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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

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Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Capítulo 57 · Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Do Espírito de Gravidade

57 de 82 ≈ 8 min de leitura

Do Espírito de Gravidade

#### 1.

Minha boca - é a do povo: falo de modo grosseiro e cordial demais para as lebres de seda. E ainda mais estranha soa minha palavra a todos os peixes-de-tinta e raposas-de-pena.

Minha mão - é mão de tolo: ai de todas as mesas e paredes, e do que ainda tenha lugar para ornamento de tolo, garatuja de tolo!

Meu pé - é pé de cavalo; com ele piso e troto por paus e pedras, de través e campo adentro, e fico possesso de prazer em toda corrida veloz.

Meu estômago - será talvez estômago de águia? Pois ama acima de tudo carne de cordeiro. Mas certamente é estômago de ave.

Nutrido por coisas inocentes e por pouco, pronto e impaciente para voar, voar para longe - esta é agora minha espécie: como não haveria nela algo de espécie de ave!

E sobretudo que eu seja inimigo do espírito de gravidade, isso é espécie de ave: e, em verdade, inimigo mortal, arqui-inimigo, inimigo primordial! Ó para onde minha inimizade já não voou e se extraviou!

Disso eu já poderia cantar uma canção - e quero cantá-la: embora esteja sozinho em casa vazia e deva cantá-la a meus próprios ouvidos.

Há certamente outros cantores a quem só a casa cheia torna a garganta aberta, a mão falante, o olho expressivo, o coração desperto: - a esses não me assemelho. -

#### 2.

Quem um dia ensinar os humanos a voar terá deslocado todos os marcos de fronteira; os próprios marcos de fronteira voarão pelos ares para ele, ele batizará novamente a terra - como "a Leve".

O avestruz corre mais depressa que o cavalo mais veloz, mas também ele ainda enfia pesadamente a cabeça na terra pesada: assim é o humano que ainda não sabe voar.

Pesados lhe parecem terra e vida; e assim o quer o espírito de gravidade! Mas quem quer tornar-se leve e ave deve amar a si mesmo: - assim ensino eu.

Não, certamente, com o amor dos doentes e viciados: pois neles até o amor-próprio fede!

É preciso aprender a amar a si mesmo - assim ensino eu - com um amor íntegro e saudável: para que se suporte estar consigo mesmo e não vagueie por aí.

Tal vaguear se batiza "amor ao próximo": com essa palavra se mentiu e se fingiu até agora do melhor modo, especialmente por aqueles que pesavam sobre todo o mundo.

E, em verdade, aprender a amar a si mesmo não é mandamento para hoje e amanhã. Antes, de todas as artes, esta é a mais fina, mais astuta, última e mais paciente.

Pois para seu possuidor tudo o que é próprio fica bem escondido; e de todas as minas de tesouro, a própria é a última a ser escavada - assim opera o espírito de gravidade.

Quase no berço já nos dão palavras e valores pesados: "bom" e "mau" - assim se chama esse dote. Por causa dele nos perdoam por vivermos.

E para isso deixam vir a si as criancinhas: para que a tempo as impeçam de amar a si mesmas; assim opera o espírito de gravidade.

E nós - nós carregamos fielmente o que nos dão, sobre ombros duros e por montanhas ásperas! E, se suamos, dizem-nos: "Sim, a vida é difícil de carregar!"

Mas somente o humano é difícil de carregar para si mesmo! Isso porque carrega coisa estrangeira demais sobre os ombros. Igual ao camelo, ajoelha-se e se deixa carregar bem.

Especialmente o humano forte, suportador, em quem habita a reverência: demasiadas palavras e valores estrangeiros e pesados ele carrega sobre si - então a vida lhe parece um deserto!

E, em verdade! Também muita coisa própria é difícil de carregar! E muito do interior do humano se assemelha à ostra, a saber, nauseante, escorregadio e difícil de agarrar -

- de modo que uma concha nobre, com nobre ornamento, deve interceder por ele. Mas também esta arte é preciso aprender: ter concha, bela aparência e sábia cegueira!

De novo engana muita coisa no humano o fato de algumas conchas serem pobres e tristes e conchas demais. Muita bondade e força escondidas jamais são adivinhadas; os petiscos mais preciosos não encontram provadores!

As mulheres sabem disso, as mais preciosas: um pouco mais gordas, um pouco mais magras - ó quanto destino jaz em tão pouco!

O humano é difícil de descobrir, e a si mesmo o mais difícil; muitas vezes o espírito mente sobre a alma. Assim opera o espírito de gravidade.

Mas descobriu a si mesmo aquele que diz: isto é o meu bom e mau; com isso emudeceu a toupeira e o anão que dizem: "bom para todos, mau para todos."

Em verdade, também não gosto daqueles para quem toda coisa se chama boa e este mundo até o melhor. A esses chamo os que se satisfazem com tudo.

Satisfação-com-tudo, que sabe saborear tudo: isso não é o melhor gosto! Honro as línguas e estômagos rebeldes e seletivos, que aprenderam a dizer "Eu" e "Sim" e "Não".

Mas mastigar e digerir tudo - isso é uma verdadeira espécie suína! Dizer sempre i-á - isso só aprendeu o burro, e quem é de seu espírito! -

O amarelo profundo e o vermelho ardente: assim o quer meu gosto - ele mistura sangue a todas as cores. Quem, porém, cai de branco sua casa, denuncia-me uma alma caiada.

Uns apaixonados por múmias, outros por fantasmas; e ambos igualmente inimigos de toda carne e sangue - ó como ambos me contrariam o gosto! Pois amo o sangue.

E ali não quero morar nem permanecer onde todos cospem e escarram: este é agora meu gosto - antes viveria entre ladrões e perjuros. Ninguém carrega ouro na boca.

Mais repugnantes, porém, me são todos os lambedores de saliva; e o mais repugnante animal humano que encontrei, eu o batizei parasita: ele não queria amar e, contudo, viver de amor.

Infelizes chamo todos os que têm apenas uma escolha: tornar-se animais maus ou maus domadores de animais: junto desses eu não construiria minhas cabanas.

Infelizes chamo também aqueles que sempre precisam esperar - esses me contrariam o gosto: todos os cobradores de impostos e mercadores e reis e outros guardiões de países e lojas.

Em verdade, também aprendi a esperar, e desde o fundo - mas apenas a esperar por mim. E, acima de tudo, aprendi a ficar de pé, andar, correr, saltar, escalar e dançar.

Esta, porém, é minha doutrina: quem um dia quer aprender a voar deve primeiro aprender a ficar de pé, andar, correr, escalar e dançar: - não se aprende a voar voando!

Com escadas de corda aprendi a escalar muitas janelas, com pernas ágeis subi a mastros altos: sentar-se em altos mastros do conhecimento não me parecia pequena bem-aventurança -

- tremular como pequenas chamas em altos mastros: uma pequena luz, decerto, mas ainda assim um grande consolo para marinheiros desgarrados e náufragos! -

Por muitos caminhos e modos cheguei à minha verdade; não por uma única escada subi à altura de onde meu olhar vagueia por minha distância.

E sempre perguntei a contragosto pelos caminhos - isso sempre me contrariou o gosto! Antes eu perguntava e experimentava os próprios caminhos.

Um experimentar e perguntar foi todo o meu caminhar: - e, em verdade, também é preciso aprender a responder a tal perguntar! Isso, porém - é meu gosto:

- nem bom, nem mau, mas meu gosto, do qual já não tenho vergonha nem segredo.

"Este - é agora meu caminho - onde está o vosso?" assim respondia àqueles que me perguntavam "pelo caminho". Pois o caminho - não existe!

Assim falou Zaratustra.

Assim Falou Zaratustra: Um Livro para Todos e para Ninguém

Sinopse

Tradução Literunico em português brasileiro de Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Wilhelm Nietzsche, preparada a partir da edição alemã em domínio público do Project Gutenberg. Obra filosófica e poética em forma de sermões, cantos e parábolas, acompanha o retorno de Zaratustra entre homens, discípulos, solidão, anúncio do além-do-homem, eterno retorno e transfiguração da vontade.

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