contigo, ó monstro escuro, e ainda zangado comigo mesmo por tua causa.

Ah, que minha mão não tenha força suficiente! Com gosto, em verdade, gostaria de redimir-te de maus sonhos! -

E enquanto Zaratustra assim falava, riu de si mesmo com melancolia e amargura. "Como! Zaratustra!", disse ele, "queres ainda cantar consolo ao mar?

Ah, tu, amoroso tolo Zaratustra, tu, superfeliz de confiança! Mas assim sempre foste: sempre te aproximaste confiante de tudo o que é terrível.

Todo monstro ainda quiseste acariciar. Um sopro de hálito quente, um pouco de pelagem macia na pata - e logo estavas pronto a amá-lo e atraí-lo.

O amor é o perigo do mais solitário, o amor a tudo, desde que viva! Risíveis são, em verdade, minha tolice e minha modéstia no amor!" -

Assim falou Zaratustra, e riu pela segunda vez; então, porém, lembrou-se de seus amigos abandonados - e, como se com seus pensamentos tivesse pecado contra eles, irritou-se consigo por causa de seus pensamentos. E imediatamente aconteceu que aquele que ria chorou: - de ira e saudade chorou Zaratustra amargamente.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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