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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 48 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Da Visão e do Enigma

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Da Visão e do Enigma

#### 1.

Quando se tornou conhecido entre os marinheiros que Zaratustra estava no navio - pois um homem havia embarcado junto com ele, vindo das ilhas bem-aventuradas -, surgiu grande curiosidade e expectativa. Mas Zaratustra calou-se por dois dias e esteve frio e surdo de tristeza, de modo que não respondia nem a olhares nem a perguntas. Na noite do segundo dia, porém, tornou a abrir os ouvidos, embora ainda se calasse: pois havia muita coisa estranha e perigosa a ouvir naquele navio, que vinha de longe e queria ir ainda mais longe. Zaratustra, porém, era amigo de todos aqueles que fazem longas viagens e gostam de viver não sem perigo. E vede! por fim, ouvindo, soltou-se sua própria língua, e o gelo de seu coração se quebrou: - então começou a falar assim:

A vós, audazes buscadores, tentadores, e a quem quer que tenha embarcado com velas astutas em mares terríveis -

a vós, embriagados de enigmas, alegres no crepúsculo, cuja alma é atraída por flautas para todo abismo errante:

- pois não quereis tatear com mão covarde ao longo de um fio; e, onde podeis adivinhar, odiais deduzir -

a vós somente conto o enigma que vi - a visão do mais solitário. -

Sombrio, eu seguia há pouco por um crepúsculo cor de cadáver - sombrio e duro, de lábios comprimidos. Não apenas um sol havia se posto para mim.

Uma vereda que subia teimosa por entre cascalhos, maldosa, solitária, à qual já não falava erva nem arbusto: uma vereda de montanha rangia sob a obstinação de meu pé.

Calado, caminhando sobre o som zombeteiro das pedrinhas, esmagando a pedra que o fazia escorregar: assim meu pé se forçava para cima.

Para cima: - apesar do espírito que o puxava para baixo, que o puxava para o abismo, o espírito de gravidade, meu diabo e arqui-inimigo.

Para cima: - embora ele estivesse sentado sobre mim, meio anão, meio toupeira; manco; paralisante; chumbo pelo meu ouvido, pensamentos-gotas de chumbo pingando em meu cérebro.

"Ó Zaratustra", sussurrava ele, escarnecedor, sílaba por sílaba, "tu, pedra da sabedoria! Lançaste-te alto, mas toda pedra lançada deve - cair!

Ó Zaratustra, pedra da sabedoria, pedra de funda, destruidor de estrelas! Lançaste a ti mesmo tão alto - mas toda pedra lançada deve cair!

Condenado a ti mesmo e ao próprio apedrejamento: ó Zaratustra, longe lançaste a pedra - mas sobre ti ela cairá de volta!"

Então o anão calou-se; e isso durou muito. Seu silêncio, porém, me oprimia; e assim, a dois, está-se em verdade mais solitário do que a sós!

Eu subia, subia, sonhava, pensava - mas tudo me oprimia. Assemelhava-me a um doente que seu mau tormento cansa, e que um sonho pior desperta do adormecer. -

Mas há algo em mim que chamo coragem: até agora ela sempre matou em mim todo desânimo. Essa coragem finalmente me mandou parar quieto e falar: "Anão! Tu! Ou eu!" -

Coragem, com efeito, é o melhor matador - coragem que ataca: pois em todo ataque há toque de clarins.

O humano, porém, é o animal mais corajoso: com isso venceu todo animal. Com toque de clarins venceu ainda toda dor; a dor humana, porém, é a dor mais profunda.

A coragem mata também a vertigem à beira de abismos: e onde não estaria o humano à beira de abismos! Ver não é, ele próprio, ver abismos?

Coragem é o melhor matador: a coragem mata também a compaixão. A compaixão, porém, é o abismo mais profundo: tão fundo quanto o humano vê na vida, tão fundo vê também no sofrimento.

Coragem, porém, é o melhor matador, coragem que ataca: ela mata ainda a morte, pois fala: "Era isso a vida? Pois bem! Mais uma vez!"

Em tal sentença, porém, há muito toque de clarins. Quem tem ouvidos, ouça. -

#### 2.

"Alto! Anão!", falei. "Eu! Ou tu! Eu, porém, sou o mais forte de nós dois: - tu não conheces meu pensamento abissal!

Esse - tu não poderias suportar!" -

Então aconteceu o que me tornou mais leve: pois o anão saltou de meu ombro, o curioso! E agachou-se sobre uma pedra diante de mim. Havia justamente ali um portal onde paramos.

"Vê este portal! Anão!", continuei: "ele tem duas faces. Dois caminhos aqui se encontram: ninguém ainda os percorreu até o fim.

Esta longa rua para trás: dura uma eternidade. E aquela longa rua para fora - é outra eternidade.

Eles se contradizem, estes caminhos; chocam-se de frente: - e aqui, neste portal, é onde se encontram. O nome do portal está escrito acima: 'Instante'.

Mas se alguém seguisse por um deles adiante - e sempre adiante e sempre mais longe: acreditas, anão, que esses caminhos se contradigam eternamente?" -

"Tudo o que é reto mente", murmurou desdenhosamente o anão. "Toda verdade é curva, o próprio tempo é um círculo."

"Tu, espírito de gravidade!", falei irado, "não tornes isso leve demais para ti! Ou te deixo agachado onde estás, pé-manco - e eu te carreguei para o alto!

Vê", continuei, "este instante! Deste portal Instante corre uma longa rua eterna para trás: atrás de nós jaz uma eternidade.

Não deve tudo o que pode correr, de todas as coisas, já ter corrido uma vez por esta rua? Não deve tudo o que pode acontecer, de todas as coisas, já ter acontecido, sido feito, passado?

E se tudo já esteve aí: que pensas, anão, deste instante? Não deve também este portal já ter estado aí?

E não estão todas as coisas tão firmemente enlaçadas que este instante arrasta atrás de si todas as coisas vindouras? Portanto - ainda a si mesmo?

Pois tudo o que pode correr, de todas as coisas: também nesta longa rua para fora - deve ainda correr uma vez!

E esta lenta aranha, que rasteja ao luar, e esse próprio luar, e eu e tu no portal, sussurrando juntos, sussurrando sobre coisas eternas - não devemos todos já ter estado aí?

- e retornar e correr naquela outra rua, para fora, diante de nós, nesta longa rua assustadora - não devemos retornar eternamente?" -

Assim eu falava, e cada vez mais baixo: pois tinha medo de meus próprios pensamentos e pensamentos ocultos. Então, de repente, ouvi um cão uivar perto.

Alguma vez ouvi um cão uivar assim? Meu pensamento correu para trás. Sim! Quando eu era criança, na mais distante infância:

- então ouvi um cão uivar assim. E também o vi, eriçado, a cabeça para cima, tremendo, na mais silenciosa meia-noite, quando também os cães acreditam em fantasmas:

- de modo que tive compaixão dele. Justamente então a lua cheia passava, muda como a morte, sobre a casa; justamente então estava parada, uma brasa redonda - silenciosa sobre o telhado plano, como sobre propriedade alheia: -

por isso se assustara então o cão: pois cães acreditam em ladrões e fantasmas. E quando de novo ouvi tal uivo, tive compaixão outra vez.

Para onde fora agora o anão? E o portal? E a aranha? E todo sussurro? Eu sonhava, então? Acordei? Entre rochedos selvagens estava eu de repente, sozinho, desolado, no mais desolado luar.

Mas ali jazia um humano! E ali! O cão, saltando, eriçado, ganindo - agora ele me viu chegar - então uivou de novo, então gritou: - alguma vez ouvi um cão gritar assim por socorro?

E, em verdade, o que vi, igual nunca vi. Vi um jovem pastor, contorcendo-se, sufocando, estremecendo, de rosto desfigurado, de cuja boca pendia uma serpente negra e pesada.

Vi alguma vez tanto nojo e pálido horror em um só rosto? Ele certamente dormira? Então a serpente lhe rastejou para dentro da garganta - então ali se agarrou mordendo.

Minha mão puxou a serpente, puxou: - em vão! não arrancou a serpente da garganta. Então gritou de dentro de mim: "Morde! Morde!

A cabeça fora! Morde!" - assim gritou de dentro de mim meu horror, meu ódio, meu nojo, minha compaixão, todo o meu bom e mau gritou com um só grito de dentro de mim. -

Vós, audazes ao meu redor! Vós, buscadores, tentadores, e quem de vós embarcou com velas astutas em mares inexplorados! Vós, alegres com enigmas!

Adivinhai-me, pois, o enigma que então contemplei, interpretai-me, pois, a visão do mais solitário!

Pois foi uma visão e uma previsão: - o que vi então em parábola? E quem é aquele que um dia ainda deve vir?

Quem é o pastor em cuja garganta assim rastejou a serpente? Quem é o humano em cuja garganta assim rastejará tudo o que há de mais pesado, mais negro?

- O pastor, porém, mordeu como meu grito lhe aconselhava; mordeu com boa mordida! Cuspiu longe a cabeça da serpente: - e saltou de pé. -

Não mais pastor, não mais humano - um transformado, um iluminado, que ria! Nunca ainda na terra riu um humano como ele ria!

Ó meus irmãos, ouvi um riso que não era riso de humano - e agora uma sede me devora, uma saudade que jamais se aquieta.

Minha saudade desse riso me devora: ó como ainda suporto viver! E como suportaria agora morrer! -

Assim falou Zaratustra.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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